O pai da Radical e do Gatão...
Data de Publicação: 5 de julho de 2008
Por Marcone Formiga e William MedeirosENTREVISTA
MIGUEL PAIVATalentoso como cartunista, desenhista e artista plástico, Miguel Paiva gerou dois personagens que entraram no cotidiano dos brasileiros. O Gatão de Meia-Idade expõe os dilemas do homem moderno, surgindo de uma crise existencial quando chegou aos 40 anos, mas ressalva que o personagem não é autobiográfico, embora admita que pensa exatamente como ele. Já a Radical, ele confessa, resulta da sua admiração pelo humor feminino ou pelas mulheres, principalmente as de 30 anos, que eram as que preferia aos 40.
O interesse por elas surgiu com a constatação que preservam a irreverência e a loucura da juventude, embora com uma quilometragem de 30 mil.
Com tanto sucesso, os personagens, que, depois de publicados em periódicos importantes como Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo e, agora, em O Globo, chegaram também às telas de cinemas, inclusive ao programa de televisão, com a Radical Chic, estrelada por Andréa Beltrão. Já o Gatão virou filme, em 2006, com o ator Alexandre Borges fazendo o seu personagem.
Miguel Paiva também trabalhou no semanário O Pasquim, que enfrentou a ditadura militar, com críticas bem humoradas.
Com texto primoroso, além de cartunista, também é escritor, tem livros de crônicas, além de mais cinco, em parceria com Luis Fernando Veríssimo, com as aventuras do detetive Ed Mort.
Marcone Formiga - Você é uma espécie de terapeuta para os homens que chegam aos 40, 50... O que muda na vida deles?Miguel Paiva - Na cabeça deles, o tempo passou e não deu para levar para a cama todas as mulheres do mundo. Mas, falando sério, o que muda é que o sonho da eterna juventude e do eterno poder vai se confrontando com a realidade. Pura bobagem, nunca fui tão feliz como agora na maturidade. A questão do tempo que passa é irremediável, melhor viver o presente. Mas o homem é duro, quer garantias de vida eterna.
Marcone Formiga - O Viagra e o Cialis correspondem a uma segunda vida do homem?Miguel Paiva - Acho que dá justamente uma sensação de continuidade. Não ter que parar com a vida sexual é para o homem um alento, uma garantia de manutenção das características primárias e, convenhamos, não é justo parar com o sexo nem para os homens nem para as mulheres.
Marcone Formiga - O Sérgio Porto costumava dizer que a televisão era uma máquina de fazer doidos. Hoje, seria a Internet que produz psicóticos e sociopatas pós-graduados?Miguel Paiva - Também. A comunicação facilita e complica tudo, ao mesmo tempo. Poder acessar o mundo, criar conexões, interagir, falar, ouvir e sobretudo ver o que se passa em todos os níveis e em todos os lugares é fantástico. Saber dosar isso nas nossas vidas é o desafio para que o computador esteja a nosso serviço e não o contrário.
William Medeiros - Quando o desenhista Marcelo Gomes, seu parceiro no início da carreira, morreu em um acidente de automóvel, você decidiu, além de escrever, desenhar suas próprias histórias. Foi difícil essa adaptação?Miguel Paiva - Eu já desenhava, só que não tão bem quanto o Marcelo. Já fazíamos coisas separadas e o Ziraldo, com quem começamos, estimulava muito isso. A falta afetiva foi enorme, é uma pena que ele não tenha podido continuar com seu talento.
William Medeiros - Você freqüentou as páginas do Pasquim no auge do regime militar. Como era fazer charge naquele tempo?Miguel Paiva - Não víamos com o distanciamento de hoje. As dificuldades eram enormes e por isso mesmo estávamos sempre animados a fazer mais, apesar do medo e do cansaço.
William Medeiros - Como você avalia o fim do Pasquim, o insucesso da sua reedição e o fracasso da revista Bundas, que pretendia ser a sucessora do famoso hebdomadário? Já não se faz mais humor político como antigamente?Miguel Paiva - Os tempos mudaram, mas seria leviano dizer que essa foi a causa ou a única causa. O humor mudou, a expectativa do leitor mudou, a leitura mudou, a comunicação mudou, a mídia mudou. A única mídia impressa que faz sucesso hoje é a de celebridades, impensável na época do Pasquim. O humor hoje vem de graça no seu e-mail.
William Medeiros - Os diálogos dos seus quadrinhos se adaptam muito bem ao cinema, à TV e ao teatro. Você escreve seus roteiros já pensando nessa possibilidade?Miguel Paiva - Não. Quadrinhos e cinema sempre andaram juntos. Fellini que o diga.
William Medeiros - Em geral, a adaptação de quadrinhos para a TV ou o cinema não agrada muito aos leitores e fãs. Como você avalia as adaptações que já foram feitas com suas criações?Miguel Paiva - Acho que é outra linguagem e o público precisa entender isso. A relação com o que foi escrito num cartum ou num quadrinho é diferente do relacionamento com o que você vê no cinema ou na TV. São tempos diferentes. Isso faz da obra adaptada uma nova coisa. Dentro disso sempre gostei muito do que foi feito com os meus quadrinhos.
William Medeiros - Gatão de Meia-Idade é seu alter ego? E a Radical Chic, como surgiu? O que eles têm em comum? Miguel Paiva - O que eles têm em comum é a observação do cotidiano. Ambos são modernos, urbanos, autocríticos, mas com questões diferentes. O gatão não é meu alter-ego, é aquele amigo com quem converso no botequim.
Marcone Formiga - O amor é violento, a educação é violenta... Afinal, não existe sociedade sem violência?Miguel Paiva - Não acho o amor violento nem a educação. Acho a violência um desvio, uma aberração, uma afirmação equivocada do poder. Acho a agressividade, sim, no sentido original, positiva e masculina. A violência, não. Acho, também, que existe, sim, sociedade não violenta. É só acreditar na igualdade, na felicidade, na justiça como um bem para todos, que ela pode acontecer. Já existem pequenas amostras disso no mundo. O homem, o ser masculino, precisa mudar muito para que isso aconteça. Parar de se referenciar na força para se afirmar.
Marcone Formiga - Lênin fez uma revolução por meio do telégrafo. Com a velocidade que tem a Internet, poderá surgir uma grande revolução mundial?Miguel Paiva - Como a do Lênin, certamente que não, mas uma grande transformação já está acontecendo. Primeiro, precisamos conhecer aquilo que manipulamos e a realidade que nos cerca para poder transformá-la e para isso a Internet é fabulosa. Para onde vai essa transformação, eu não sei, mas vamos pagar para ver.
Marcone Formiga - E quanto à geração pontocom, garotos que conhecem longínquas ilhas perdidas, mas não lêem praticamente nada?Miguel Paiva - Com Internet ou sem Internet o problema da leitura permanece, sobretudo no Brasil. Pelo menos, esses meninos conhecem alguma coisa, mesmo sem ler. Se lessem, seriam muito mais felizes e conheceriam muito mais.
Marcone Formiga - Como fica a cabeça das pessoas diante de toda essa velocidade da Internet?Miguel Paiva - Veloz. Aprendemos a ler e a entender em outro ritmo. Meus filhos têm outra compreensão das coisas, outra percepção dos signos e símbolos mas não perderam a capacidade de refletir nem de contemplar, ainda bem...
Marcone Formiga - A mulher, hoje, é obrigada a trabalhar, porque o homem não consegue manter, sozinho, a família. O homem deixou de ser o provedor? Isso significa que a mulher agora tem uma jornada de neo-escravidão?Miguel Paiva - Não acho que a mulher seja obrigada a trabalhar porque o homem não tem como sustentá-la. Acho que a mulher conquistou esse direito justamente para não ter que ser sustentada pelo homem e com isso se submeter ao seu comando. Isso sem contar com aquelas que fazem do casamento uma profissão, nem com aquelas que foram submissas o tempo todo e não sabem como se sustentar. Mas essa estrutura está vencida. Tudo deve mudar daí por diante, principalmente, essa jornada dupla que a mulher enfrenta.
Marcone Formiga - O calor humano tende a sumir?Miguel Paiva - Nunca! Morreríamos de frio, de tristeza, de solidão e de tédio.
Marcone Formiga - Esta é para o Gatão de Meia-Idade: existe sexo sem amor? Ou amor sem sexo? Ou o sexo de verdade é o de corpo e alma?Miguel Paiva - O sexo melhor é o de corpo e alma, mas é claro que existe o sexo sem amor, e como! E o amor sem sexo.
Marcone Formiga - Quando acaba aquela química de pele e prevalece a solidão a dois, tem como a sexualidade aflorar?Miguel Paiva - Até tem. Hoje existem recursos novos, e a Internet está aí para isso, que podem estimular, e muito, uma relação que esfria sexualmente. Mas, se não houver amor entre os dois, e sobretudo vontade de resolver a sexualidade, só vai aflorar fora de casa, com outros.
Marcone Formiga - Esta é para a Radical Chic - Normalmente, as mulheres só exprimem a sensualidade em momentos de crise na vida conjugal. Por que não se antecipam a uma crise?Miguel Paiva - Ela não concorda com isso! Que história é essa? Claro que a mulher exprime sua sensualidade sempre que lhe der vontade, não nas crises. Acho que nas crises é que ela nem quer saber. Pega suas trouxas e se manda. Certamente, ela já perdeu muito tempo expressando sua sensualidade com a pessoa errada.
Marcone Formiga - E o que deve fazer o homem para conquistar uma mulher e mantê-la?Miguel Paiva - E eu sei? É o imponderável, mas respeito é bom e a mulher gosta. Carinho, a mulher também gosta. Tesão, ela também gosta. Atenção, ela também gosta. Com isso tudo, pode até ter uma barriguinha.
Marcone Formiga - Afinal, o homem gosta muito mais da caça do que da captura?Miguel Paiva - O homem é viciado no ato de caçar. É nela que se faz a fama do caçador. Gosta de fazer aquelas marcas no cabo da arma não importando a qualidade da caça. Eles acham que na hora do juízo final vão computar quantas ele caçou para ver se merece o reino dos céus.
Marcone Formiga - A sensualidade pesa mais na conquista do que o Kama-Sutra inteiro?Miguel Paiva - Sem dúvida. Principalmente, para as mulheres. Um primeiro approach é fundamental e, para isso, algumas regras valem, mas, para o resto, o talento de cada um é o que vale.
Marcone Formiga - Na hora do sexo, o que o homem mais detesta na mulher?Miguel Paiva - Que ela não queira fazer.
Marcone Formiga - Novamente a Radical Chic: O que as mulheres mais detestam nos homens?Miguel Paiva - A prepotência.
Marcone Formiga - O sexo é tudo na vida a dois? Sem sexo não existe amor, não existe relação?Miguel Paiva - Acho que pode até existir uma relação, de amizade, de parceria, de solidariedade, fraterna ou conveniente, mas para ser uma relação amorosa, só com sexo.
Marcone Formiga - Muitas mulheres reclamam que os homens não querem nada sério. Só ficar, sair, transar... É assim mesmo?Miguel Paiva - Não só os homens. As mulheres de hoje também. O medo de um relacionamento mais sério é grande justamente porque temem ficar sozinhos, serem deixados, e para não ficarem sozinhos... ficam sozinhos.
Marcone Formiga - Alguns ginecologistas afirmam que a mulher, depois dos 30, aceita o primeiro pedido de casamento. Você concorda com isso?Miguel Paiva - Todas essas máximas são antigas, vêm de outros tempos, de outras sociedades. Hoje as coisas estão mudando e não é mais assim. Acontece com muito mais freqüência mulheres em torno dos 50 verem o erro que cometeram, se separarem e casarem com outras mulheres. Além de uma constatação da crise, esse gesto é uma novidade, sem dúvida.
Marcone Formiga - Oscar Niemeyer falou outro dia que a “vida se resume com uma mulher ao lado e seja o que Deus quiser.” O Gatão de Meia-Idade concordaria com isso?Miguel Paiva - Só não convidaria Deus para essa festa.
Marcone Formiga - O Gatão de Meia-Idade já encontrou a mulher definitiva?Miguel Paiva - Quanto mais ele vive, mais ele compreende as mulheres. Elas são incompreensíveis...
Marcone Formiga - No amor, as coisas funcionam como no futebol - treino é treino, jogo é jogo?Miguel Paiva - De preferência pelada.
William Medeiros – Você não acha que a série Californication teria sido inspirada no Gatão de Meia-Idade? David Duchovny seria o “gatão de meia-idade” americano?Miguel Paiva - Não conheço.
William Medeiros – Qual o seu personagem predileto?Miguel Paiva - Dos meus, é o gatão. Dos outros autores, é o Snoopy, do Schultz.
William Medeiros – Seu estilo é muito pessoal, é único. É simples, limpo, muito correto e sem exageros. É impossível olhar aqueles desenhos e não falar de cara que são do Miguel Paiva. Seu desenho reflete o seu estilo pessoal?Miguel Paiva - Nunca pensei nisso, mas acho que sim. Sou meio assim. Gosto de cores, de limpeza de estilo, de sutilezas.
William Medeiros – Qual é a sua maior fonte de inspiração e pesquisa, já que seus quadrinhos parecem estar sempre em dia com os modismos da sociedade e com as mudanças de comportamento das pessoas?Miguel Paiva - A própria observação da realidade por meio de leitura, TV, informação em geral e muita conversa.
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