Cinema
Data de Publicação: 28 de junho de 2008
Por: José Guilherme
E-mail: jguilherme@brasiliaemdia.com.brAGENTE 86 (Get Smart).EUA, 2008.
Direção: Peter Segal.
Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway, Alan Arkin.
* * * ½ É estranho como um seriado dos anos 60/70, feito no auge da Guerra Fria e lidando com as rivalidades daquele período, possa ter ressurgido na primeira década do século XXI com tamanho frescor e vitalidade. O mérito, creio, deve ser dividido entre o roteirista, o escrachado produtor Mel Brooks, o diretor Segal e o ator Steve Carell, tão prestigiado que, depois de roubar cenas do “astro” Jim Carrey (que chegou a ser cogitado para Agente 86) em Todo Poderoso, acabou estrelando, ele próprio, a continuação desse filme, com o cacife de O Virgem de 40 Anos e o premiado Pequena Miss Sunshine. Don Adams, o Agente 86 original, falecido em 2005, não poderia ter tido sucessor melhor do que Steve Carell. Anote.
Peter Segal, por sua vez, dirigiu Tratamento de Choque, Como Se Fosse a Primeira Vez e The Longest Yard, todos com Adam Sandler, seu ator-fetiche. Segura bem a onda e não deixa a peteca cair; a adrenalina é mantida do começo ao fim, com algumas “gags” (piadas audiovisuais) hilariantes de tão estúpidas. Hathaway (O Diabo Veste Prada) revela-se uma excelente parceira. As peripécias do Agente 86 são de tirar o fôlego; nada que, sob a pretensão de uma inacreditável seriedade, James Bond e sua trupe de imitadores já não tenham feito no celulóide. O Agente 86 tem essa vantagem: imita os espiões da Guerra Fria, mas não se pretende sério, e sabe que não é para levá-lo a sério. É pura diversão, no melhor estilo pastelão em que Mel Brooks sempre se revelou imbatível. O título em inglês, “Get Smart”, tem duplo sentido: “fique esperto”, uma alusão à burrice crônica do personagem; e “chamem Smart”, nome verdadeiro do Agente 86.
NOTA: O 2º filme da semana passada (“A Outra”), contraiu a toxina do 1º filme, o suspense “Fim dos Tempos”: a cotação que eu mandei para a Redação sumiu da página, e isso deixou vários leitores confusos. Aqui vai ela: * * * ½
A BANDA (The Band’s Visit). Israel/França/EUA, 2007.
Direção/Roteiro: Eran Kolirin.
Elenco: Sasson Gabal, Ronit Elkabetz.
* * * *O israelense Eran Kolirin, por óbvio, não é conhecido entre nós, tirando alguns cinéfilos fanáticos. Mesmo assim, suas produções ainda não alcançaram o prestígio internacional obtido por outros diretores do Oriente Médio, como Abbas Kiarostami, Amos Gitai, Mohsen Makmalbaf. Aqui, uma história simples, contada de forma singela, com personagens de extrema simplicidade mas que, em parte, se atribuem certa importância no contexto, serve para revelar, de forma punctual, como as grandes rivalidades históricas, religiosas e políticas que até hoje incendeiam o Oriente Médio poderiam ser resolvidas por caminhos que passam pela compreensão, pelo afastamento de preconceitos de toda ordem e pelo olhar que vê no outro apenas um ser humano, não um inimigo a ser exterminado.
A linguagem universal da música é, evidentemente, um desses caminhos. É precisamente isso o que o filme quer mostrar, a par com o fato de que pequenas comunidades afastadas dos grandes centros de decisão podem preservar suas populações como que intocadas pelo veneno da disputa territorial e do ódio religioso. Uma pequena banda militar, composta por oito membros, e vinda de Alexandria, no Egito, de repente se vê perdida ao descer no aeroporto, e, sem informações adequadas, confunde Petah Hatkivah, o seu destino real, com Bet Hatkivah, uma cidadezinha perdida na imensidão do Deserto de Negev, no Estado de Israel, onde a vida transcorre como se todos tivessem parado no tempo.
O regente da banda é o coronel Tewfiq (Gabal, excelente), burocrático, frio e impassível. Cabe a Dina (Elkabetz), dona de uma lanchonete local, derreter essa pedra de gelo e revelar o ser humano por trás da farda, algo que ela consegue apenas em parte, dada a rigidez de princípios do militar. Uma das cenas mais emblemáticas é aquela em que um dos músicos da banda ensina um morador local, com palavras e gestos, a namorar uma menina tímida e depressiva. Pequenas conexões podem aproximar pessoas, quebrando barreiras culturais. Afinal, como dizia Nietsche, somos apenas humanos, demasiado humanos...Frase da Semana: “Se a vida humana fosse um filme, seria um curta-metragem; e sem ‘happy end’, porque todos morrem no fim” (Sandra Fiuza, Advogada).
- Próximo texto:
- Karina Boner Karina Boner
- Texto Anterior:
- Gente Celulite?!
- Índice da edição - Ed. 599