Odisséia colombiana
Data de Publicação: 5 de julho de 2008
Sem a fanfarronice e compulsão do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em produzir factóides para a comunidade internacional, e sem que um sequer dos seus soldados apertasse o dedo no gatilho, o exército da Colômbia conseguiu resgatar na quarta-feira a ex-senadora Ingrid Betancourt, depois de seis anos refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que, juntamente com Chávez, também foi humilhantemente derrotada.
A operação também libertou três americanos e 11 militares e o seu planejamento teve cenas que só ocorrem no cinema, dificilmente na vida real. Meticulosamente planejada, a operação conseguiu infiltrar nove agentes na guerrilha, usando camisas de Che Guevara, passando a falsa impressão de que eram seus admiradores, e que, portanto estavam dispostos a engrossar as fileiras das Farc. Os guerrilheiros nem de longe desconfiaram da infiltração.
Não foi por acaso que, depois de ser resgatada, Ingrid Betancourt fez um elogio público à ação: “Podemos conseguir a paz se confiarmos em nossas Forças Armadas, que demonstram ser possível paz com inteligência, prudência e sabedoria”.
O resgate dos 15 reféns dos guerrilheiros ocorreu a 70 quilômetros ao sul da cidade de Guaviare, no centro do país e o que facilitou muito a operação foi a divisão dos seqüestrados, porque o serviço de inteligência do exército colombiano, já infiltrado com os guerrilheiros, conseguiu que ficassem reunidos em apenas um lugar, invés de três, transferidos ao sul do país. A partir daí, foi coordenada a estratégia para resgatá-los de helicópteros em um local predeterminado. As aeronaves seriam de uma organização fictícia, mas, na verdade, eram do exército colombiano, pilotadas por oficiais, mas a fuselagem estava pintada de vermelho e branco para passar a impressão de que eram civis.

Ingrid Betancourt, depois de desembarcar em Bogotá, revelou à sua mãe e ao marido que alguns dos militares que se fizeram passar por guerrilheiros, além de usarem camisas com mensagens de Che Guevara, “também falavam como guerrilheiros e se vestiam como tais”... Ela própria e os guerrilheiros não perceberam absolutamente nada de anormal, mas prevalece a suspeita que Geraldo Aguilar Ramírez, que usava o codinome de César, responsável pela escolta dos seqüestrados, foi cooptado pelos militares.
Na madrugada da quarta-feira, os militares receberam as coordenadas do local onde César e os reféns se encontravam, quando os helicópteros decolaram.
A surpresa maior aconteceu em pleno vôo, quando um dos militares disfarçados falou em voz alta e firme: “Somos o Exército da Colômbia, vocês estão livres!”. Quase que a viagem terminava nesse momento, porque todos os seqüestrados a bordo não conseguiram conter a forte emoção, pulando, gritando e chorando. Antes dos dois agentes militares dominarem os guerrilheiros, com os pilotos tomando a rota de San José del Guaviare.
Já perdendo seus principais estrategistas e lideranças, as Farc, com essa operação, poderão acelerar o processo de desagregação iniciado em março, quando o exército colombiano, durante um ataque a um acampamento do grupo no Equador, acabou matando Raúl Reyes, que funcionava como o segundo na hierarquia da organização guerrilheira. Logo depois, Ivan Ríos, que também integrava a cúpula, foi assassinado por um dos seus guarda-costas.
Mas a desagregação das Farc foi consumada mesmo quando foi anunciada a morte do seu principal líder, Manuel Marulanda, o Tirofijo, prevalecendo a versão que caiu no meio de operações militares, embora os guerrilheiros insistam em afirmar que as causas da morte foram naturais.
Amargando derrotas sucessivas, a começar pela rejeição do referendo sobre seu projeto de reforma constitucional, em dezembro do ano passado, Hugo Chávez foi tão derrotado quanto as Farc na operação militar, amargando também o dissabor de assistir ao colega e desafeto colombiano, Álvaro Uribe, festejar o resgate de Ingrid Betancourt. No final do ano passado, Chávez rugiu como o leão da Metro, mas não passou disso, protagonizando uma comédia política que o desgastou ainda mais.
Tornando a vitória de Uribe ainda mais amarga para Chávez, ele jamais escondeu suas promíscuas relações com os guerrilheiros, inclusive com financiamento de petrodólares em suas operações, chegando ao ponto de articular o reconhecimento internacional das Farc. A promiscuidade chegou ao ponto de um computador de Raúl Reyes, apreendido logo depois da sua morte, ter armazenado mensagens de Manuel Marulanda, uma delas fazendo referência a US$ 300 milhões que teriam sido doados pelo presidente da Venezuela.
Com o cerco fechando em torno dele, Hugo Chávez percebeu que tinha que recuar. Não foi por acaso, então, que passou a fazer discursos insistindo que as Farc libertassem os reféns e acabassem com a guerrilha. Constatou que estava cavando sua própria sepultura política, porque, a cada dia, sua credibilidade e respeito no cenário político internacional despencavam.
Cada vez mais isolado e desmoralizado, na quarta-feira, sem nem de longe lembrar o falastrão de antes, o presidente venezuelano manteve-se silencioso, elegendo seu colega da Bolívia, Evo Morales, amestrado por ele, para ser uma espécie de seu porta-voz ou ventríloquo, lendo um texto que teria sido enviado do Palácio Miraflores, em Caracas, via e-mail. Morales o leu como se fora ele mesmo que redigira. O texto afirmava o seguinte: “Esta liberação é muito importante para a busca da paz e os acordos entre as Farc e o governo colombiano. É uma demonstração que as Farc liberaram seus presos e de que as conversas iniciadas pelo companheiro Chávez, que devemos saudar, contribuíram para a libertação”.
Parece até que o presidente da Bolívia perdeu completamente a compostura, por se prestar a um serviço desse.
Coincidência ou não, até porque as informações são desencontradas, na mesma quarta-feira do resgate, o candidato republicano à sucessão do presidente George Bush, John McCain se encontrava na Colômbia, em sua primeira viagem ao exterior na campanha pela Casa Branca. Se sabia ou não o que aconteceria, o fato é que McCain fez poeira para seu adversário Barack Obama, contabilizando uma vitória política, porque três americanos mantidos como reféns dos guerrilheiros foram libertados.
McCain aproveitou a viagem, em um momento especial, reforçando o compromisso de seu país com o governo da Colômbia no combate contra o terrorismo e o tráfico de drogas.
Uribe foi discretíssimo com o êxito da operação de resgate, evitando declarações públicas na quarta-feira. Provavelmente, para evitar que usasse o golpe nas Farc como uma tentativa de neutralizar o escândalo político, a partir da aprovação de uma emenda, permitindo a sua reeleição em 2006, ter sido questionada na Justiça. Naquele dia, o governo havia anunciado que enviaria ao Congresso, para o referendo cujo objetivo é repetir a eleição, que assegurou o seu segundo mandato.
O presidente, certamente, evitou demonstrar que sua popularidade, que chega aos 80%, poderia funcionar como pressão ao Judiciário.
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