Sem dúvida nenhuma, o engenheiro Joel Rennó, que comandou a Petrobras por cinco anos, é um dos mais requisitados executivos com especialidade em petróleo no Brasil e no mundo.
quebra do monopólio do petróleo não pegou a estatal desprevenida, muito pelo contrário, graças a sua visão, a Petrobras abriu um leque de parcerias, dentro da nova realidade do mercado, tendo, na oportunidade, definido investimentos para os anos seguintes, que refletiram no aumento da produção.
Quando estava no comando da empresa, ele acompanhava o movimento do mercado, avaliando as parcerias com outras empresas em negócios associados ao seu core business, tal como a energia elétrica a partir de correntes das refinarias ou gás natural. Dessa forma, foi possível agregar valor aos produtos e, ao mesmo tempo, satisfazer a demanda de energia em um mercado, na época, em crescimento. Concluiu, logo, que, nesses casos, ser autoprodutor em diversas unidades industriais, substituindo a compra de energia das concessionárias, economiza custos.
Joel Rennó, sempre atento, logo chegou à conclusão que seria fundamental uma estratégia empresarial para assegurar sua rentabilidade, inclusive seu adequado desenvolvimento e a colocação de seus produtos nos mercados já existentes e em novos.
Na entrevista que segue, ele ressalta que a Petrobras sempre procurou desenvolver tecnologia de ponta, desde que foi criada, há muitos anos, o que ajudou a empresa a se consolidar.
Acompanhando o desempenho da empresa nos últimos anos, com ênfase, inclusive como brasileiro e ex-presidente, que tem muita confiança que as coisas podem crescer, “desde que se faça com entusiasmo, dedicação e seriedade.
- Como o senhor viu a mudança no controle da Petrobras?
-Logo que saíram as primeiras notícias sobre a mudança da presidência da Petrobras, me perguntaram o que eu achava... Eu não acho nada! Acho, sim, que a companhia está muito bem, tocando o seu programa de trabalho, se desenvolvendo, inclusive a equipe técnica é muito forte e os trabalhadores também. Essa performance, sem dúvida nenhuma, levará à continuidade desse ritmo. Todos pretendem fazer todo o possível para propiciar aquilo que o Brasil precisa sempre, que é aumentar a sua capacidade de energia.
- Mas hoje, qual é avaliação do senhor da Petrobras?
- Irei fazer uma avaliação com muita sinceridade, positiva! Acho que, lendo a história da empresa desde o seu início - na década de 50 - dois aspectos sempre me chamaram a atenção e fizeram com que a empresa fosse, pouco a pouco, vencendo as suas primeiras dificuldades e, depois, se consolidasse como a primeira grande empresa do Estado brasileiro. A companhia, através de suas administrações passadas, sempre procurou desenvolver e aperfeiçoar o pessoal, criando uma escola de formação de gente na Bahia, por exemplo.
- E o outro exemplo é o da Tecnologia?
-. A Petrobras sempre procurou, vendo sua história, como falei, desenvolver tecnologia de ponta de preferência, que foi criada, há muitos anos, e a empresa se consolidou com isso. O centro de pesquisas da empresa, que fica no caminho do aeroporto Tom Jobim – o Galeão -, li, há pouco, que ele foi praticamente duplicado, significando que a empresa continua demonstrando muito prestígio, como também o valor da tecnologia de ponta, que continua formando os seus técnicos aqui no Brasil e no exterior. Alguns ganham bolsas para fazer seu mestrado e PhD em geologia, geofísica e engenharia em geral. Esses dois pontos, no meu entender, fizeram com que a Petrobras, em épocas passadas e até difíceis, se mantivesse como grande empresa estatal, e, ainda, ajudando o país na área de energia, não tenho a menor dúvida.
- É um exemplo a ser seguido?
- Qualquer país que queira se desenvolver como o Brasil se desenvolveu, apesar das dificuldades que todo mundo comenta, avalia e verifica, tem que ter energia farta. Esse problema nós não temos no nosso país, temos recursos, por exemplo, hidrelétricas no setor de eletricidade. Descobrimos cada vez mais reservas importantes de petróleo e gás natural, sobretudo começamos, na década de 70, a trabalhar na plataforma continental no mar. Essas descobertas fizeram com que o país fosse, pouco a pouco, deixando de depender da importação de petróleo. Agora, depois de anos de pesquisa e de trabalho, com as descobertas recentes do pré-sal, acho que temos credencial, em termos de energia, para não temer qualquer dificuldade futura, por muitos anos.
- Qual é a capacidade de desenvolvimento do Brasil?
- Outro aspecto, paralelo ao de energia, que a gente observa vendo a história de muitos países e acompanhando a leitura moderna, o desenvolvimento mundial, é a capacidade que o Brasil tem de produzir alimentos. Diversos pontos, como soja e milho, por exemplo, nos coloca lá na frente em termos de produção para abastecimento interno e exportação. Nós somos, no mínimo, hoje, o segundo maior exportador de soja do mundo... Isso aconteceu nos últimos 30 anos e se deve muito, também, à ação de outra estatal que eu tenho consideração e respeito, que é a Embrapa. As pesquisas que eles desenvolveram fizeram com que a nossa produtividade agrícola aumentasse significativamente. O Brasil, tendo energia e capacidade de produzir alimentos, tem condições de ir para frente, e está condenado a progredir, a se desenvolver. Mesmo que queiram atrapalhá-lo, ele vai para frente, inexoravelmente...
- O que precisa mudar ainda?
- Tenho a impressão que qualquer administração nova, substituindo uma que tenha sido colocada de lado, tem que traçar o seu rumo olhando o futuro. Você ficar guerreando para trás, olhando o passado, não adianta nada! Você tem é programar e projetar o futuro. Se você projeta o futuro, precisa de gente boa para te ajudar, pessoas competentes, capazes, entusiastas. Lembro-me de uma figura nacional muito conhecida, um misto de escritor e humorista de categoria, afirmando que o chefe inteligente é aquele que escolhe para auxiliá-lo gente mais inteligente ainda. Nesse sentido, se as administrações que estão vindo souberem colocar pessoas competentes e sérias sob seu comando e coordenação, eu acho muito difícil o programa que ela estabelecer não dar certo - tem que dar certo!
- Como o senhor vê o futuro da Petrobras?
- Creio que, com essas descobertas a que me referi na área do pré-sal e as avaliações das reais reservas que existem, bem como quando a companhia estiver cada vez mais preparada para transformar essa reserva em riqueza, isto é, extrair do subsolo a tantos metros de profundidade e transformá-la em produção, teremos um país magnífico. E esse, eu creio, é o futuro da empresa e também o futuro tecnológico. Enquanto a Petrobras estiver procurando desenvolver tecnologia, talvez o que ela possa fazer é trabalhar no desenvolvimento de produção, em campanhas de exploração adequadas... Há 30, 35, 40 anos, não se produzia petróleo além da plataforma continental. Trabalhei na Petrobras, em um primeiro período, na década de 80, depois fiquei cinco anos longe dela e voltei como seu presidente, em 1992, ficando até 1999.
- Como foi a arrancada da empresa?
- Em 1974, as descobertas que existiam no mar, na plataforma continental, eram pequenas em termos de lâminas d’água - a diferença entre o nível do mar e o fundo do mar, ou seja, 100, 120, 140 metros de lâmina d’água, depois perfurada e mais algumas coisas, mais 1000, 1500 metros para encontrar o petróleo. Quando eu deixei a presidência da empresa, em 1999, nós já estávamos produzindo a 1830 metros de lâmina d’água. A Petrobras teve que gerar um grande desenvolvimento nesse aspecto de produção em águas profundas, tanto que, ainda naquele período, já havia conquistado prêmios internacionais, por ser a companhia de petróleo que desenvolveu tecnologia própria para a produção em lâminas d’águas profundas, reconhecida por várias e várias empresas internacionais, inclusive na reunião que se faz todo ano, em Houston, o “Offshore Technology Conference”...
- Como o senhor vê a empresa agora?
- A companhia já produz a mais de dois mil metros de lâmina d’água, e além desses dois mil metros, já produz petróleo baixando ainda mais a sua capacidade de perfuração, 1500, 2500 metros ainda na chamada camada pós-sal, onde se encontram as maiores reservas nacionais. Tudo isso me faz crer que o futuro da empresa está praticamente garantido - vai depender, naturalmente, do desenvolvimento e do esforço de seu pessoal. E eu creio, naturalmente, no desenvolvimento e no esforço de seu pessoal. Ele nunca deixará de existir, faz parte do corpo e da alma dos que trabalham na empresa...
- No passado, o embaixador Roberto Campos referia-se à Petrobras como Petrossauro. Como o senhor via isso?
- Ele tinha esse comentário jocoso, de certo modo, mas pernicioso, e cometia uma injustiça. Talvez o nosso ex-senador e ex-ministro, uma pessoa muito conhecida de todos, não tivesse informação suficiente sobre a empresa, para avaliá-la dessa maneira tão pejorativa, chamando-a de companhia ultrapassada. Tanto isso não é verdade, que olha o nível a que ela chegou - é uma das sete maiores empresas de energia, de petróleo e gás do mundo. Se fosse uma empresa ultrapassada ou um Petrossauro, nunca teria atingido o nível que atingiu progressivamente, chegando a essa posição de hoje. Nosso iminente ex-ministro e ex-senador, finado, que nós respeitamos, estava mal-informado, seguramente, no meu entender, para tentar alcunhar à empresa a nomenclatura de ultrapassada.
- Na sua gestão, a Petrobras diversificou sua atuação em outros setores energéticos. Como ficou essa diversificação?
- Creio que, na época, a diretoria, que eu presidi com muita honra e satisfação, tomou uma série de iniciativas inovadoras. Por exemplo, analisando aspectos de energia elétrica, de energia renovável. Não tivemos tempo, talvez, na nossa administração, de desenvolver celeremente esses caminhos, mas a companhia continuou dando sequência a essas novas oportunidades de negócios, ao lado da sua responsabilidade principal, que era produzir petróleo e gás natural, refinar da melhor e da mais econômica maneira possível, abrindo uma ou outra possibilidade em outra área internacional. Pelo que li, a partir do momento que deixei a empresa, ao acompanhar as administrações seguintes, foi que deram sequência a esse trabalho, e eu creio que a empresa, nesse sentido, vai indo muito bem.
- O que virá no futuro?
- Eu me lembro que li, não é do nosso tempo, foi tempo posterior, que ela adquiriu refinaria no estado do Texas e no Japão, fez alguns trabalhos e conquistou áreas de distribuição na Colômbia, na Argentina, e agora, revertendo de certo modo essa tendência, estaria revendendo essas unidades que havia adquirido a partir do ano 2000. A administração que está lá presente, no dia a dia, entende melhor do que qualquer pessoa, por mais dedicada e mais competente que seja. A administração presente sabe, muito melhor do que outras que já passaram e outras que virão, o que se deve fazer. Acho que está em um bom caminho, porque, se está vendendo o que comprou há um tempo, deve ter concluído que não foi um bom negócio. Então, decidiu fazer outra coisa, outro negócio, de modo que os seus acionistas majoritários e minoritários sejam bem-atendidos, recebam os seus famosos dividendos, e que façam jus ao que esses sócios depositaram na empresa, como confiança em seus recursos financeiros.
- Diante da nova realidade, em que a Petrobras precisa mudar?
- Mudar é sempre importante na administração, uma dinâmica compreensível, acompanhando os tempos que estão vindo e virão. Uma administração nova tem que olhar para frente, projetar a empresa para os próximos anos e não ficar tão preocupada com o que passou. Se puder corrigir alguma coisa passada, desde que aquela coisa possa influir em seu programa futuro, deve corrigir. Agora, é preciso se aperfeiçoar em muitos aspectos porque o mundo é assim, está sempre se modificando - se ficar parado, terá muito mais dificuldade em produzir algo. No caso da Petrobras e dos brasileiros, vejo a empresa com curiosidade e, até, carinho.
- Desde quando o senhor acompanha o desempenho da empresa?
- Há alguns anos atrás, foi feita uma pesquisa por alguma entidade, que não me recordo qual, querendo saber qual empresa estatal era a mais conhecida e a mais querida. A Petrobrás ganhou, de longe, naquela época. Incluíam-se nessa lista o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a Vale do Rio Doce, que na época era estatal. Mas as respostas do nosso pessoal e do nosso povo deram a vitória à Petrobras. Isso é um bom sinal para quem está assumindo novas responsabilidades na empresa, entender que deve manter, no mínimo, essa chama acesa, que os brasileiros têm confiança na empresa mais querida do Brasil.
- Acontece que, quando muda um comando em qualquer empresa, surgem mudanças e mais mudanças...
-Mudanças certamente ocorrerão, ao gosto e dentro da capacidade daqueles que vierem administrá-la - faz parte da dinâmica administrativa - mas cada um deles compondo uma nova direção irão entender o que tem que ser feito, e seguramente o farão para o benefício da empresa e também para o benefício de seus acionistas e do país.
- Na gestão anterior - que agora vai mudar - a Petrobras não estava com essa credibilidade da população... O senhor concorda?
- Há um pouco de exagero, de espírito crítico um pouco forte demais de alguns setores, na média, se a gente quiser ser muito sincero e observar até a média da mídia, era muito positiva! Viam, sim, a companhia como algo positivo. Críticas nunca faltam e, acima das críticas, sabe-se que uma empresa grande, poderosa e importante, como é a Petrobras, sempre é alvo de muita maledicência, de muita incompreensão - um pouco de intriga faz parte do contexto das pessoas, da compreensão, até do povo! Mas, na média, ela continua acreditada e respeitada. Agora, vai depender de seus novos administradores melhorá-la ainda mais. Eu, como brasileiro, como ex-presidente da Petrobrás e engenheiro também, tenho muita confiança de que as coisas podem crescer desde que sejam feitas com muito entusiasmo, dedicação e seriedade. No meu entender, não tem erro...
- De que forma?
- Para mim, bastam três ou quatro palavras que podem coroar qualquer administração, de quase qualquer empresa - não precisa ser empresa estatal. Sempre me perguntaram, quando eu estava na companhia, o que eu achava, porque a Petrobras era daquele jeito e não fazia de outra maneira, como uma empresa particular. Respondia que não depende se a empresa é estatal ou privada; as pessoas que trabalham nessa empresa não se modificam por serem administradores de uma ou de outra. Depende da capacidade de cada um fazer uma boa administração, dirigi-la com o apurado respeito, cabeça boa, disposição e dedicação.