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Coerente até o fim

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Data de Publicação: 28 de junho de 2008
A antropóloga e ex-primeira-dama (ela não gostava dessa expressão) Ruth Cardoso, mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não era mandona e carola, como Dona Santinha, mulher de Eurico Gaspar Dutra, nem deslumbrada como Rosane Collor. Tinha um estilo afirmativo, franco, falando tudo o que pensava, sem qualquer restrição, apesar da condição protocolar (“Cumplicidade, não concordância. Se tiver idéia diferente, eu expresso. Não tenho a mesma posição política só por ser casada”). Muitas vezes, não poupou críticas ao governo do seu marido.

Uma demonstração da personalidade forte que tinha aconteceu durante a campanha presidencial do marido quando criticou o que chamou de “filhotismo”, uma articulação dos caciques do então PFL para indicar Luiz Eduardo Magalhães, filho do senador Antonio Carlos Magalhães, para ser o vice na chapa. Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a presidência da República, convenceu-o a decretar o fim da Legião Brasileira de Assistência (LBA), criada por Getúlio Vargas, uma entidade assistencialista, tradicionalmente presidida por primeiras-damas, criando o Comunidade Solidária, um projeto considerado social e inovador.

No final dos dois governos de Fernando Henrique, foi elogiada até pelos adversários, passando a ser uma crítica contumaz do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para quem não passava de um político assistencialista.

Apesar dos cargos políticos importantes ocupados pelo seu marido, com quem viveu durante 55 anos, ela sempre manteve a carreira como antropóloga dedicada a estudos de gênero e de aculturação, fundando, na Universidade de São Paulo, o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero. Também foi presidente do conselho assessor do Banco Interamericano de Desenvolvimento sobre Mulher, além de se dedicar na elaboração de duas teses sobre aculturação dos japoneses no Brasil.

Ela morreu às 20h40 da terça-feira, em casa, no bairro de Higienopólis, região central de São Paulo. A causa foi arritmia grave em conseqüência de doença coronariana, detectada antes em dois cateterismos prévios realizados em 2004 e 2006. Conversava por telefone com o filho, Paulo Henrique, quando morreu.

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