Não foi a primeira vez, nem será a última, se os administradores do Rio de Janeiro continuarem negligenciando as falhas estruturais dos edifícios antigos que continuam desabando. Na noite de quarta-feira, o desabamento de dois prédios comerciais, de 20 e 10 andares, e um sobrado - mais um terror anunciado - levou o consciente da população carioca para as imagens do World Trade Center, com uma diferença - o edifício de Nova York foi destruído pelos terroristas de Bin Laden e o desabamento dos três edifícios foi causado por falta de fiscalização das autoridades municipais. O prefeito Eduardo Paes foi assistir à demolição, que poderia ter sido evitada caso ele tivesse tido a iniciativa de avaliar todos os prédios que sinalizavam algum perigo.
O cenário da tragédia aconteceu a poucos metros do Theatro Municipal, às 20h30, e as autoridades, ainda na manhã de quinta-feira, não sabiam a causa. Os moradores da área sentiram um forte cheiro de gás, atribuindo-o ao fato de a Companhia Distribuidora de Gás do Rio estar executando uma obra próxima ao local da demolição dos três edifícios - mais uma negligência das autoridades. Outra falha apurada aconteceu no edifício da Avenida Almirante Barroso, próximo ao edifício Liberdade, cujos moradores tiveram dificuldades para sair do prédio, simplesmente porque os escombros obstruíram a escada no décimo andar, sendo socorridas pelos bombeiros. Alexandre Trotta, que assistiu ao desabamento, relatou o que viu: “Foi um grande estrondo. O prédio veio abaixo, ele caiu para frente e para trás. Ouvi também falar que estava acontecendo uma obra no prédio que desabou.
Também outro depoimento, de Fernando Amaro, analista de sistemas, será analisado pelos peritos: “Eu tinha saído do prédio cinco minutos antes. Ouvi um estrondo e, quando olhei, tava caindo tudo. Só deu tempo para correr...”. O que mais se via era a densa nuvem de cinzas, complicando o tráfego de carros em toda a área, como também pedestres procurando ficar o mais longe possível, com receio de que outros prédios também pudessem cair. Diante dos depoimentos, o prefeito Eduardo Paes disse que aparentemente não houve qualquer explosão, e que o desabamento não teve qualquer relação com o vazamento de gás, argumentando que um dos prédios tinha um dano estrutural que teria causado o desabamento e esse prédio teria levado o outro.
Na verdade, o prefeito do Rio de Janeiro deverá explicar muitas coisas, a começar pela explosão que aconteceu no restaurante Filé Carioca, na Praça Tiradentes, no centro da cidade, a poucos metros do cenário da tragédia de quarta-feira, em 13 de outubro, com quatro vítimas. Na época, ficou comprovado que a explosão foi causada porque os cilindros de gás clandestinos estavam no estoque da cozinha. O que a prefeitura fez para fiscalizar situações como essa?
Os três prédios localizados ao lado do Theatro Municipal desabaram por volta das 20h30 de quarta-feira. As pessoas que estavam em um edifício próximo usaram as luzes de seus telefones celulares para chamar a atenção dos bombeiros e buscar socorro. Com as escadas cheias de escombros, simplesmente não havia como sair.
Impressionante foi a descoberta do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) do Rio, que admitiu, ainda na quinta-feira, que não existia qualquer registro da obra que estava sendo executada em dois andares do edifício Liberdade, um dos que desabaram. Para o prefeito Eduardo Paes, os indícios apontam para uma falha estrutural do prédio de 20 andares, levando ao desabamento os outros dois prédios menores de 10 e quatro andares, acrescentando que a resposta definitiva sobre as causas só serão divulgadas depois da perícia.
Até quinta-feira, prevalecia a suspeita de um princípio de incêndio, e, inclusive, os bombeiros constataram que havia forte cheiro de gás no local, mas isso ainda vai levar um tempo para que tudo seja esclarecido.