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Observatório Geral

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Data de Publicação: 28 de junho de 2008
CLÁUDIA PEREIRA
cpereira@brasiliaemdia.com.br


COMUNIDADE SOLIDÁRIA

Tão discreta quanto viveu, ela partiu. Foi, mas deixou uma história que muitos almejam a paternidade. Planejou e executou uma das mais importantes redes de proteção social que o Brasil jamais viu. Ruth Cardoso, com sua inteligência, delicadeza e simplicidade concebeu o programa Comunidade Solidária. Um conjunto de práticas sociais voltadas para a inclusão de forma sustentável. Durante os oito anos em que seu marido, Fernando Henrique Cardoso, governou o Brasil, Dona Ruth transformou sua condição de poder em realizações.

COMUNITAS

Ruth planejou e executou, em quatorze anos, projetos nas áreas de alfabetização, capacitação, artesanato, inserção de jovens e adultos. Determinada e lúcida, quando deixou a condição de primeira-dama do país, em 2002, continuou seu trabalho. Criou a ONG Comunidade Solidária posteriormente denominada Comunitas. Os programas sociais concebidos e executados por Ruth Cardoso e sua equipe deram origem aos benefícios Bolsa Escola e Bolsa Alimentação, “embriões” do Bolsa Família do atual governo Lula da Silva.

INSERÇÃO X ASSISTENCIALISMO

Mas o combate à pobreza e à exclusão concebido por Ruth Cardoso é muito diferente do Bolsa Família de Lula. Os programas da antropóloga buscam as potencialidades dos chamados redutos carentes, otimizando os recursos empregados no combate à pobreza e à exclusão. Dona Ruth estimulava a inserção social pelas potencialidades e competências de cada comunidade promovendo a auto-estima, a solidariedade, a produção e a distribuição das suas riquezas. Lula seguiu os trilhos deixados por Ruth, mas errou no foco. Implantou um programa assistencialista que está gerando dependência e criando redutos improdutivos.

POTENCIALIDADES

Em texto publicado no site Comunitas, Dona Ruth alerta: “(...) para alcançar o êxito, os programas de combate à pobreza precisam abandonar o olhar que vê carências e buscar as potencialidades (...) muitos projetos inovadores abriram caminhos para intervenções eficientes, voltadas para a mobilização das comunidades e o desenvolvimento de capital social (...)”.

ASSISTENCIALISMO E CLIENTELISMO

A abordagem de Dona Ruth sobre os projetos sociais tradicionais, indica que a visão assistencialista é um estilo, ou modo de fazer, cujas conseqüências são relações de submissão que não oferecem instrumentos para superação das carências. Quando associado ao clientelismo, o assistencialismo agrava-se, transformando-se em instrumento de poder. Para a criadora do Comunidade Solidária o assistencialismo tem outro agravante, reproduz a pobreza em vez de combatê-la.

FOME E AUTO-ESTIMA

A visão lúcida de Ruth Cardoso nos ensinou ainda que “(...) para ser incluído no mercado, quer como consumidor quer como trabalhador, é preciso ir além da superação da fome, da doença etc (...) É preciso desenvolver auto-estima, capacidade de comunicação e, ainda, confiança em seus saberes e em sua capacidade de aprender (...) A nova noção de desenvolvimento social tem como pressuposto a promoção do capital social existente em cada comunidade e a sua participação”.

MANUAL DE CONDUTA

Ruth Corrêa Leite Cardoso partiu. Mas deixou de presente a confiança no Brasil e a capacidade de motivar pessoas e instituições. Nos ensinou a pensar novas formas de combate à pobreza ancorada no diálogo entre a sociedade e o governo. Nos entregou um manual de conduta que inclui o respeito, a gentileza, a tolerância, a humildade, a suavidade. Nos legou uma agenda de desenvolvimento social pautada no fortalecimento da Sociedade Civil e na sua participação. Nos fez acreditar que é possível promover a inclusão social através do estímulo às potencialidades de cada localidade e à promoção do seu capital social. Obrigada Dona Ruth, por ter-nos ensinado a pensar melhor o Brasil!

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