Uruçuí

 

pauloHá trinta anos fiz uma viagem ao Piauí, minha terra natal. Foi uma epopéia que incluiu o percurso pela Brasíia-Belém a bordo de uma Kombi. Levei filhos e sobrinhos para conhecer um pouco das terras que JK decidiu ocupar no interior do país, além das águas tépidas da Parnaíba que, eu também não conhecia mas onde minha mãe deve ter me banhado levando-me em seus braços ao encontro das ondas serenas.

 

Quando nasci, meus pais migraram para o Rio de Janeiro e, depois da morte de meu pai, resolvi retornar às minhas origens. Conheci algumas cidades de Goiás, Pará e Maranhão, até entrar no Piauí.

 

Na volta para Brasília, passei por cidades que ouvia meu pai descrever. Eram as terras do seu tempo, das suas alegrias e das suas agruras. Conheci União, Floriano, Campo Maior e tantas outras às margens do Rio Parnaíba, como Uruçuí, quase no umbigo do estado. Pela estrada, quase não se via nada além da mata característica do sertão. Quilômetros e quilômetros de estrada sem um cantinho para beber água ou ir ao banheiro. A criançada reclamava, mas suportava o calor e a poeira, pois sabiam que eram desbravadores. Faziam história.

 

As crianças, hoje adultos, nas reuniões familiares, relembram a viagem como se tivesse sido a “Volta ao Mundo em quarenta dias”. É uma boa lembrança.

 

Há alguns dias, fui a Teresina. Lá, fiquei impressionado com o progresso e desenvolvimento da cidade. Às margens do Rio Poti, numa larga avenida, estão construídos prédios residenciais de luxo, que não ficam nada a dever às grandes cidades litorâneas.

 

Um paranaense, produtor rural, convidou-me para conhecer a cidade de Uruçuí onde ele possui terras com plantação de grãos. Com tempo, decidi ir olhar a fronteira agrícola da minha terra. Foram cinco horas de carro até a cidade. Chegamos ao cair do sol. A impressão que tive ao ver o entardecer foi a mesma que se tem ao olhar o infinito à frente do mar.

 

Uma extensão sem limites de um verde forte se encontrava com o céu. Pedi ao motorista que me deixasse fotografar a cena. Era linda. Era uma plantação de soja no seu esplendor.
Na casa da fazenda, exausto e faminto, nos fartamos com a mesa nordestina com suas comidas saborosas e sucos naturais. O sono foi reconfortante. Pela manhã, o canto do galo madrugador fez com que todos se levantassem. Novamente a mesa farta.

 

Agora, disse o anfitrião, iremos percorrer algumas propriedades para você ver o que nos fez sair das nossas cidades no sul do país e vir produzir nessas terras abençoadas. O sertão que meu pai descrevia, quando da seca do início do século XX como uma terra sem vida, havia se transformado num celeiro de alimentos.

 

Grandes fazendas, quase sempre de sulistas, se estendem por todos os lados. Imensos silos se destacam na paisagem juntamente com as reservas florestais que se despontam no verde da soja a cada instante. Campos de pouso recebem pequenas aeronaves que trazem compradores de grãos e vendedores de insumos e máquinas. A economia forte é a roda da fortuna. O respeito à terra, aos animais e às nascentes desmentem a publicidade dos pregadores do fim do mundo. Afinal, os produtores vivem com suas famílias e não desejam destruir o futuro de seus filhos.

 

Mas, o fim do mundo também está por lá. Na estrada até a cidade passamos por um pequeno trecho esburacado e empoeirado. Dizem que a prefeitura não se interessa em concluir aquele pedacinho de chão. Deve ser verdade, pois, Uruçuí, centro de uma região próspera, parece não ter poder público. Esgoto a céu aberto, rodoviária precária, sem hotéis e população abandonada. Nesse dia, por acaso, o povo saiu às ruas em protesto. A cidade não possui jornais, e os meios de divulgação são os microfones ambulantes e um site precário por falta de internet banda larga. As motocicletas são usadas por até quatro pessoas. O índice de acidentes fatais é assustador. O ônibus que vai para Teresina tem que ser pego no Maranhão, do outro lado da ponte. Uma van, caindo aos pedaços, faz o transporte.

 

Uruçuí é o Brasil. Rica, próspera e com futuro promissor. É também pobre, abandonada, sem saúde, educação e segurança. É orgulho e tristeza. Espero que o povo de Uruçuí escolha um bom prefeito nas próximas eleições.

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