Os mais de 40 anos de carreira situam o médico José Carlos Fragomeni como uma autoridade quando o assunto são estudos cerebrais. Em seu mais recente livro, “Teoria da Cognição Humana”, Fragomeni prova novamente porque desempenha um papel considerável nessa área pouco explorada pela medicina, e vai além, derrubando tabus que vão desde a composição do cérebro até as diferenças e semelhanças entre a ciência e a religião.
Formado pela Faculdade Geral de Medicina da Universidade do Brasil, com especialização em Urologia, J. C. Fragomeni, não satisfeito com a exemplar formação que já possuía, realizou um MBA em Gestão de Saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Tamanho conhecimento lhe deu currículo para obter pacientes fiéis e em grande número. Mas, nem mesmo a agenda sempre lotada o impediu de reunir todas as forças para compreender e desvendar o cérebro humano.
Na entrevista que segue, ele explica os motivos para passar dias e noites debruçado sobre esse assunto. “O cérebro é muito mais complexo do que imaginamos, sendo composto por três unidades diferentes que se sobrepõem”. Entender como funciona o cérebro, que ele compara a um hardware, ajuda a explicar, por exemplo, porque algumas pessoas adotam atitudes extremas, como as que matam e morrem em nome da religião. “Como a religião é fruto de um conhecimento evolutivo, o cérebro precisa manifestar isso. Acontece que, algumas vezes, essa manifestação é distorcida, irracional, e até mesmo sem lógica”.
Fragomeni acredita que a medicina seja uma das ferramentas essenciais para solucionar os paradoxos da humanidade. Porém, ainda que seja um eterno otimista, faz um alerta: “É preciso fazer uma reavaliação, o homem não é apenas seu cérebro!”.
- Por que, mesmo com a evolução do desenvolvimento científico, nas últimas décadas, o homem não tem sido mais feliz?
- Porque há um paradoxo imenso. Nós produzimos alimento em uma quantidade que alimentaria perfeitamente todos os homens, mas, apesar disso, 1/5 da humanidade passa fome. Outra contradição são os homens que matam em nome da religião, inclusive, a ciência e a religião não se encontram dentro da racionalidade do homem. Embora tenhamos ampliado o conhecimento científico, mapeando o cérebro através de imagens – como Tomografias Computadorizadas e a Ressonância Magnética, por exemplo – para entender o seu funcionamento, não há nenhum esforço no sentido de entender a mente humana.
- Nem mesmo a psicologia facilita o entendimento da mente humana?
- Não completamente. Certos fenômenos, principalmente os que envolvem as inter-relações entre as mentes, ainda deixa a psicologia desorientada. A morte, por exemplo, é algo que não compreendemos, de nenhuma maneira! E mesmo falando de psiquismo humano, a psicologia se desnorteia entre teses e teorias, que valorizam mais ou menos traumas, genética e fatores de formação. A reação de cada homem a estímulos externos, por exemplo, ainda é algo que não conseguimos explicar.
- Qual seria uma alternativa para solucionar esses paradoxos da humanidade?
- É preciso fazer uma reavaliação, o homem não é apenas o seu cérebro! A teoria de Descartes, “Penso, logo existo”, per-de um pouco a credibilidade; basta ver os estudos de Damásio, publicados no seu livro “O erro de Descartes”. Para ele, o ato de pensar vai muito além, estando atrelado a uma estrutura cerebral variada. O estudioso LeDoux também vai neste caminho, demonstrando que o cérebro é muito mais complexo do que imaginamos, sendo composto por três unidades diferentes que se sobre-
põem.
- Para facilitar o entendimento, essas unidades podem ser comparadas com o quê?
- Essas unidades são equivalentes ao cérebro reptiliano, dos mamíferos e humanos, com a parte emocional do cérebro correspondente ao cérebro humano. Outros dois estudiosos, Maturana e Varela, em “A Árvore do Conhecimento”, elaboraram conceitos que demonstram como é possível remontar o homem, baseado em conceitos já utilizados, como a teoria evolutiva e a seleção natural. Steven Pinker estava certo ao explicar em seus livros que entendemos muito pouco a respeito do funcionamento da
mente...
- Então, de que forma podemos entender o processo evolutivo humano?
- Precisamos preencher duas lacunas, a do aparecimento do neocórtex, que faz parte do cérebro humano, e a inter-relação entre os seres vivos, e, ainda mais interessante para nós, compreender a inter-relação entre os homens. Existe uma teoria interessante, Teoria da Catapulta, que propõe o neocórtex como um produto evolutivo que possui conexões de neurônios incríveis, capazes de sustentar todo o conhecimento sobre a evolução. Ele teria se formado intermediado pelo cérebro emocional para salvar o homem que vivia na savana africana, que tem um clima hostil, com secas prolongadas. E há também a Teoria das Membranas do Conhecimento, que, unida à Teoria da Catapulta, permite um melhor entendimento do processo evolutivo.
- Somente dessa forma é possível ver o homem pelo “lado de fora”?
- Exatamente. Por meio dessa ótica, o homem passa a ser visto como uma obra do processo evolutivo, iniciada quando a vida se manifestou, ainda em suas origens mais remotas, nas moléculas protéicas. Como elas eram efêmeras e instáveis, desencadearam um processo evolutivo da manifestação da vida, por meio de uma sequência de seres vivos. Ou seja, não sou eu quem vivo, a vida é que vive em mim.
- Qual a diferença entre a mente e o cérebro?
- Vou dar um exemplo prático. O cérebro funciona como o hardware de um computador, ou seja, uma peça física, uma estrutura. Já a mente é o software, o programa que faz o hardware funcionar. Todos os homens têm mentes muito parecidas, e todas elas têm um conhecimento que vai além do cérebro humano: o conhecimento evolutivo. A mente é o corpo inteiro, não só o cérebro, ela está em todo o corpo. Isso é possível perceber porque, quando nos machucamos, o ferimento cicatriza. Isso só acontece porque nosso corpo possui esse conhecimento evolutivo.
- Porque existem tantos conflitos entre a religião e a ciência?
- Não deveria haver choque entre a ciência e a religião, as duas expressam conhecimento, só que de maneiras distintas. A ciência é o conhecimento egocêntrico, onde o ego está centrado no cérebro. Já a religião é a percepção de um conhecimento evolutivo, e, para que esse conhecimento seja colocado dentro do cérebro, ele precisa ser adaptado a necessidades culturais, educacionais e até genéticas! Mas, basicamente, todas as religiões têm o mesmo conhecimento. Existe uma série de “Koans”, que são como os japoneses chamam as perguntas sem respostas, entre a ciência e a igreja. Eles não podem ser respondidos porque, infelizmente, foram formulados de uma maneira tendenciosa.
- Um exemplo é a criação do homem, explicada tanto pela ciência quanto pela religião?
- Certamente o surgimento do homem é um bom exemplo de “Koan”. Para a ciência o homem surgiu pelo evolucionismo, para a religião, ele surgiu no Criacionismo. Uma maneira de resolver esse “Koan”, essa dúvida existencial, é alterar o que conhecemos como pensamento, encontrando algo em comum entre o pensamento científico e o pensamento religioso. É algo bastante pessoal.
- Mas, isso não é difícil?
- Não é impossível, e nem tão complicado, já que tanto o pensamento religioso quanto o científico são desenvolvidos na mesma estrutura, no mesmo hardware: o cérebro humano.
- E por que algumas religiões, em casos extremos, às vezes, se comportam de maneira irracional?
- Como a religião é fruto de um conhecimento evolutivo, o cérebro precisa manifestar isso. Acontece que, algumas vezes, essa manifestação é distorcida, irracional, e até mesmo sem lógica. Isso ocorre quando é expresso em um mundo centrado no conhecimento científico do cérebro humano.
- E quanto aos homens religiosos?
- Os homens rotulados como religiosos são aqueles que possuem uma sensibilidade diferenciada, mas mesmo as percepções que acreditam ser fruto apenas de fé são, simplesmente, fruto da estrutura de um Sistema Autopoiético, um sistema capaz de se produzir continuamente. O sistema evolucionista já não pode mais ser contestado, embora os criacionistas digam que o homem surgiu da criação divina.
- Qual a relação entre esse sistema e a cognição?
- A cognição é uma aquisição de conhecimento que o Sistema Autopoiético faz do meio externo. Essa aquisição é feita por um mecanismo próprio, sem ele, nós não interagiríamos com o meio externo. Os estudiosos Maturana e Varela revelam a verdadeira importância dos processos cognitivos, mostrando que ele permite a perpetuação da vida. O homem só é capaz de se recompor continuamente por meio da cognição.
- Os processos cognitivos podem ser uma fonte de autoconhecimento?
- Claro, a cognição também é um conhecimento que adquirimos sobre nós mesmos, em processos que podem se realizar na mente, através do cérebro. Ela é extremamente individual. O Sistema Autopoiético já tem sido estudado nos campos da filosofia, da sociologia e da linguística, e todos esses estudos, se integrados, nos ajudarão a desvendar alguns enigmas da mente e do cérebro.
- E quanto à Teoria de Brasília, o que ela propõe?
- A Teoria de Brasília mostra o processo evolutivo e a cognição seguindo juntos, paralelamente, com destino ao homem. Acredito que a cognição seja uma membrana, onde o neocórtex foi criado, por meio de um processo de catapultas, para poder sustentar todo o conhecimento evolutivo. Parece um pouco complexo, mas, após o entendimento dessa Teoria, o homem pode expandir seus horizontes para finalmente entender o que se passa com a humanidade atualmente.
- Mesmo com inúmeras tentativas, a ciência ainda não conseguiu construir vida em laboratório?
- Chegou-se a conseguir que algumas moléculas se posicionassem de uma maneira que formassem o esboço de uma membrana, mas a vida permanece como um grande mistério. Os seres vivos surgiram quando uma membrana isolou uma unidade do meio externo, mas não conseguimos entender o que acontece dentro dessa membrana para que ela pudesse gerir um sistema tão múltiplo, com capacidade de construir a si mesmo e de se multiplicar. Sem membrana, não há vida. Não conseguimos entender, analisar o que seja a vida, porque ela se revela nas formas mais variadas.
- Isso torna o Criacionismo a única teoria para explicar o surgimento da vida válida atualmente, não?
- A Pulsão da Vida, ou seja, o verdadeiro momento da criação, ainda não foi dominado pela ciência. Hoje, podemos dizer que os dois estão certos, já que a ciência ainda não conseguiu criar vida, esse é ponto de inflexão onde o conhecimento evolucionista esbarra. No momento em que a ciência for capaz de criar vida dentro de uma membrana, ela terá derrotado o Criacionismo.
- E quanto à deriva evolutiva, do que se trata?
- A deriva evolutiva norteia todo o processo evolutivo. As alterações que ocorrem durante esse processo não são aleatórias, não acontecem ao acaso, para que o processo de seleção natural escolha o mais apto. Cada alteração tem uma intenção, que é regulada pelo meio externo. As alterações que o próprio sistema faz em sua reconstrução contínua podem ser entendidas como reguladas pelo próprio conhecimento encerrado, ou enclausurado na membrana física ou celular.
- Por exemplo.
- Quando o urso que vive nas florestas da Europa teve que passar a viver no gelo, não foi por acaso que seu pelo se tornou branco, por meio de uma mutação. Ele mudou de cor por uma alteração que foi direcionada pelo Sistema Autopoiético que o urso tinha do meio externo. Quando ele ficou branco, se tornou mais competitivo, e assumiu maior domínio daqueles lugares gelados. Não é razoável admitir que essas mudanças aconteceram por sorte, espontaneamente, que a seleção natural foi a única responsável pelo surgimento do urso branco. Se fosse por acaso, apareceria uma infinidade de cores no pelo do urso.
- Isso contraria a Teoria de Darwin?
- Parece um paradoxo, mas o entendimento da deriva evolutiva está mais próximo de São Tomás de Aquino, que acreditava que a criação seria uma manifestação divina em busca da perfeição, do que para Darwin, que defendia as alterações como algo que ocorria ao acaso, apenas para selecionar os que melhor se adequassem ao meio externo.
- Acaba aproximando o Evolucionismo do Criacionismo, não é?
- Na realidade, não há motivos para os defensores das duas correntes se desentenderem. De fato, por enquanto, os criacionistas têm razão, embora as evidências do processo evolutivo também provem que os evolucionistas estão certos. São Tomás de Aquino tinha as suas razões para acreditar que a criação caminha para a perfeição. Se o homem ainda não consegue criar vida, essa discussão ainda não tem nenhuma razão, nenhum sentindo. Costumo dizer: “dai a César o que é de César, dai a Deus o que é de Deus”.
- Afinal, do que se trata a“Era de Aquário”, anunciada há tantos anos, ela fará parte do processo evolutivo humano?
- Estamos no início da Era de Aquário, e mutantes com vivências de globalização passaram a ser criados. Eles são os ecologistas de hoje, que, assim como os mártires, ainda não entenderam o que é essa nova vivência. Daqui a alguns anos, estes mutantes atingirão o número de massa crítica, ou seja, grande parte da sociedade, e passarão a dominar a sociedade. A partir daí, ela passará a ser politicamente correta.