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Por que o ciúme?

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Data de Publicação: 5 de julho de 2008
Em menos de uma semana, dois casos de mulheres assassinadas passionalmente foram registrados em Brasília. Afinal, o ciúme é uma manifestação de amor, zelo? Não existe dúvida de que as crises conjugais têm no ciúme seu componente mais forte de insegurança

William Shakespeare eternizou em Otelo, tragédia grega, o que o ciúme pode provocar. Desde Adão e Eva, que o ciúme inspira poetas, escritores e compositores. Com todas as transformações que ocorrem no mundo, homens e mulheres não conseguem se livrar dessa reação que tem levado muitos casais à separação, lotando ante-salas de terapeutas.

A escritora alemã Gaby Hauptan, que já vendeu 12 milhões de livros, acredita que o ciúme é uma grande bobagem, para que as pessoas possam se desenvolver mais, porque seus vários campos de atuação ficam insatisfeitos e não são atendidos.

Se um casamento pode ser uma boa coisa para duas pessoas, a escritora tem dúvida: “Só em casos excepcionais. Acho que só é possível duas pessoas terem chance de se desenvolver na vida a dois se forem igualmente fortes ou igualmente fracas. Quando isso não acontece, a mais fraca vai ser oprimida, varrida para debaixo do tapete”.

Não falta quem acredite que o casamento vai mudar, perdendo seu caráter convencional, principalmente o sentimento de posse dos parceiros.

Mas, afinal de contas, os homens traem mais que as mulheres? Vinícius de Moraes reconhecia, em “Garota de Ipanema”: “A beleza que não é só minha/ que também passa sozinha...” Isso significa, traduzindo o poeta, que nem todas as mulheres bonitas, as quais os homens admiram, despertam mais do que o simples prazer estético, resumido no rosto bonito.

Não faz muito tempo, causou perplexidade quando se soube que Michelle Pfeiffer separou-se do marido depois de flagrá-lo com outra mulher, que nem se comparava em beleza.Geralmente, mulheres bonitas são narcisistas, cortejadas sem muito esforço e, por isso, não desenvolvem certos predicados. Se fosse diferente, se beleza fosse tudo na vida, Marilyn Monroe não teria se matado.

Há traições perfeitamente compreensíveis, apesar de aparentarem o oposto: todos nós conhecemos um caso de alguém que trocou a princesa do conto-de-fadas pelo dragão de São Jorge. Vai ver era a princesa que soltava fogo pelas ventas.

Sentir ciúme é normal? O psiquiatra Antonio Mourão Cavalcante, autor do livro “O ciúme patológico”, garante que sim. “Mas quando ultrapassa os limites e começa a sufocar, tornando-se um sentimento permanente e crescente, pode ser perigoso”.

O psiquiatra alerta que o sinal de perigo é acionado quando, por exemplo, a mulher precisa avisar ao marido quando vai dormir. Isso para que ele possa cercar a cama inteira com uma larga faixa de talco cobrindo o chão. Se, no dia seguinte, não houver pegadas no pó, demonstra que ela não deu uma escapulida enquanto ele dormia.

Exagero? Claro. Mas não é ficção, garante o terapeuta, que tratou de um caso assim.

O empresário Flávio Duarte era obrigado a passar pelo detector natural da traição de sua namorada: o nariz. Ele é quem conta: “Quando eu chegava do trabalho, ela me mandava tirar a roupa e me cheirava inteiro, para ver se encontrava perfume de outra na minha pele. Era ridículo!”.

Não é por acaso que os psiquiatras consideram ciumentos assim bem próximos às raias da loucura. Também, o psiquiatra Antonio Mourão os vê como casos patológicos, que precisam de tratamento, aconselhando as pessoas envolvidas em relações assim a procurarem psicólogos ou psiquiatras e fazer terapia.

Já o neurologista William Rezende Araújo acredita que os ciumentos geralmente têm baixa auto-estima, são possessivos, egoístas e imaturos. “Precisam enxergar seus próprios valores e aceitar que gostem deles pelo que são. Revirar bolsas, vasculhar gavetas e pegar a extensão do telefone na eterna busca para provar sua desconfiança são os sintomas mais freqüentes”.

Garante o psiquiatra Luís Octávio de Castro que muitos têm distúrbios paranóides e criam histórias mirabolantes: “Eles aprisionam tanto o outro que acabam sendo abandonados”, ressalta, para acrescentar que é justamente aí que começa a se formar uma bola de neve.

Abandonado, o ciumento entra logo em uma nova relação e acredita que vai acontecer a mesma situação. “E de fato acontece. Enquanto ele não se tratar, a situação não terá fim, porque o problema está dentro dele, e não nas outras pessoas, analisa o psicólogo André Segundo. Também, a dor permanece, porque ciúme dói mesmo. Os sintomas físicos, como dor no estômago, taquicardia, suor, calor, entre outros, são resultado da descarga de adrenalina que ocorre no momento da sensação”, garante o psiquiatra Luís Octávio de Castro.

Muito antes do filme “Infidelidade”, o cinema já havia imortalizado a situação clássica do adultério em “La Belle de Jour”, em que Catherine Deneuve personificava a esposa de um médico que passava a tarde em um bordel. A Bíblia considera o adultério pecado, enquanto o Código Penal considera crime adultério, infidelidade ou relações impróprias. Muito pior é o que acontece nas Filipinas, com as Ordenações Filipinas – um bojo de leis escritas por portugueses e espanhóis em 1603 e que também vigoraram no Brasil até a proclamação da República. Nelas, o adultério era punido com a morte na fogueira e o confisco dos bens. Tem mais: se um marido soubesse da traição de sua mulher e não a denunciasse, além de vê-la morta, passaria pelo constrangimento de ser espancado publicamente e levado para o exílio na África. Muito pior ainda: além de espancado, teria que usar chifres na testa – o que deu origem à expressão de “chifrudo”.

Apesar de o Código Penal brasileiro prever penas de até seis meses para os adúlteros, isso não ocorre. A própria evolução da sociedade tornou certos preceitos legais ultrapassados. E isso a tal ponto que um flagrante de adultério tem valor como argumento apenas nas varas de família, para definir, nos casos de separações litigiosas, a posse dos filhos ou para arbítrio de pensão. Ou seja, uma escapadinha pode significar prejuízo, mas não prisão.

Mais grave ainda é quando os homens se sentem donos do corpo e da cabeça das mulheres, não aceitando que o amor acabou, que elas não os querem de volta, e acabam matando-as passionalmente, sem que sequer possam acusá-las de adúlteras.

Esses, sim, são primatas.

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