
(J. Edgar) EUA, 2011. Direção: Clint Eastwood. Elenco: Leonardo DiCaprio, Naomi Watts, Armie Hammer, Judi Dench. * * * * +
John Edgar Hoover não fez do FBI uma poderosa e competente agência de investigação de crimes federais e de combate ao crime organizado, temida e respeitada até hoje, apenas para servir ao Estado, à nação ou ao presidente dos Estados Unidos. Hoover (que preferia ser chamado de “Edgar”, mostrando repulsa ao prenome comum “John”, e se assinava “J. Edgar”) era dono de um ego imenso, um indivíduo tremendamente narcisista, cultivando uma ambição sem limites pelo poder. Era organizado, disciplinado, autoritário, líder absoluto e inconteste, e com um incrível olho clínico para as fraquezas, vícios e defeitos de caráter.
Dito assim, parece o perfil de um autocrata acima de qualquer suspeita. Hoover, porém – pelo menos nesta versão do ator e cineasta Clint Eastwood, ex-caubói, ex-detetive, diretor full time – tinha um defeito que, à época, se divulgado, certamente teria arruinado sua imagem, sua carreira pública e sua vida: ele era homossexual, algo que sua mãe, Anna (Dench, a “chefona” de 007), jamais admitiu como algo possível. Era inevitável, porém, que Hoover acabasse enveredando por esse caminho, já que Anna era dominadora, manipuladora, controladora. Hoover devotou amor incondicional, durante toda a sua vida, a duas pessoas: a mãe, que ele venerava acima de tudo; e seu amante Clyde Tolson (Hammer), um tipo alto, bonitão, culto, sedutor e bem-falante, que o chefão do FBI logo nomeou seu vice-diretor e com quem vivia às turras, numa relação nunca inteiramente resolvida.
Hoover costumava dizer que “informação é poder”. Com outras palavras, o pensador francês Michel Foucault, que também era homossexual e estudou o assunto do outro lado do balcão, dizia a mesma coisa, apenas trocando “informação” por “saber”. De qualquer forma, o diretor do FBI por 48 anos (1924-1972) sobreviveu a oito presidentes, de Warren Harding a Richard Nixon, e o fez da maneira mais heterodoxa possível: guardando a sete chaves, com a ajuda de sua fiel escudeira Helen Gandy (Watts), os segredos torpes e inconfessáveis dos chefes de Estado e de seus familiares. Todos os presidentes o temiam, e nenhum ousava encostar um dedo em Hoover, dono de uma inviolável “caixa preta” do poder. E não apenas presidentes: artistas, políticos, intelectuais, também. Que o digam o senador Joseph McCarthy e as investigações que ele deflagrou na famosa “caça às bruxas”.
O filme mostra Hoover (DiCaprio, num desempenho apenas mediano, apesar de esforçado, tanto que não concorre ao Oscar® de Melhor Ator), iniciando como assistente do Secretário de Justiça, em 1919 e a seguir assumindo a direção do Bureau em 1924, ao qual a partir de 1930 foi agregado o adjetivo “Federal”. Hoover realmente mereceu os elogios que lhe foram dirigidos por alguns presidentes – que não eram bobos nem nada –, já que fora o criador do primeiro arquivo de impressões digitais dos EUA e do laboratório de criminalística mais avançado do mundo, além de haver criado um corpo de agentes especiais praticamente intocável, absolutamente fiéis a ele, depois de haver expurgado do departamento os elementos suspeitos de corrupção, bem como os despreparados tecnicamente e os que não se dedicavam de corpo e alma à instituição. Com ele surgiu a Academia Nacional de Polícia, para a formação permanente dos agentes. No fim, no fundo, o chefão criou um órgão que ele transformou, como queria, em seu feudo particular.
As lentes de Clint Eastwood, neste seu 35º filme, focam muito mais na vida pessoal e no drama íntimo de Hoover, colocando em segundo plano sua trajetória profissional. Por jamais ter aceitado sua condição sexual, resolveu posar de vestal, escondendo-se atrás da perseguição aos homossexuais, negros, comunistas e outras minorias. Ao mesmo tempo, maquiou sua biografia, proclamando-se como responsável pela solução do caso Lindbergh e pela prisão de criminosos famosos nos quais, no fim das contas, jamais encostara a mão. 8.5/10.
Nota: Se você é leitor assíduo desta Coluna e ainda não assistiu ao clássico Meu Ódio Será Sua Herança, está na hora de reavaliar os seus conceitos sobre Cinema.