É de perder o sono...
Data de Publicação: 21 de junho de 2008
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem razões de sobra para perder o sono nos próximos dias ou meses, enfrentando uma linha tênue que separa o paraíso do inferno político. Com o dragão inflacionário ameaçando entrar em ação, depois de tantos anos desativado, não vai demorar muito e os cientistas políticos retomarão uma antiga discussão, que deve ter a idade da dúvida se o ovo nasceu antes da galinha ou se foi o contrário. Saber se a política comanda a economia ou se a economia é que assegura a estabilidade política, certamente, será a grande questão.
Lula, em alta na popularidade, continuará no paraíso da política com a volta da inflação, sem a estabilidade na economia? Não é só no Brasil que a inflação é a grande ameaça. Na segunda-feira, por exemplo, autoridades monetárias do mundo inteiro chegaram à conclusão de que o avanço da inflação é a principal ameaça global, em um momento de crescente pressão por alta de juros e em meio a protestos contra o aumento do custo de vida. Ultimamente, na França, Espanha e Coréia do Sul, ocorreram manifestações contra a alta dos preços dos combustíveis, com a empinada nas cotações do petróleo e de outras commodities, alavancando os preços em todo o mundo.
Coincidência ou não, mas, no mesmo dia, o presidente Lula, durante uma homenagem que recebeu na BM&F Bovespa, pelo grau de investimento obtido pelo país, pôde sentir um tremor de terra debaixo dos seus pés. Na segunda-feira, as estimativas de mercado sobre o cumprimento da meta de inflação anual atingiam 6,21%, o que significa interpretar que está batendo no teto da meta de 6,5%. Quer dizer, chegou a hora de acionar o painel de alarme para não acordar o dragão que, aparentemente, estava envolvido em um sono profundo.
O presidente aproveitou o momento para lembrar que o Brasil vive hoje muito próximo do paraíso, mas não dá para tapar o sol com a peneira e ignorar a escalada inflacionária, que, para ele, seria um retrocesso que não dá para aceitar. A primeira linha de combate, delimitada por ele, será blindar aumentos temporários de preços, como os atuais, provocados por choques externos, impedindo que acabem alimentando o apetite inflacionário do dragão.
Reafirmando que o combate à inflação continuará merecendo prioridade em seu governo, cauteloso, Lula vem repetindo que é preciso ter muito cuidado para lidar com os problemas de curto prazo sem prejudicar as conquistas de longo prazo. Sua meta imediata, portanto, será controlar a inflação mantendo o crescimento sustentado, porque acredita que o país possui instrumentos, conhecimento e experiência para enfrentar aquele que considera ser o seu maior desafio.
Ele aproveitou o seu programa semanal de rádio, o “Café com o Presidente”, ainda na segunda-feira, para transmitir o seu desconforto diante do aumento dos preços, ressaltando que os números do Produto Interno Bruto são mais equilibrados e isso ajudará a combater a inflação, com a promessa de que o ritmo de crescimento do PIB continuará sem significar risco para a demanda interna do país. “Nós precisamos crescer com muita responsabilidade e sem nenhum sobressalto”, enfatizou, lembrando em seguida que o crescimento de investimentos tem sido maior do que o consumo, o que considera um bom sinal para que o país alcance um equilíbrio sustentável entre a demanda e a oferta.
Apesar desse cenário otimista, apesar das expectativas de inflação, o mercado financeiro acompanha tudo com receio, principalmente, porque trabalha com a expectativa de o Banco Central aumentar ainda mais a taxa básica de juros, a Selic. Os mais otimistas acham que, até o fim do ano, as taxas praticadas cheguem a 14,25%. Para os pessimistas, essa previsão está abaixo da realidade nos próximos meses.
Um reflexo do que virá pode ser constatado a partir da inflação dos alimentos. Se as maquininhas de mudar os preços nos supermercados não voltaram, o IBGE já constatou que as vendas do comércio varejista estão despencando. Comparam o consumo no mês de abril, que chegou a 0,2% em uma avaliação livre de efeitos sazonais, com março, quando a inflação deu um salto de 1,5%. Já em abril do ano passado foi registrada uma expansão de 8,7% menor do que em março, de 11%. A explicação dos técnicos é que o desempenho foi influenciado de forma negativa pelo setor de supermercado, alimentos e bebidas.
A leitura que se faz disso é que o consumidor está procurando agora produtos mais baratos, como uma tentativa de driblar a inflação. Uma demonstração disso é que foi constatado que o volume de vendas de super e hipermercados cresceu 0,5% em relação a março, com um detalhe muito significante: a receita nominal despencou 6,4%. Isso equivale a dizer que houve um crescimento quantitativo, mas de itens com valores menores. Faz muita diferença na contabilidade de vendas do setor varejista, que já começa a registrar a ameaça inflacionária.
Como a inflação afeta mais as classes mais pobres, o governo está assegurando aos produtores de feijão um preço mínimo de R$ 90 por saca na venda do grão para estimular o plantio. O objetivo mesmo é evitar que o aumento de preços faça a inflação dar mais um salto, como aconteceu no ano passado. Além do feijão, é possível que o governo também inclua arroz, milho e trigo aos itens considerados sensíveis e que podem levar a um crescimento da bolha inflacionária.
Na terça-feira, o presidente Lula manteve reunião com o ministro da Fazenda para fazer uma avaliação das medidas tomadas até agora para evitar uma empinada da inflação. O balanço feito por Mantega foi considerado positivo, principalmente o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o da taxa de juros e o do superávit primário previsto para este ano. Para o ministro, o momento atual é propício a um ajuste, com o país continuando no mesmo ritmo de crescimento e com a inflação sob controle.
A disposição de Lula, já na quinta-feira, era de buscar com a equipe econômica e os conselheiros informais, uma estratégia para conter o gasto público, além do crédito como alternativa para assegurar que seja mantido o limite da meta oficial. Seu pesadelo, antes de perder o sono, é que ocorra um descontrole de preços quando seu segundo mandato ainda nem chegou à metade do tempo.
Para evitar que isso aconteça, ele está determinado em usar a tesoura para cortar os gastos públicos que estão aumentando nos últimos meses em um volume que parece até ser incontrolável. Já sinalizou, inclusive, que o governo poderá adiar obras do PAC, além de reavaliar a disposição anterior em autorizar um aumento de 10% para o programa Bolsa Família, cedendo ao argumento do ministro da Fazenda que nesse reajuste também há um fator de aceleração na dinâmica inflacionária.
Um dos interlocutores mais constantes de Lula tem sido o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que vem estimulando o superávit primário no combate à inflação. Argumenta que existe a possibilidade da inflação medida pelo IPCA superar o teto da meta, de 6,5%. Ele acredita que a inflação no Brasil está sendo influenciada pelo aumento dos preços internacionais, de alimentos e petróleo, por exemplo. Com fontes de informações em Wall Street, ele transmitiu ao Palácio do Planalto informação recebida de Nova York: as commodities continuarão aumentando nos próximos três anos. Quanto ao petróleo, muito mais.
Agora, só resta Lula torcer que Deus, realmente, seja brasileiro.
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