Rompendo o silêncio
Data de Publicação: 28 de junho de 2008
Na quinta-feira, 26 de junho, João Havelange, na véspera de comemorar os 50 anos de sua primeira conquista da Jules Rimet, na condição de presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBD), rompeu o silêncio para revelar os bastidores do futebol mundial, como, por exemplo, que as copas da Inglaterra e Alemanha, respectivamente, em 66 e 77, foram direcionadas aos anfitriões.
Lúcido e ativo, aos 92 anos, Havelange, em entrevista a Rodrigo Bueno, do jornal “Folha de S. Paulo”, revelou que o seu maior orgulho foi conquistar para o Brasil a Copa de 58. Com boa memória, recordou o país em 30, 34, 38, 50 e 54, vencendo em 58 e 62, sendo derrotado em 66, conquistando o tri em 1970.
Quando o repórter quis saber se o Brasil foi prejudicado na Copa de 74, ele não se conteve, falando bem no seu estilo franco:
- Em 66, o Brasil tinha praticamente o mesmo time de 62. Quem era o presidente da Fifa? Sir Stanley Rous, inglês. Onde era a Copa? Inglaterra. Nos meus três jogos, com Portugal, Hungria e Bulgária, tinham três árbitros e seis bandeirinhas. Sete eram ingleses e dois alemães. Acha que foi para quê? Acabar com o meu time. Acabaram. Pelé foi machucado. Em uma homenagem depois, estava Stanley Rous. Estendeu-me a mão e não o cumprimentei. Ele disse: “O que você tem?” respondi: “Faça um exame de consciência, você tem a resposta”. A Alemanha jogou com o Uruguai, e o árbitro era inglês. A Argentina jogou com a Inglaterra, e o árbitro era alemão. Qual foi a final? Inglaterra e Alemanha. Por que só tinha árbitro alemão e inglês nos meus jogos? Em 74, na Alemanha, também. O senhor não acha estranho? E pergunto: a Inglaterra voltou a ser campeã ou ganhou alguma coisa? Não, então pronto!
Quanto à manipulação na escolha de sedes da copa de 66 e 77, ele não deixou a menor dúvida:
- Fui à Alemanha (1974), tinha acabado de ser eleito (presidente da Fifa), promovi um jogo entre Holanda e Brasil. A Holanda vinha com problema de petróleo, porque tinha subido muito, e andavam de bicicleta. Nunca me esqueço. Quem tinha ido regularizar essa situação foi Henry Kissinger (na época, secretário de Estado americano). Ele chegou ao estádio para ver o jogo, mas o Stanley Rous me botou o Kurt Tschenscher, um árbitro alemão, que já tinha 50 anos e apitava o último jogo da carreira. E me jogou para corner. Perdi de 2 a 0. Suspenderam o meu central, Luis Pereira, expulso contra a Holanda para a disputa de terceiro, com a Polônia puseram um árbitro italiano, Aurélio Angoneses. Um jogador meu pegou a bola no meio-campo, foi agarrado na camisa quando entrava na área para fazer o gol. Apitou, fez barreira e perdi de 1 a 0.
Ele também falou sobre a Copa na Argentina, quando negociou com o ditador Videla a situação do preso político brasileiro, Paulo Paranaguá:
- Cheguei e pedi audiência com o presidente Videla. Expliquei a ele e disse: “se o senhor achar que estou me intrometendo, ponha-me para fora, não me atenda, eu o respeitarei da mesma forma.” Ele chamou o general Viola por telefone: “O doutor Havelange vai aí lhe falar e veja tudo o que pode fazer”. Saí do gabinete e fui ao general Viola, que me abriu a porta do elevador. Entrei e falei do que se tratava. Chamou o coronel: “verifica o caso desse rapaz e me ponha a par”... No princípio de janeiro, saí de Concorde para Paris. Quando ia fechar a porta do avião, entrou um sujeito da polícia federal e me disse: “Doutor Havelange, acabaram de telefonar de Buenos Aires. Mandaram avisar que a pessoa que o senhor pediu já está em Buenos Aires e amanhã já estará em um avião da Air France, como o senhor determinou, a destino de Paris. Esse rapaz hoje vive em Paris e é filho do embaixador Paulo Paranaguá.
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