Cristina entra em transe
Data de Publicação: 28 de junho de 2008
Por César FonsecaA presidente da Argentina, Cristina Kirchner, sob pressão das tensões inflacionárias, desencadeadas mundo afora pela sobredesvalorização do dólar; que explodiu os preços do petróleo, afetando, conseqüentemente, toda a cadeia alimentar global, convocou o Congresso para dirimir as controvérsias decorrentes da política econômica, que colocou em prática, de promover o desenvolvimento com base na ampliação dos programas sociais.
O keynesianismo kirchnerista argentino entrou em transe. De um lado, o governo, acossado pela inflação, aumentou impostos sobre exportações de alimentos, para evitar aumentos dos preços no mercado interno. De outro, os agricultores e ruralistas, principalmente estes, foram para as ruas protestar. As tensões crescem a mais de cem dias consecutivos.
O transporte, ademais, está sob invariáveis bloqueios. Os preços, conseqüentemente, aumentam. Quanto mais se elevam, maior a resistência do governo em atender as reivindicações dos homens do campo. A onda altista de preços diminui os salários, a renda disponível para o consumo, e obriga a Casa Rosada a sustentar os programas sociais subsidiados.
Nas cidades, a população, debaixo das ameaças da inflação, divide-se. Aumenta o número dos que pedem solução, já, para o problema, com um acerto entre governo, agricultores e ruralistas. O acordo, no entanto, não sai, porque as forças governistas utilizam as receitas dos impostos sobre as exportações, para bancar o populismo econômico-social. Os descamisados, afetados pelos aumentos dos preços, representam bomba política.
Não há, no momento, acordo. Posições radicalizadas, de lado a lado, inviabilizam-no. O impasse pintou com a explosão do panelaço, comandado por lideranças da classe média, que estão perdendo renda e deixando de consumir bens duráveis, com o avanço da inflação, que afeta salários. A presidente, encantoada, convocou, à moeda Isabelita Peron, seus partidários descamisados para encher a Praça de Mayo.
Os mais pobres, ameaçados pelo empobrecimento da classe média, representam o fiel da balança. Se a renda cadente da classe média significa risco para os pobres, os gastos do governo em programas sociais constituem compensação para eles. Assim, Cristina Kirchner diz que não pode arrecadar menos, porque precisa gastar mais com os miseráveis, cujo consumo garantido, por sua vez, dinamiza as atividades produtivas e os empregos.
O resultado de sua estratégia não garante tranqüilidade ao governo peronista. As pesquisas de opinião colocam os partidários do peronismo kirchnerista numa descendente em termos populares. Por essa razão, Cristina jogou a toalha. Partiu para a política, em busca de solução para os impasses econômicos. Politizou a crise.
Considerou o movimento ruralista anti-constitucional e alertou que, se as teses que defendem, no sentido de mudar o modelo de desenvolvimento econômico, são positivas e fundamentais para a Argentina, que eles se organizem em um partido, ganhem representação e lutem no Congresso para mudar, democraticamente, a situação.
A crise politizada, na prática, é fruto da incapacidade de as forças governistas resolverem a parada sozinhas, na base da canetada, baixando resoluções. Estas terão que ir, de agora em diante, ao Congresso para se transformarem em leis. Acabou, na Argentina, antes que no Brasil, a possibilidade de continuar governando por medidas provisórias ou resoluções ditadas em gabinetes.
Cristina Kirchner, para vencer a parada no Congresso, lançará, certamente, mão do seu cacife, melhor, do cacife histórico peronista: os descamisados, que se beneficiam dos programas sociais, cujos efeitos são elevação do consumo, no país, a exemplo do que ocorre, no Brasil, com o programa Bolsa Família, que dá prestígio político ao presidente Lula.
Brevemente, portanto, no calor dos acontecimentos, começarão a misturar, nas ruas de Buenos Aires e das principais cidades argentinas, os partidários do kirchnerismo, de um lado, e, dos ruralistas, de outro.
Para onde irá a oposição, se os miseráveis, beneficiários dos programas contra a fome, lotarem as praças para defender a política social de Cristina? E se explodirem conflitos, para onde irão as Forças Armadas?
A politização da crise econômica na Argentina abre nova fase da vida política nacional e lança desafios políticos crescentes que, provavelmente, desaguarão no debate sul-americano, sob construção política da Unasul - União das Nações Sul-Americanas.
O fantasma de Juan Domingo Perón paira mais uma vez sobre a Argentina, onde o governo Cristina Kirchner lança mão do populismo para enfrentar o pensamento econômico neoliberal, que destruiu economicamente o país nas últimas duas décadas, sob orientação do FMI e do Consenso de Washington.
- Próximo texto:
- Política Gangorra Política
- Texto Anterior:
- Política Coerente até o fim
- Índice da edição - Ed. 599