Eu fui o precursor do samba-enredo, fui o primeiro a gravá-lo. Quando começou o carnaval, os sambas-enredos só eram conhecidos no dia do desfile, quando as escolas saíam com eles, e, depois, ninguém mais ouvia. Por volta de 1967, eu gravei um samba chamado “Bahia de Todos os Deuses”, que era o enredo da Salgueiro. A partir daí, eu notei que as emissoras de rádio começaram a tocá-lo e, no ano seguinte, passei a gravar outros sambas. Então, os sambas, que eram restritos apenas às escolas, passaram a ser ouvidos por todos. Mas, de uns tempos para cá, a gravadora disse que os sambas-enredos não estão mais sendo liberados para gravação, porque, de acordo com eles, nós gravamos diferente do que a escola desfila.
Ou seja, o samba-enredo virou um grande negócio e de poucas pessoas, mas acho que não foi um problema das gravadoras, porque o interesse delas era que o samba-enredo ficasse conhecido no Brasil e no mundo inteiro. Essa foi a resposta que me passaram.
Afinal, o carnaval no Rio de Janeiro virou algo para turistas, e eu até me acostumei com isso. No princípio, eu frequentava mais, assistia às escolas de São Paulo e assistia aos ensaios das escolas do Rio. Ficava vendo aqueles passistas ensaiando - verdadeiros bailarinos - e, quando chegava a hora do desfile aparecia gente que não tinha nada a ver, nem ia aos ensaios.
É uma pena! Isso está em todas as partes do mundo! Em qualquer lugar se fala em tirar a roupa. No meu tempo, quando me iniciei na música, quando quem cantava era porque cantava mesmo, não tinha essa coisa de hoje. Isso é algo extraordinário, feio.
Isso não é crise de nostalgia? Não, sinceramente! É porque isso é o que se percebe. Com a entrada de coisas descartáveis no mercado musical, parece que as gravadoras estão preferindo esse sucesso fácil. Preferindo não, estão mesmo massificando, tentando colocar na cabeça do público que a música que toca dois ou três meses, é a que vende! Eu até acredito que venda, de tanto que as pessoas ouvem - dia e noite - que acabam comprando o CD. Não que eu seja contra hip-hop ou rap... Eu até fui um precursor desses estilos. Tiraram de uma das músicas (“Deixa que digam, que pensem, que falem”) que gravei, mas, que na verdade, já era um rap. Eu canto qualquer tipo de música, não faço discriminação!
Esse pessoal não faz samba, quem faz samba mesmo, espera toda essa onda passar. O que se vê é a onda de Zeca Pagodinho, Dudu Nobre que, no estilo deles, compõem muito bem. Eu acho que esses compositores de samba podiam fazer também um funk, mas eu adoro Marcelo D2, Charlie Brown Junior, Jairzinho, a Luciana, Wilson Simoninho... Esse pessoal, eu adoro! Isso é o que eu chamo de artista: tem que cantar de tudo. Existe tudo quanto é tipo de música - tem a ruim e a boa - e é óbvio que eu vou preferir sempre a boa música, aquilo que eu gosto de cantar, que satisfaz o meu ego.
Eu tive vários momentos marcantes. Quando gravei “Deixa isso pra lá”, eu morava em São Paulo, onde moro até hoje, na esquina da Rua Aurora com a São João. Um dia saí para ir ao cinema e a fila estava imensa, quase um quarteirão, mas mesmo assim resolvi esperar. Quando fui chegando perto do cinema, notei que a fila terminava em uma loja de discos. Quando faltavam umas cinco pessoas para que chegasse a minha vez, o dono da loja perguntou o que eu estava fazendo na fila. Respondi-lhe que estava esperando para comprar o ingresso do cinema. Ele, então, afirmou que aquela fila era para comprar o meu disco!...