Atenção, perigo!
Data de Publicação: 28 de junho de 2008
Por Marcone Formiga e Natália VergützENTREVISTA
CRISTIANO CHIMPLIGANONDAlguns cientistas, dos mais respeitados mundialmente, consolidam pesquisas, indicando que a costa norte do Brasil está vulnerável a uma onda de 40 metros, na forma de um tsunami, avançando no continente de cinco a oito quilômetros. Isso, seria a conseqüência de um vulcão, nas Ilhas Canárias, no Oceano Atlântico. Se entrar em erupção, o imenso volume de rocha pode cair dentro do oceano, gerando o fenômeno.
Há quase oito anos, no dia 20 de novembro de 2000, foi registrado um tremor de terra de magnitude 3,7 na Escala Richter, nas proximidades de São Sebastião, no sul do Distrito Federal. Logo depois, houve outro de magnitude bem inferior.
É simplesmente impossível prever a ocorrência de terremotos, o que possibilitaria uma ação preventiva para salvar vidas. Eles ocorrem de forma inesperada e não podem ser antevistos pelos cientistas.
Nesta entrevista, o geólogo Cristiano Chimpliganond, com especialidade em sismologia, pela Universidade de Brasília, faz um esclarecimento científico do que está ocorrendo e pode vir a ocorrer. Há 10 anos, ele realiza estudos sobre a sismicidade do território nacional.
- Alguns cientistas prevêem que a costa norte do Brasil pode ser atingida por uma onda de 40 metros. Ou seja, um tsunami, que pode entrar no continente de cinco a oito quilômetros, com conseqüências devastadoras.- Esse é um estudo muito sério. Há um vulcão que contém um fragmento de rocha imenso que está instável, caso ele entre em erupção novamente, pode fazer com que a rocha caia dentro do oceano. Essa queda vai gerar um volume muito grande de saída de água, deslocando ondas, que vão atingir todo o Oceano Atlântico. Como o vulcão localiza-se no continente africano, as ondas se deslocarão para o Brasil, principalmente para o estado do Ceará. Tudo depende se a erupção vai ocorrer ou não. Já houve um registro de oscilação do mar no Rio de Janeiro, gerado na África, mas não causou nada.
- A região do nordeste é mais sísmica?- O nordeste é uma das regiões de maior expressividade sísmica. Todo o nordeste tem várias áreas de sismicidade. O interessante dessa sismicidade é que ela ocorre na forma de “enxame”, ou seja, uma área restrita onde há a concentração de sismos, por dois ou três meses, depois passando um longo tempo sem haver esse pulso de atividade. Essa é uma característica da sismicidade no nordeste, onde a maior parte dos terremotos, diferentemente do que ocorreu em São Paulo, se manifesta no continente e não no oceano. Na região de Pitombeiras, por exemplo, na época de 1994, houve vários tremores, e depois eles diminuiram. Em Sobral, região que estou estudando para minha tese, houve dois terremotos com intervalo de três minutos, no dia 25 de maio. Geralmente a região do nordeste é mais sísmica.
- Tem alguma explicação o fato de a região do nordeste ser mais sísmica?- Até agora não. Os estudos estão sendo feitos, algumas áreas têm sismicidade e outras não. Ainda não se tem uma definição clara do porquê lá acontece dessa forma e no restante do país de outra. Mas a sismicidade pode ser observada no país inteiro. No norte, como você pode ver (mostra no mapa os pontos vermelhos onde foram constatadas áreas sísmicas), parece que não há muitas áreas sísmicas, mas deve-se levar em consideração que, nessa área, também não há muitas cidades, estações e equipamentos. Então, não se pode dizer que lá não há sismicidade, pois, onde não há ninguém observando, não tem como saber. Já na região sul, sudeste e centro-oeste, que são mais monitoradas, podemos perceber bastantes tremores.
- Qual a explicação para a ocorrência de terremotos no Brasil?- O Brasil está no interior de uma placa tectônica, a Placa Sul-Americana. Ao lado do Pacífico, existe uma placa chamada Placa de Nazca, que é uma placa oceânica. Essas duas placas estão se encontrando, se colidindo. A placa de Nazca está batendo na Sul-Americana e vai mergulhar para debaixo desta, a esse fenômeno denominamos subducção. A placa continental vai se dobrar, gerar cadeias de montanhas e vai ficar por cima. Na superfície de encontro dessas duas placas, a gente tem os grandes terremotos. Nessas regiões de subducção, haverá terremotos que ocorrem desde a superfície até terremotos de grande profundidade. O terremoto ocorre a partir da ruptura de rochas, causada por esforços concentrados que superam a resistência da rocha. Isto gera a onda sísmica que vai ser liberada.
- Futuramente podem ocorrer mais terremotos por causa dessa colisão de placas?- Todo encontro de placas torna a região propícia à ocorrência de terremotos. No mapa, podemos ver os limites de algumas placas tectônicas, as maiores, e o Brasil está no interior da placa Sul-Americana, que pega o meio do Oceano Atlântico, até o Caribe e toda a América do Sul, até próximo da Antártida. Essa placa engloba uma porção de oceano e outra de continente. Já a placa de Nazca é menor e puramente oceânica. O que ocorre é que as placas tectônicas bóiam e se deslocam, em cima de um material chamado de estenosfera e então se coíbem e se separam. Isso ocorre ao longo de milhões de anos, por causa da dinâmica da Terra. O calor interno da Terra está se dissipando, por meio de correntes de convecção no manto, que fazem com que as placas se movimentem, se quebrem, se unam. Assim, elas são geradas, são destruídas ou são construídas. Isso está acontecendo há mais de 200 milhões de anos e vai acontecer enquanto tiver calor no interior da Terra.
- O aquecimento global acelera esse processo?- Não. O aquecimento global vai interferir nos fenômenos que acontecem da superfície para cima, na atmosfera. Interfere no clima da Terra, mas não no interior dela. Esses são fenômenos que chamamos de endógenos.
- A magnitude do terremoto é medida pela área geográfica que ele envolve ou pelo grau alcançado na escala Richter?- Pela área geográfica. Não é como energia, que pode ser medida em Kw, é melhor pela unidade de medida de quantos metros, por exemplo.
- Qual é o histórico de terremotos brasileiros?- Desde 1720, foram registrados vários terremotos com magnitude de três graus ou mais e 14 com magnitude maior que cinco graus, considerados moderados. O terremoto que ocorreu em São Paulo no dia 23 de abril, por exemplo, foi de 5,2 graus, o que é considerável. Ele aconteceu a cerca de 200 km da costa e não teve nenhum efeito maior, porque ocorreu no oceano. Caso ele tivesse acontecido debaixo de uma cidade, no litoral ou no interior do continente, poderia ter causado danos importantes em construções. Como rachado, derrubado casas.
- O senhor visitou Caraíbas (MG), onde houve um terremoto no ano passado. Qual foi o cenário encontrado?- O terremoto de Caraíbas teve magnitude de 4,9 graus. Ele foi inferior ao de São Paulo, mas derrubou quase uma vila inteira, devido à qualidade da engenharia das construções ser baixa. Muitas casas são de cimento com barro e pouca areia. Lá ocorreu a primeira morte ocasionada por terremoto no país, que foi de uma menina de cinco anos. Em uma construção com maior qualidade de engenharia, como um galpão da região, apenas as telhas correram, não houve nem mesmo rachadura. Então, se todas as casas seguissem o padrão mínimo de qualidade, as pessoas não precisariam ter sido removidas. Esse fator é complicado, pois um terremoto de escala cinco pode matar uma pessoa. Em João Câmara (RN), em 1986, houve vários terremotos de magnitude 5,1. Com construções também precárias, várias casas caíram e a população teve de abrigar-se em lonas e alguns não queriam retornar à cidade.
- Então, o que torna um terremoto perigoso?- O que identifica o terremoto ser preocupante ou não é a magnitude, claro, mas se ele tiver magnitude três e for raso, e ocorrer em uma comunidade com construções ruins, que não seguem o mínimo de qualidade de engenharia, podem haver acidentes. Quanto mais profundo o terremoto, menores são os efeitos na superfície, pois, até chegar a ela, as ondas sísmicas são atenuadas. Quando ocorreu o terremoto, nós já tínhamos a estação lá, instalamos, porque, desde maio do ano passado, a população vinha sentindo tremores de terra, então conseguimos detectá-lo. Um dos satélites manda os dados para o Observatório da UnB. Com isso, sabemos aqui se está acontecendo um terremoto lá.
- Existe a probabilidade de ocorrer um terremoto de seis graus na Escala Richter, por exemplo?- Sim, já ocorreram dois, inclusive. Um no Mato Grosso, que é uma região que tem uma sismicidade importante, o maior terremoto brasileiro ocorreu nessa região, na Serra do Tombador, em 31 de janeiro de 1955 e alcançou uma magnitude de 6,2 graus. Ele foi batizado de Terremoto da Serra do Tombador. Esse terremoto é considerado importante, se ocorrer em uma cidade. A aproximadamente 100 km, em Porto dos Gaúchos, também já houve ocorrência de vários tremores com escala acima de 5 graus. Não tem relato de nenhum dano na região, pois na época ela era desabitada. Não conheço direito o local, mas parece que ele está mais habitado, portanto, se ocorresse hoje, o estrago seria maior. A probabilidade de um terremoto de 6,2 graus ocorrer novamente no Brasil é grande, pois quando acontece uma vez, a probabilidade de acontecer de novo é elevada. Só não podemos saber quando. Assim como regiões, onde nunca se ouviu falar de terremoto, também podem tremer. Nenhuma região está imune a terremotos.
- E a probabilidade de ocorrer em Brasília?- No dia 20 de novembro de 2000, ocorreu um tremor em São Sebastião, de 3,4 graus. Logo depois, houve outro. A probabilidade de ocorrer um grande terremoto no Brasil é baixa, pois ele está no interior de uma placa e os grandes terremotos têm seu epicentro nas bordas das placas. Muito baixa, mas não nula. Algumas regiões de interior de placa tiveram ocorrência de terremotos grandes, como nos EUA.
- O que identifica a probabilidade de ocorrência?- O histórico e a região. Deve-se levar em consideração o que pode causar a falha, que esforço seria suficiente para quebrar uma extensão de 100, 200 km, como no caso de um grande terremoto. Se estamos no interior da placa e os esforços são distribuídos das bordas para o interior, no caminho, há desvios e as forças são menores para conseguir romper as rochas. Mas não é impossível, pode estar havendo um esforço ao longo de milhões de anos e chega uma hora em que vai ser superior à resistência da rocha.
- Falta investimento do governo na área de sismologia?- O investimento depende das condições. Ou seja, estudar terremoto para quê? Tem terremoto? Essa é uma grande barreira que a gente tem que quebrar no Brasil, onde há uma cultura de as pessoas acharem que não tem terremoto. Tem furacão, tem vulcão, tem terremoto. Esse conceito está mudando, não porque os terremotos estão ocorrendo agora, eles sempre aconteceram, mas eles só vão se tornar conhecidos se alguém sentir. Muitos terremotos poucas pessoas sentiram, mas este de São Paulo atingiu toda a região sul e sudeste do país, e por um terremoto que partiu do oceano, mais de 100 km de distância. E se ele tivesse acontecido na Paulista? Seria um efeito devastador, e isso faz com que as autoridades comecem a pensar em estudos sobre sismologia.
- Com isso, a atitude das pessoas mudou?- As pessoas começam a cobrar o fato de, no Brasil, ter terremoto e elas não saberem. A população tem que ser informada sobre como agir na ocorrência de terremotos, deve haver o ensino nas escolas. Então, quanto mais investimento, melhor. Aqui no Observatório da UnB, prestamos, principalmente, serviços de monitoramento para hidrelétricas, com o dinheiro recebido, aplicamos em novos equipamentos. O Brasil precisa de uma rede de estações sismográficas e isso está sendo estudado, já há um encaminhamento com relação a isso. No Brasil, há várias estações, principalmente, em universidades. Melhor ainda, se houvesse em todo o território.
- Quais as dificuldades para criar uma rede sismográfica?- A dificuldade de investimento. Seriam necessários mais ou menos US$ 20 mil por estação, para cobrir todo o país com cerca de 50 estações, como está projetado no plano, para ter um equipamento, para ter o registro da onda que fez a terra tremer, onde ocorreu, qual o tamanho, que falha fez e se ela está deitada ou inclinada, qual a profundidade e magnitude. Para fazer um registro desse, tem que cercar o terremoto, como se estivesse “laçando o boi”. Deve-se cercar o território, pois não pode haver uma distância muito grande entre as estações, porque a onda sísmica vai sendo atenuada ao longo do trajeto.
- Qual a situação da estação do Parque Nacional de Brasília?- A estação já existia antes do Parque Nacional, foi instalada na década de 70, e depois o projeto foi embargado pelo Ibama. Para se colocar o equipamento, deve ser construído o mínimo de instalações para abrigá-lo da chuva e do sol e protegê-lo de roedores, por exemplo. Isso gera um impacto ambiental e dentro de uma reserva ambiental é proibido. As estações devem ser feitas com um arranjo novo, com uma nova geometria. Por questão de ser um estudo científico e ter o mínimo de impacto ambiental, as negociações estão encaminhando-se para a liberação. Um arranjo com potencial para localizar terremotos advindos de todo o país. Além desse projeto, tem o da rede nacional, ambos independentes.
- É possível prever a ocorrência dos terremotos?- Não, infelizmente, é impossível. O fenômeno ocorre de forma inesperada. Não há controle do que está acontecendo na Terra que possa ser um indicativo de um terremoto. Onde ele vai acontecer é fácil, em São Francisco, por exemplo, eles estão esperando, pois em 1906 teve o grande, terremoto. Quando tem um terremoto grande, tem o tempo de recorrência, no mesmo local e do mesmo tamanho. Isso pode levar dez, cem anos. A predição de terremotos é importante para salvar vidas. Se você sabe que vai acontecer um aqui, mas não sabe quando, não vai salvar ninguém. Os sismólogos do mundo inteiro estão atrás de saber isso e ainda não conseguiram, pois a ocorrência é muito aleatória. Deve-se avisar a população para se proteger.
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