Sylvio Costa - Um site corajoso

 

Sem dúvida nenhuma, a novidade na mídia da capital da República é o site jornalístico o Congresso em Foco, que vem alcançando os acontecimentos políticos, investindo em técnicas e ferramentas jornalísticas. Foi lançado em fevereiro de 2004, e já conquistou prêmios como o Troféu Tim Lopes do Prêmio Imprensa Embratel e o Prêmio Vladimir Herzog, registrando citação do veículo na revista inglesa The Economist. O jornalista Sylvio Costa, que fundou o site, está como diretor, depois de uma trajetória profissional como repórter e editor, trabalhando no Correio Braziliense, Folha de S. Paulo, IstoÉ e Gazeta Mercantil, além, de Mestre em Comunicações pela Universidade de Westminster, em Londres, onde aprendeu tudo para  ter o seu próprio veículo.

 

À frente de um site que não tem medo, onde prevalece a verdade e a importância de uma imprensa limpa, Sylvio Costa é um profissional que não recua diante da verdade, e, por isso mesmo, tem na Justiça dezenas de ações contra Congresso em Foco. O mais recente partiu dos servidores do Senado Federal, quando o Congresso em Foco, através de seu site, tornou público o salário de 464 servidores da União, revelando nomes e vencimentos pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

 

Na entrevista que segue, Sylvio Costa afirma que, na administração federal há cerca de 4 mil servidores ganhando acima do teto. Pela Constituição, os salários são limitados em até R$ 26.700,00, equivalente ao que recebe um ministro do Supremo Tribunal Federal. “Mas, no caso do Senado, a gente teve acesso a uma lista de 464 servidores que recebem acima desse teto. Essa relação, inclusive, tinha sido levantada por uma auditoria do Tribunal de Contas da União, o TCU. Tínhamos a lista na mão, com pessoas que ganhavam até R$ 45 mil reais por mês, citando nomes e salários”.

 

Sylvio Costa, nesta edição, conta como teve a ideia do site, analisa Brasília, como capital da República, fala sobre a ditadura - principalmente sobre a censura do regime militar - e a censura vista pela imprensa, hoje, inclusive sobre a fonte que, ao dar uma notícia,  corre o risco proporcional ao impacto da notícia.

 

Vale ler, sem dúvida.

 

- Brasília é uma importante fonte de informação, até porque a cidade concentra os poderes...

 

- De certa maneira, Brasília é um paraíso para jornalistas políticos. Temos uma quantidade de fontes, muitas delas bastante receptivas, que dão informações. Tem uma cultura que está, cada vez mais, ganhando corpo, que é uma maior transparência nas ações dos diversos poderes... Agora, a vida de um jornalista, aqui em Brasília, não é um paraíso, um mar de rosas. A gente também enfrenta muita dificuldade para obter certos tipos de informações, como muitas coisas que as autoridades ou que os altos servidores públicos entendem que devem ser mantidas em sigilo. De um modo geral, em Brasília a gente tem um terreno muito propício à busca de informações exclusivas e interessantes, mas com esse porém - que ainda há algumas exceções que precisam ser superadas. Outra coisa que pega muito: tem tanta notícia aqui, que, muitas vezes, se tropeça nela com muita facilidade.  Acho que boa parte do nosso trabalho é definir prioridades - o que será feito, selecionar os assuntos e temas - porque é impossível cobrir tudo aqui.

 

- Com o Congresso e os presidentes morando na cidade, foi possível consolidar a nova capital?

 

- Tem aquela polêmica: tem gente que trata Brasília como uma cidade fantasma, como a Ilha da Fantasia...

 

- Ainda existe isso?

 

- Acredito que sim, e tem também muita gente que confunde Brasília, a capital política do país, com Brasília, a cidade. A gente vê nos jornais, revistas e outras publicações muitos redatores do Rio e de São Paulo dizendo: “Ah, Brasília decidiu isso, Brasília aprontou aquilo...”. Com Brasília encarnando o mal, os problemas, sendo o Brasil vítima dessa capital nefasta, perniciosa, que conspira contra o povo. Nós demos muitos passos no sentido de fazer de Brasília uma cidade de verdade, que tem pessoas, que tem vida própria, que tem gente que se manifesta. Apesar da óbvia dependência que existe da cidade em relação ao governo e ao poder público, já vimos várias vezes manifestações populares de protesto contra o governo e determinadas medidas.

 

- Já na ditadura...

 

- Na ditadura, teve o panelaço. Depois, com o Collor, tivemos os caras-pintadas. Mais recentemente, embora não com a mesma dimensão, foram as manifestações contra a corrupção. Acredito que a gente caminhou muito no sentido de consolidar a cidade como capital, mas ainda falta fazer bastante coisa. Na área cultural, por exemplo, ainda há uma dívida. Para a capital de um país com a força cultural do Brasil, poderíamos ter um movimento cultural mais dinâmico, mais opções culturais.

 

- Jânio Quadros pretendia levar a capital de volta para o Rio de Janeiro. Já a ditadura viabilizou a nova capital, porque, para eles, interessava que todo o poder fosse aqui em Brasília. Como vê isso?

 

- Falam que Brasília foi feita de uma maneira que afastou o povo do poder, por causa da arquitetura e da geografia da cidade, tão distante dos principais aglomerados urbanos do país. Mas não é muito a minha opinião, não. Acho que os militares tiveram essa intenção, sim, sem dúvida nenhuma, e, por muito tempo, o povo foi proibido de se manifestar, de interferir - também é uma verdade indiscutível. Agora, não acho que seja nem a geografia nem a arquitetura obstáculos intransponíveis quando a população resolve se organizar e reagir contra os desmandos. A gente viu isso na crise de Fernando Collor, no movimento da Ficha Limpa, em atos contra a corrupção, embora em uma escala menor. Na verdade, o que existe da parte de algumas pessoas é uma incompreensão da cidade. Acho que Brasília é uma cidade pouco compreendida. É um pouco a Geni nacional. Se há alguma coisa errada, a culpa é de Brasília. A culpa é deles, de quem está longe. Do Congresso, do governo, dos caras lá de Brasília. Muitos até se esquecem que ajudaram a eleger aquele Congresso e aquele governo. Claro que há muitos problemas na cidade, há imensa necessidade de mudar hábitos, de fiscalizar as autoridades, mas atribuir todos os problemas a Brasília é um erro óbvio. Nos Estados Unidos, muitos cidadãos comuns pensam e falam o mesmo de Washington...   

 

- Qual é o papel do povo?

 

- Se o povo não reage, não se mobiliza, se certas coisas erradas acontecem no país sem a devida confrontação por parte da nação, isso é responsabilidade de cada um de nós. Culpar a cidade por isso é bobagem e, na verdade, analisando friamente, com base na história, nos indicadores econômicos e sociais, trazer a capital para o interior do Brasil foi uma atitude muito positiva para o país. Os reflexos positivos da construção de Brasília para a nação são inegáveis. A verdade é que muita gente, principalmente no Rio, ainda não perdoa até hoje o fato de Brasília ter se tornado a capital.

 

- Como o senhor vê a imprensa do Brasil hoje?

 

- Tem muita coisa boa, muita gente boa fazendo coisas muito legais, ainda mais agora com a novidade da internet. Antigamente, você tinha os grandes veículos profissionais de alta qualidade fazendo coisas importantes, interessantes e bem feitas e, ainda hoje, acontece isso. Mas, agora, tem também a internet, com pequenos veículos, com sites independentes, como o nosso, agregando opções, trazendo novas possibilidades de informação e de participação para as pessoas. É difícil fazer uma análise definitiva da imprensa, porque tem dia que é muito interessante ler jornais, revistas e acessar a internet e tem dia que é mais sem graça, não há coisas tão interessantes.

 

- A fonte que dá uma notícia está correndo o risco proporcional ao impacto da notícia?

 

- Acredito que sim. Quem dá uma informação absolutamente bombástica, naturalmente vai, de alguma maneira, pagar por isso, ser questionado, ou não. Evidente que tem sempre a oportunidade de se passar informações de maneira sigilosa. Nós, por exemplo, sempre tivemos muito cuidado para não botar ninguém em enrascada, procurando preservar pessoas que, de alguma maneira, nos permitiram ter acesso a informações exclusivas. Mas, evidentemente, existem riscos para quem divulga informações bombásticas. Mas, muitas vezes, o risco maior é o risco da omissão, é de se calar em relação a fatos que merecem chegar ao conhecimento público.

 

- O ideal é checar o que for possível?

 

- Checar nunca é demais, é da natureza do ser humano errar. E para a gente acertar, tem que olhar, olhar de novo, revisar e, mesmo assim, continuaremos propensos ao erro. Imagine um sujeito que vai fazer um filme. Às vezes demora três, quatro anos, ou até mais, se contar a fase de captação de recursos. E, mesmo assim, há falhas de continuidade, problemas visíveis, mesmo em superproduções. Em um livro, feito com grande cuidado e com grandes equipes - até em dicionários - há erros. Não poderia ser diferente no jornalismo, que é feito com imensa rapidez, muitas vezes em condições bastante adversas. Então checar é absolutamente vital em nosso ofício.

 

- É preciso a intuição também?

 

- Sem dúvida! Isso é central na profissão, não estamos falando de matemática, não é uma fórmula que se aplica e pronto! Jornalismo tem mais a ver com sensibilidade, com a capacidade de ver notícia naquilo que para outros pode parecer banal. Veja que o próprio conceito de notícia não é um negócio simples. Há várias definições, a maioria delas muito complicadas, e vamos percebendo o que é notícia muito mais a partir da experiência, da vivência, da intuição, da sensibilidade.

 

- Um bom jornalista tem que matar um tigre por dia para demonstrar que é um bom caçador?

 

- Eu não gosto dessa imagem, não. Eu acho pouco ecológica, ainda mais que, no horóscopo chinês, sou tigre. Mas é uma profissão em que se tem que dar muito duro, trabalhar muito todos os dias e o sucesso é efêmero. A gente vê isso todos os dias. Trabalhei muitos anos em redações de grandes veículos, fiz várias matérias que tiveram grande repercussão e passei várias vezes por essa sensação. Vive-se aquele “sucessinho”, evidentemente, ganha-se um prêmio jornalístico, que é um afago, mas, no dia seguinte, tem que aparecer para trabalhar e trazer uma coisa nova. A glória do passado não é atestado de competência para ninguém no jornalismo. Todo dia é um novo dia, e mesmo quem já fez as melhores coisas do mundo vai ser cobrado a fazer melhor no dia seguinte. O passado não avaliza o presente e nem o futuro de ninguém no jornalismo.

 

- Os jornalistas já têm a consciência de que não existe o verbo desimprimir?

 

- Essa consciência tem aumentado muito. Vejo alguns jornalistas antigos, veteranos dizerem que bons eram os jornalistas do passado, que a imprensa de antigamente era muito melhor, que os jornais estão todos uma porcaria. Ouço muitas críticas de jornalistas veteranos e eu posso me considerar veterano também, porque comecei a trabalhar com 15 anos e estou indo para 50. Há mais de 30 anos que estou fazendo isso. Ouço-os dizerem isso e não concordo muito.
E uma das razões para eu discordar é esta: no jornalismo atual, vejo um cuidado crescente com o que se publica ou se transmite. Até porque o público que consome informação também mudou. Ele não é mais apenas consumidor. Com a internet, ele também participa, publica, mantém blogs, questiona, mostra os erros que nós, jornalistas, cometemos.

 

- O que é pior: a censura do regime militar ou a autocensura?

 

- A censura militar foi uma coisa absurda, terrível, algo que a gente espera não viver nunca mais. Eu diria que a pior das censuras é a que se impõe pela força dos fuzis. Mas a autocensura também é uma coisa muito complicada, você deixar de levar a público certas informações por medo - no fundo ela é isso. Agora, há vários outros tipos de censura. A censura econômica, imposta pelos anunciantes. A censura judicial, quando alguns juízes extrapolam das suas atribuições e impedem que certos veículos cubram alguns assuntos, o que infelizmente tem ocorrido com grande frequência no país. E tem também uma censura que eu chamaria talvez de cultural, ou seja, ela decorre da nossa incapacidade de apurar e debater questões fundamentais.   Há certas questões que eu acho que poderiam ser um pouco mais investigadas no Brasil do que são.

 

- Por exemplo?

 

- Questões ligadas ao sistema bancário brasileiro, por exemplo. Visões de política econômica ou de modelo econômico alternativas àquela que predomina nos bancos brasileiros raramente estão disponíveis para o grande público. O noticiário econômico, no Brasil, a meu ver, é muito marcado por isso. E, como montar um grande veículo é algo extremamente caro, o grosso da população não tem acesso a ideias no campo da economia que divirjam da visão dos economistas-chefes dos grandes bancos. Na área de transportes, noto algo semelhante. Impera nos grandes veículos uma visão muito pró-automóvel. Desde Juscelino, somos uma nação meio a reboque das indústrias automobilísticas. Juscelino foi o primeiro a fazer a opção pelo rodoviarismo, o que levou ao abandono de uma malha ferroviária importante. E todos os outros continuaram nessa trilha. Paulo Maluf fez a fama construindo estradas, túneis... O Lula deve parte do seu prestígio às facilidades que seu governo ofereceu para a compra de carros. Mesmo hoje, o governo continua dando incentivos. Enfim, tem toda uma mentalidade no Brasil rodoviarista e de culto ao automóvel individual que é uma catástrofe. As grandes cidades brasileiras são intransitáveis, os danos ao meio ambiente enormes, o transporte coletivo foi deixado de lado. E essa é uma discussão que você não encontra na mídia, pelo menos não com a importância e o destaque que ela merece.

 

- Como surgiu a ideia do site Congresso em Foco?

 

- Depois de um longo período em redações, à época já trabalhando como empreendedor, numa agência de publicações que eu criei, vi que havia possibilidade de fazer uma cobertura do Congresso Nacional alternativa àquela cobertura que era e continua sendo feita pela imprensa. A cobertura feita tradicionalmente era mais generalista, na linha de “o Congresso aprovou, a Câmara fez, o Senado decidiu...”. A ideia era dar nome aos bois. Mas quem decidiu? Parece um pouco a confusão que alguns jornais fazem com Brasília. Não foi Brasília quem decidiu, foi o ministro tal do Supremo Tribunal Federal, foi o presidente da República, foram tais e tais deputados que votaram isso. O Congresso em Foco vem dessa vontade de disseminar esse tipo de informação: quem são os congressistas, o que eles fazem, se eles comparecem às sessões, quais as pendências judiciais... É isso que temos procurado fazer nestes oito anos de existência do site. Além disso, temos uma conduta rigorosamente independente, apartidária, mas abrindo espaço para a manifestação das mais diversas correntes de pensamento. Temos mais de 40 colunistas, das mais diversas áreas e perfis ideológicos, que nos ajudam a construir um espaço democrático de reflexão sobre o país e os temas nacionais.

 

- E o que aconteceu agora no Senado?

 

- Uma das coisas legais que a experiência do Congresso em Foco tem nos proporcionado é a convivência com gente nova e talentosa.
Então, temos uma equipe muito boa, que inclui um repórter, o Eduardo Militão, que começou a fazer uma série de reportagens sobre os supersalários na área federal. Ou seja, aqueles salários que estão acima do teto constitucional. Hoje, de acordo com a Constituição, ninguém pode ganhar mais do que R$ 26.700,00, que é a remuneração do ministro de Supremo Tribunal Federal. A Constituição está aí desde 1988 e essa regra nunca foi aplicada. E tem hoje, pelo levantamento que o Militão fez, e que nós publicamos, cerca de 4.000 servidores federais que estão ganhando acima disso. Mas, no caso do Senado, a gente teve acesso a uma lista dos servidores, porque ali o Militão teve a felicidade de pegar a relação dos 464 servidores que ganhavam acima do teto – essa relação tinha sido levantada por uma auditoria do Tribunal de Contas da União, o TCU. Tínhamos a lista na mão, pessoas que ganhavam até R$ 45 mil reais por mês, com nome e salário - a minha vontade era publicar isso, porque faço jornalismo para publicar, não para engavetar as coisas, mas tivemos o cuidado de consultar antes vários juristas. Eles disseram que não apenas poderíamos, como deveríamos publicar tudo, por se tratar de informação de interesse público.

 

- O que aconteceu?

 

- Aconteceu que o Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo, o Sindilegis, iniciou uma campanha para estimular os funcionários dessa lista a nos processarem, sob a alegação de que teríamos violado o direito à privacidade deles. Dos 464, 43 entraram com ações individuais, cada um pedindo uma indenização de R$ 21,8 mil. Tivemos também um processo do ex-diretor-geral do Senado, Haroldo Tajra, que pela mesma razão, pede uma indenização de R$ 82 mil. E o Sindilegis também entrou com duas ações. Ou seja, essa história nos gerou 46 processos judiciais e transformou nossa vida num inferno. Do final de janeiro a começo de fevereiro, a equipe do Congresso em Foco estava quase que pela metade - uma parte ia para o Congresso atrás de matéria, e outra ia para a Justiça, porque todos têm que estar presentes na audiência. Se não estiverem todos, é considerado revel, é quase como uma autocondenação. Como nós somos sete jornalistas e temos uma equipe de apoio muito reduzida, o jeito era nós fazermos um rodízio entre os sete jornalistas. Estou muito confiante de que teremos vitória nesses processos. O que nos preocupa é a repercussão financeira disso, porque vamos ter que pagar, no mínimo, o escritório de advocacia Barbosa & Dias, do Jurista Joelson Dias, que está fazendo um excelente trabalho. Temos aí uma situação curiosa que é a seguinte: o sujeito processa você de uma maneira que, mesmo que você ganhe, você perde, porque o tempo que ele te tomou, os recursos financeiros que você é obrigado a gastar são, na prática, uma punição. Por isso, minha torcida é que não apenas tenhamos a vitória no mérito, mas a Justiça compreenda que foi usada uma estratégia maliciosa exatamente
com o objetivo de nos punir economicamente e, pelo menos, divida os nossos gastos com os autores das ações judiciais. Senão fica fácil demais. O Sindilegis paga o advogado, prepara a ação, decide transformá-la em uma série de processos individuais e o custo de quem processa, mesmo sem razão, é nenhum.

 

- Qual foi o desdobramento?

 

- Em relação a essa ofensiva judicial do Sindilegis e dos servidores que ganham acima do teto, a gente botou a boca no mundo. Transformamos isso em notícia, o que incitou manifestações até inesperadas. A repercussão foi muito maior do que poderíamos prever. Jornais como a Folha de S. Paulo, O Globo, o Estado de S. Paulo, sites estrangeiros, que cuidam da questão do direito da informação, o Knight Center, da Universidade do Texas, e outras entidades, manifestaram-se. A Folha e O Globo publicaram editoriais condenando a estratégia do Sindilegis. Teve muita publicação e repercussão. No plano propriamente judicial, também começamos bem. Vários funcionários faltaram a audiências, e 16 processos já foram encerrados. Tivemos também uma primeira decisão, do juiz do 6º Juizado Especial Cível, favorável ao Congresso em Foco.  Vamos ver agora se conseguimos suportar o custo econômico que toda essa história nos impõe.

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“Passou voando, nem percebi. Eu peço para os meus netos: ‘Me chamem de tio, vai’!”.

 

Há serviços prestados pelos governos que enchem de orgulho os cidadãos cansados de tanto reclamar da falta de transporte, do excesso de impostos, da educação insuficiente, da precária rede pública de atendimento à saúde e da eterna insegurança.
Sábado passado, iniciou-se a exitosa campanha da vacinação contra a gripe que livra crianças e anciãos não só da doença contagiosa, como também  de outras consequências graves, como a pneumonia. A população, de modo geral, dá pouca importância para a gripe. No entanto, além dos prejuízos à saúde, ela é responsável por grande parte das faltas ao trabalho.
Pois no primeiro dia da vacinação, este ancião contador de histórias, deixou de lado as mazelas políticas que estão nos matando afogados e se postou na fila para receber a espetadela e a bendita vacina.
No eficiente e organizado posto de saúde da QI 21 do Lago Sul, dei de cara com uma diaba vestida de vermelho e empunhando um tridente. Não me assustei, pois tenho a certeza de que não irei para os quintos do inferno; no máximo, passarei uma temporada no purgatório pagando penas por críticas que faço, sempre com as melhores das intenções.
A tal da diaba era uma dedicada enfermeira, representando a assassina silenciosa que mata milhares de pessoas descuidadas com a saúde: a hipertensão arterial. A diaba e suas colegas mediam a pressão das pessoas, orientavam procedimentos preventivos e distribuíam folhetos em quadrinhos divertidos e bem elaborados.
Segui o roteiro e confirmei o meu 12 por 8, símbolo da campanha. Fui para fila e recebi o a senha 36. Abro ,aqui, parêntese para contar uma história também engraçada que ouvi de um velho amigo que ficou com a senha 37 e que, por algum tempo, me daria o prazer forçado da sua companhia. Quando a diaba apurava uma pressão como a minha, ela fazia uma festa, e o 37 se lembrou de uma história lá das Minas Gerais, disse ele: – Um sujeito comprou uma bela camionete 4x4 para usar entre Dores do Indaiá e São Gotardo.  O veículo brilhava, parado à frente da igreja matriz. O fazendeiro ia almoçar e, quando voltava, encontrava a traseira do carro arranhado. Um pilantra qualquer, riscava, com um prego, após o 4x4, um sinal de = seguido do número 16. Irritado, o fazendeiro ia direto para a oficina e mandava reparar o dano.
Cansado do prejuízo, o fazendeiro mandou confeccionar um reluzente símbolo do sinal = e o número 16.  Pela manhã, deixou a camionete no estacionamento e, à tarde, quando foi pegar o carro, lá estava, bem cravado na lataria, o sinal de certo – no melhor estilo check –  completando a multiplicação de 4 x4 = 16.   
Quando a anedota acabou, a locutora chamava o número 20. Eu e o meu amigo ficamos observando os conhecidos que envelheceram ao mesmo tempo que a gente. Ali estava o jovem que fazia o som das festas de crianças, e, que hoje, é um senhor precisando cuidar da pressão. Estava, também, um obstetra que colocou no mundo centenas de brasilienses e que segue firme sem gripe ou problemas graves. Cumprimentamos o político aposentado que passou pela vida pública com respeito e admiração. Não tinha aparência de viver com dificuldades, ao contrário, parecia feliz por ter se dedicado por tantos anos à vida pública. – Eram outros tempos, disse o meu amigo.
O 34, sorrindo, entrou na conversa: – Quando será que a medicina vai descobrir vacinas contra a corrupção e os malfeitos? Ninguém sabia responder.
Irmã Edwirges, que passou mais de quarenta anos dando aulas de catecismo na nossa paróquia, passou por nós, vestida no seu impecável hábito branco como neve, como diziam as crianças. Chegou a minha vez. Recebi a minha dose, e o meu amigo lembrou: – Se for dirigir, não beba.
No portão, recebi a letra de uma paródia do célebre hino “Prá frente Brasil” de Miguel Gustavo que animava o povo e a seleção brasileira de 1970 e que diz: “São 30 milhões de hipertensos/em todo Brasil/do meu coração/Todos juntos vamos/prá frente Brasil/ controlar a pressão/De repente é aquela corrente prá frente/dieta e exercício entrando em ação/todos tomando sua medicação/cuidando do seu coração/ Todos juntos vamos/prá frente Brasil, Brasil/controlar a pressão.
Fiquei despreocupado com relação à Copa do Mundo de 2014; com a atenção que recebi no posto de saúde, tenho fé que estarei nos estádios com muita saúde e energia. Aliás, na despedida a diaba me disse: – Vá com Deus! Ps.: A fotografia da diaba está no meu Instagram.

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