O monstro da Nicarágua
Data de Publicação: 5 de julho de 2008
Se quiser, o escritor Mário Vargas Llosa tem um roteiro pronto e acabado para escrever um best-seller, à altura de quem tem um Nobel. Basta, apenas, relatar o que está ocorrendo na Nicarágua, uma demonstração que a vida, muitas vezes, imita a arte. Neste caso, a realidade está muito além da ficção, pelos ingredientes mais torpes, envolvendo o presidente Daniel Ortega, por duas vezes (1985 e 1990), e atualmente no exercício do segundo mandato.
Os protagonistas dessa novela na vida real envolvem sua enteada, Zoilamérica Narváez, e a própria mãe, Rosario Murillo, com um forte componente político. Em 1982, Zoilamérica completava 15 anos, Ortega, 34, estava no auge com a sua revolução sandinista, que derrubou o presidente corrupto e direitista Anastacio Somoza. Casado com uma poetisa, que se engajou na revolução, ele passou a assediar a filha, quando ainda era criança, mas, aos 15, quando teve a primeira menstruação, procurou doutriná-la politicamente.
Convenceu-a de que a revolução só continuaria se mantivesse o equilíbrio emocional para garantir a esquerda no poder. Para isso, seria preciso manter seu apetite sexual muito bem alimentado, inclusive por Zoilamérica. Antes e depois de acariciá-la e masturbá-la, além de usar vibradores e obrigá-la a assistir filmes pornôs, avisava: “Você está em minha lista”. Traumatizada, ainda hoje ela escuta os passos de Ortega no corredor até o seu quarto, pela madrugada, e uma frase muito repetida por ele: “Verás que, com o tempo, irás gostar”.
Depois de menstruar pela primeira vez ele passou a consumar a relação, com apenas uma constatação: “Você já está pronta”. Zoilamérica desabafa: “Me tratou pior do que uma mulher que vende o seu corpo”. Molestada e sexualmente abusada desde os 11 anos, durante 20 anos, foi uma refém de Daniel Ortega, até que conseguiu denunciá-lo na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), em Washington. Agora, com 41 anos, formada em sociologia, prestou o seu depoimento, para iniciar um processo: “O poder usou contra mim todos os instrumentos possíveis de dominação: físicos, psicológicos, políticos e militares”.
Como uma escrava sexual do líder sandinista, foi mantida em um cativeiro, com um forte esquema de segurança. Quando pediu ajuda, padres sandinistas apenas a aconselhavam a uma resignação cristã e sacrifício no interesse da tranqüilidade espiritual de Ortega. Emocionada, acrescenta: “Foi-me negado o direito de existir como um ser humano. Fui mantida como um objeto de um outro ser. Seu atrevimento chegou a grau tal que não se importou de me chamar à casa do Governo e tentar, ali mesmo, manter relações na presença de terceiros”.
O presidente nega tudo, argumentando que ela está sendo usada pela CIA. Sua mãe, que, hoje, manda no governo, procura subestimar a denúncia, afirmando que tudo não passou de um objetivo de chamar a atenção de Daniel Ortega, porque competia com ela.
Mas Zoilamérica está disposta a tudo. Tentou na Nicarágua, mas foi impossível. O 1º Juizado de Crime de Manágua, presidido pela ex-guerrilheira da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), Juana Méndez, simplesmente rejeitou a denúncia, e assim foi em todas as instâncias.
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