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O jogo do século

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Data de Publicação: 16 de agosto de 2008
Por: Paulo Castelo Branco
E-mail: pcbranco@brasiliaemdia.com.br


Surgiram entraves de todos os lados. Entendidos em futebol afirmavam que a legislação da FIFA não permite o confronto entre times de homens e mulheres.

Nas ruas e nos bares, abstêmios, a discussão ficou mais próxima da realidade. Os antigos notívagos, acostumados a ver de tudo nas madrugadas, foram os primeiros defensores da peleja. Moacir, neto desconhecido de um antigo craque da seleção de 1958, foi o maior incentivador e fez sua declaração pública de apoio, afirmando que vivia há mais de 20 anos com Doralice, que era uma marcadora mais rigorosa do qualquer craque da seleção. “– Quando eu chegava em casa alcoolizado e me considerando o sujeito mais forte do mundo, era ela que barrava a minha entrada como se fosse a Tânia Maranhão. Ou eu cedia e dormia na sala – que ela chamava de meio-de-campo –, ou teria que ficar na soleira da porta; apelidada de última barreira. Doralice joga um bolão.”

Valtencir, ex-jogador do Gama FC, ponderou que não seria possível uma partida dessas: “– Futebol é coisa prá homem.” A maioria dos presentes caiu na gargalhada. Ele entendeu que não deveria ser tão rigoroso e se calou.

A idéia se espalhou pela cidade, e o vice-governador, responsável pelo desenvolvimento e turismo, percebeu que o assunto era bom. Chamou a equipe e determinou que providenciassem estudo urgente sobre o grande jogo. Queria análise dos entraves, das pessoas que deveriam ser contatadas, e, acima de tudo, a divulgação do evento.

Quando a proposta surgiu na mídia, já estava tudo preparado. João Havelange, em Pequim, entregando as medalhas para as meninas do Brasil, fez declaração apoiando a partida e incentivando a imprensa a promover o primeiro jogo misto oficial da história do futebol.

No outro pódio, os meninos do Brasil recebiam suas medalhas, e Ronaldinho Gaúcho, artilheiro, magro e novamente bonito, falou em nome dos campeões olímpicos: “– Até aqui foi fácil a nossa vida. Íamos, debaixo de pancada, rompendo as defesas adversárias. Tivemos sucesso. Duro mesmo vai ser enfrentar a equipe campeã olímpica feminina no Mané Garrincha em Brasília”. A imprensa mundial repercutiu o assunto de maneira espetacular. Em vez do Bush, quem garantiu a presença dando o pontapé inicial do lado masculino foi Barack Obama, e do lado feminino Carla Bruni, que se comprometeu a vestir uniforme transparente Dior e chuteira Loubutin. Até Putin apoiou o jogo, afirmando que, se não estivesse atacando a Geórgia, também compareceria e ainda traria, de quebra, o Kassab de lá.

O jogo foi marcado para o dia seguinte à chegada dos campeões ao Brasil. Lula, vestido com sua camisa nº 1315, recebeu os atletas no Palácio do Planalto, e, de lá, em carro aberto, seguiu para o estádio. Deu tudo certo.

Mané Garrincha, de portões abertos, lotado. A multidão gritava o nome dos seus jogadores preferidos. Fogos explodiam e o hino nacional foi executado. Os convidados fizeram a sua parte. Barack tocou a bola para Carla Bruni que deu um chutão, perdendo a valiosa chuteira de sola vermelha, que caiu no colo de Doralice, a mulher do Moacir.

O árbitro apitou. Renata Costa tocou para Maicon que repassou para Daniela Alves. A bola rolou suave. Lucas, Hernandes e Diego ficaram olhando a desenvoltura da menina. Num leve toque, a bola estava nos pés de Cristiane. De calcanhar, e no meio das pernas de Rafinha, a bola chegou até Marta. A craque esperou Alex Silva; dobrou as pernas, caindo para o lado, e encheu o pé. Oito segundos de jogo. Renan, que ainda estava admirando os toques das adversárias, só ouviu o grito da galera: Goooooooool!!!!

Os meninos deram a saída. Diego tocou para Ronaldinho, que olhou Pato em desabalada carreira, já quase da grande área. Lançou longo a redonda. Pato matou no peito, escorreu a pelota no corpo e, na hora da arrancada, foi espremido por Erica e Simone Jatobá. “– Ô Seu juiz, assim não dá.” Choramingou, prevendo a humilhante derrota.

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