Caminhos
Data de Publicação: 5 de julho de 2008
Por: Paulo Castelo Branco
E-mail: pcbranco@brasiliaemdia.com.brOs mestres das artes já ensinavam: Não basta o indomável poder da criação. É necessário disciplina, olhar crítico e trabalho. Trabalho, muito trabalho.
O desenvolvimento tecnológico oferece milhares de instrumentos que podem ser usados nas artes, na engenharia, na arquitetura e na medicina. Os cálculos na construção civil, hoje, são feitos com o auxílio de computadores precisos que deixam longe os complicados estudos estruturais que tornaram famosos profissionais da área, dentre eles, o professor Joaquim Cardoso.
Na medicina, todos os dias são criados instrumentos de alta tecnologia que permitem cirurgias pouco invasivas, com resultados admiráveis. O avanço na área da medicina, com o desenvolvimento de equipamentos excepcionais utilizados em tratamento de doenças de alta complexidade, garantem melhor recuperação do paciente. As próteses computadorizadas são tão perfeitas que devem levar às Olimpíadas de Pequim um corredor amputado de ambas as pernas que se utiliza de próteses e consegue fazer marcas próximas das dos atletas fisicamente perfeitos.
Mas é nas artes e na arquitetura que surgiu o contraste mais evidente: O AutoCAD. Esta ferramenta, muito utilizada na arquitetura, retirou a alma dos traços dos grandes mestres. A linha suave da mão do criador não é reproduzida pelo instrumento computadorizado. É como se não existisse a sensibilidade que mora no íntimo do arquiteto.
Os trabalhos realizados com a utilização do AutoCAD são frios. Marcados pela dureza. Os traços não são livres. Não flutuam. Apesar de oferecerem profundidade, não transmitem harmonia. São fotografias frias de uma máquina insensível.
Os observadores dos trabalhos de Da Vinci ficam extasiados com os traços precisos de seus desenhos e logo compreendem que ali estão a alma e a habilidade do mestre.
Nesta semana, foi lançada em Brasília a revista Nosso Caminho, do professor Oscar Niemeyer. Nela, o arquiteto dos mais importantes monumentos da cidade, apresenta suas novas criações. A menina dos olhos é a Torre Digital que será construída no ponto mais alto do Distrito Federal. É como uma flor, ou uma bailarina; cada um poderá ver a obra com o olhar que desejar. A torre estará lá, no cume, como um farol iluminando a escuridão do Planalto Central. As linhas ousadas e inusitadas, mais uma vez, surpreendem as pessoas. Oscar, com seu século de vida, segue os caminhos da existência, riscando arte e arquitetura nas grandes folhas brancas que marcam seu trabalho.
São essas obras do mestre que mostram a diferença entre a máquina e a alma. A reprodução do grande auditório ao ar livre que será construído na Esplanada dos Ministérios, ao lado do Teatro Nacional, é o sinal mais evidente do contraste. Quem viu os desenhos originais das obras sente na forma, mesmo que trêmula, das mãos cansadas, a arte em seu mais puro momento de criação. Oscar, na sua ilimitada capacidade de ver além do infinito, com os olhos semicerrados, coloca não só o conhecimento da arquitetura, mas, tal qual Da Vinci, Oscar risca o desenho como se seus olhos estivessem em sua mente e não no espaço físico em que serão construídas suas obras.
Como não viaja de avião, e a senectude o dificulta fazer a longa viagem de carro, Oscar não veio ao lançamento de sua revista. Os amigos e admiradores quase não perceberam a ausência do mestre. Ele estava ali, no seu Espaço, com sua cigarrilha entre os dedos e um copo de vinho tinto ao lado. Estava presente com o traço de suas linhas curvas e suas mulheres impetuosas flutuando, sensíveis e sensuais. Os traços frios da tecnologia, nessa festa, não tiveram vez. Ficaram fora do Nosso Caminho.
- Próximo texto:
- Walter Gomes Walter Gomes
- Texto Anterior:
- Ney Lopes Ney Lopes
- Índice da edição - Ed. 600