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Cinema

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Data de Publicação: 5 de julho de 2008
Por: José Guilherme
E-mail: jguilherme@brasiliaemdia.com.br


BODAS DE PAPEL Brasil, 2008.

Direção/Roteiro: André Sturm.
Elenco: Helena Ranaldi, Dario Grandinetti, Walmor Chagas, Cleyde Yáconis,Sérgio Mamberti.
* * * *


Foi preciso que as luzes se acendessem para que eu percebesse a dura realidade: eu estava sozinho no cinema! É verdade que eu sempre quis uma sala de projeção inteirinha só para mim, mas, megalomanias à parte, Bodas de Papel evidencia o que está acontecendo Brasil afora com 95% dos filmes nacionais. À exceção de 2 Filhos de Francisco em 2006 (2.500.000 espectadores), Tropa de Elite em 2007 (3.000.000) e Meu Nome Não é Johnny em 2008 (2.115.000), todos lidando com “fetiches” do público, as demais produções patinaram num limbo abaixo de 100.000 visitantes. Salvou-se a sitcom engraçadinha e vazia Sexo Com Amor?, com um público de 420.000. Filmes resenhados aqui com *** até ****, como Estômago, Chega de Saudade, Juízo, Polaróides Urbanas, estatisticamente “não existem”. E não é que as produções nacionais sejam ruins. Muito pelo contrário. Ruim é o público que não as prestigia, preferindo enlatados medíocres e vazios como Hulk, Homem de Ferro, Nárnia, Sex And the City e outras porcarias anti-culturais.

Neste Bodas de Papel, Sturm conta uma história delicada, sensível e inevitavelmente lenta sobre Nina (Ranaldi), que, com a morte do avô (Mamberti), resolve voltar à cidade de Candeias, no interior de São Paulo, depois que o projeto estatal para inundá-la com uma represa gorou. Grandinetti é León, o arquiteto que, contratado por uma velha moradora do local (Yáconis) para reformar sua casa, esbarra acidentalmente com Nina, nascendo daí uma paixão entre os dois. Ao completarem um ano de convivência, conhecido como “bodas de papel”, algumas coisas boas e outras ruins acontecem. Dizer mais seria estragar algumas surpresas. Não faltam o dono do armazém (Chagas) e o do boteco local (Antonio Petrin). Os flashbacks de Nina, ainda criança, ouvindo histórias de seu amoroso avô, são um bônus à parte. E o roteiro não parece depender do clássico esquema “começo-meio-e-fim”: a narrativa prima pela contemplação e pelos devaneios, numa cadência típica de cidadezinha do interior, sem a agitação da cidade grande. Um belo filme.

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA (Le Scaphandre et le Papillon).

França/EUA, 2007.
Direção: Julian Schnabel.
Elenco: Mathieu Amalric, Emanuelle Seigner, Max Von Sydow.
* * * *


O filme impressiona. Os primeiros 20 minutos, com Jean-Dominique Bauby (Amalric, excelente) saindo de um coma de três semanas, subseqüente a um acidente vascular-cerebral, e descobrindo que a única parte de seu corpo não afetada pelo derrame foi o olho esquerdo, são quase insuportáveis, de tão claustrofóbicos. Bauby era editor da prestigiada revista de moda francesa Elle, e teve o derrame enquanto dirigia, aos 42 anos. O filme impressiona também porque é uma história real. E continua a impressionar quando você descobre que essa história foi contada pelo próprio Bauby. Com a pálpebra esquerda!

É isso mesmo: depois de ter combinado com a terapeuta que um piscar do olho significaria “sim” e duas piscadas valeriam por um “não”, ele passa a identificar com piscadelas as letras do alfabeto, lidas monótona e repetitivamente por uma secretária que recebe o seu ditado. O livro foi escrito letra por letra, e se tornou um bestseller. Emanuelle Seigner (esposa do cineasta Roman Polanski), como a mãe dos filhos de Bauby, e o veterano ator sueco Von Sydow, como o pai dele, puxam um elenco de coadjuvantes que dá solidez e consistência à narrativa.

A história é entremeada com rápidos flashbacks da vida pessoal e profissional de Bauby antes do acidente, e esse contraste entre um quarentão saudável, rico e bem-sucedido, e o vegetal em que ele se transformou após o AVC, também foi feito para incomodar. Aliás, a narrativa de Schnabel é seca, fria, feita sem emoção exatamente para despertar emoções. O estilo está longe do documental, é claro, e a prova disso é que convivemos “por dentro” com o desespero de Bauby, isolado do mundo como se estivesse num escafandro.

NOTA-1: Vem aí o 36º Festival de Cinema de Gramado, de 10 a 16 de agosto/2008. Aguarde.

NOTA-2: Mais um dos premiados do 35º Festival de Gramado/2007, Valsa para Bruno Stein, com Walmor Chagas, está chegando às telonas nas próximas semanas. Vale a pena conferir.

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