Publicidade
Linha

Capa da Última Edição »

Home » Edições » 2008 » Julho » Ed. 600 » Esporte

Sua Excelência, o futebol

Diminuir corpo de texto Aumentar corpo de texto

Data de Publicação: 5 de julho de 2008
Por que os maiores ídolos são ungidos como figuras sagradas, têm o seu culto particular, em meio aos ritos do jogo – que são guerra e religião? A mística do futebol brasileiro está presente nas mais diversas ocasiões, como no gesto do torcedor que leva a mão à testa e evoca o santo da sua devoção.

Quem não se lembra da magia brasileira de 1958, 1962, 1970?... Também 1994, 2002, mas sem todo esse clima que nos levou a conquistar o respeito e a admiração do mundo inteiro. Para os brasileiros, que assistiram, pela primeira vez, ao vivo e em cores, à transmissão da Copa do México, e, ainda hoje, carregam na retina as imagens espetaculares protagonizadas por craques de verdade – fica difícil compreender por que o futebol brasileiro anda tão capenga, sem o respeito que esbanjava antes.

Por isso mesmo, o povo sofre na mais perfeita tradução de quem entende como ninguém a alma futebolística brasileira. Edilberto Coutinho, uma espécie de antropólogo e sociólogo do futebol, sentenciou que não se trata de um simples esporte, mas, sim, da maior de todas as artes populares – desde que foi importado da Inglaterra, há mais de 100 anos, embora elitizado até chegar ao brasileiro, antropofagiza e carnavaliza, impondo ao mundo um estilo novo, diferente, tornando-se paixão, loucura coletiva, quase uma religião.

Foi o africano, de acordo com o antropólogo e sociólogo, que proporcionou ao brasileiro a habilidade e o prazer corporal de um futebol que o europeu, não podendo ter, nem sabendo imitar, tanto passou a admirar quando encarnado num Leônidas, Garrincha ou Pelé. Ou seja, o crioléu mais criativo que dizimou o tédio que era o estilo britânico redimensionando o futebol mundial. Com suas firulas e meneios elegantes, sinuosos, um craque de pele escura como um grão de café torrado encanta as louras platéias européias nos anos 30. Seu nome: Leônidas da Silva. Mas o mundo inteiro preferiu chamá-lo de Diamante Negro, o inventor de jogadas como a bicicleta.

Governador José Roberto Arruda em recepção na embaixada da Suécia, homenageando suas excelências os campeões de 1958

Outro jogador catalogado por Edilberto Coutinho foi Arthur Friedenreich, filho do alemão Oscar com a bonita negra Matilde. Fried ou El Tigre, como era chamado, deixou os uruguaios encantados com o seu futebol, depois de fazer o gol solitário que assegurou ao Brasil o primeiro título internacional de futebol: Campeão Sul-Americano de 1919”.

Edilberto Coutinho registrou que ainda “jogadores míticos, como Friedenreich ou Leônidas, Garrincha ou Pelé, atingem o psique nacional, em toda a sua nativa e poderosa pureza, como Didi, Zizinho, Domingos da Guia, negros ou mulatos que se tornaram autênticos tesouros de seu povo.” Ou seja, nasceram pobres na terra batida da miséria e do preconceito. Edilberto não teve dúvida: “A identificação do brasileiro médio com eles é imediata, fatal, total”. Tudo para não dar certo em uma sociedade miscigenada, mas que se queria absurdamente ariana. É a identificação com o ídolo negro ou mulato que alcança sua difícil vitória num meio hostil, elitista e racista”.

Foi com a plena aceitação do preto e mestiço no futebol carioca, enquanto em São Paulo e Rio Grande do Sul a resistência foi maior, que esses jogadores, alegres, descontraídos, com improvisação e toda habilidade do prazer corporal de quem joga como quem dança, passaram a integrar o futebol brasileiro.”A própria maneira de andar em campo tem bamboleio e a ginga malandra dos sambistas. É um jeito malevolente, gigante rebolante. Com essa espécie de choque de retorno, para usar um termo emprestado à antropologia, o branco reaprende com o negro o jogo que inventara”, registrou em livro o paraibano Edilberto, para argumentar que só assim o brasileiro pode apresentar sua grande arte no futebol.

O fato é que a mística do futebol brasileiro está presente nas mais diversas ocasiões. Também no Cartola que se ajoelha perante os altares, à onda que vai agradecer o título conquistado (que pode se reverter em votos para eleger deputado ou virar fonte de negócios nem sempre escrupulosos). No jogador que se benze ao entrar em campo...

Essa sociologia vai mais além: “Claro que emoção coletiva é, por vezes, desviada, usada por mobilizar (ou imobilizar as massas). Se seu time perde, em quem atirar pedras? Substituem-se no posto de vidraça os verdadeiros responsáveis pelos problemas do país, a má qualidade de vida, as condições sociais horripilantes. Gol dos dominados? Sim, algumas vezes. Mas nada invalida o jogo, na força mágica de sua emoção e de sua beleza, que sempre prevalecem”, sentenciou para a história Edilberto Coutinho.

Recomende esta página   Imprimir esta matéria
Revista Brasília Em Dia © 2006 - 2008 - Todos os direitos reservados.
SH - Sul Qd. 06 - Conj. A Bl. E Salas 926/927 - Ed. Business Center Park
CEP: 70322-915 - Brasília DF - NAC: C97T8 GKG4C
Fones: +55 (61) 3321-7900 - Fax: +55 (61) 3322-5681
E-mail: brasiliaemdia@brasiliaemdia.com.br