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O gol de Dilma

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Data de Publicação: 10 de maio de 2008
A oposição, que tanto fez para levar a ministra Dilma Rousseff a depor na Comissão de Infra-Estrutura do Senado, apostando que teria um péssimo desempenho, principalmente quando fosse questionada sobre o vazamento de um dossiê contendo informações sobre os gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, acabou mesmo foi fazendo rolar a bola para a chefe da Casa Civil chutar em gol, fazendo o seu show político em alto estilo, surpreendentemente.

Dilma foi favorecida por um erro primário cometido por um dos líderes da oposição, o experiente senador Agripino Maia (DEM-RN), que teve a péssima idéia em ler trechos de uma entrevista em que Dilma contava ter mentido em sessões de tortura, quando esteve presa durante a ditadura militar. Visivelmente emocionada, ao ouvir a leitura feita pelo senador, logo no início do seu depoimento, Dilma conseguiu virar o jogo, habilmente.

Ao fazer a leitura do trecho em que a ministra admitia ter mentido nos depoimentos aos seus carcereiros, Agripino Maia, na verdade, insinuava que ela também mentiria no depoimento que prestaria aos senadores. Com a voz embargada, mas ao mesmo tempo com determinação, Dilma afirmou que eram situações muito distintas, porque não é possível supor que se dialogue com pau-de-arara ou choque elétrico, “porque, comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira só pode partir de quem não dá valor à democracia brasileira”.

Com um forte componente emocional, sensibilizando inclusive senadores oposicionistas, como Tasso Jereissatti (PSDB-CE), que enrijeceu os músculos do rosto, enquanto ouvia a reação de Dilma Rousseff: “Eu tinha 19 anos. Fiquei três anos na cadeia. E fui barbaramente torturada, senador. Qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para o interrogador compromete a vida dos seus iguais. Entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido, senador. Porque mentir na tortura não é fácil. Na democracia se fala a verdade. Na tortura, quem tem coragem e dignidade fala mentira. E isso, senador, faz parte e integra a minha biografia, de que tenho imenso orgulho. Agüentar tortura é dificílimo. Todos nós somos muito frágeis, somos humanos, temos dor. A sedução, a tentação de falar o que ocorreu. A dor é insuportável, o senhor não imagina o quanto”.

Falando o que quis, na hora errada e de forma também equivocada, Agripino Maia acabou ouvindo o que não queria. Uma síntese disso foi produzida pelo seu colega de bancada, o goiano Demóstenes Torres, que serve como amostragem do clima produzido entre os oposicionistas: “O Agripino me perguntou se a fala dele tinha sido ruim. Eu respondi que foi péssima. Ele só podia estar dopado!...” Acuado, o líder, inutilmente, tentava se justificar: “Fui mal interpretado. A ministra adotou uma postura de esperteza emocional para desviar do assunto principal, que é a truculência na elaboração do dossiê com elementos de um Estado policialesco. Tudo o que eu queria era esclarecer o assunto. Se algo que coloquei desviou o foco, não hesitaria em retirar”.

Agripino Maia também foi chamuscado com a ministra, contrariando sua versão de que combatera o regime militar: “Eu acredito, senador, que nós estávamos em momentos diferentes da nossa vida em 70.” Referia-se ao fato de que era engajada na Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-P), quando a família do senador mantinha boas relações com o partido oficial dos militares, a Arena, sendo nomeado prefeito de Natal, em 1979, pelo general João Figueiredo.

Com fôlego, depois que venceu com vantagem o adversário, Dilma Rousseff passou a dominar, mudando outra vez a versão sobre o dossiê com os gastos de Fernando Henrique Cardoso, encontrando apoio em parecer recente do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) para afirmar que as informações do governo tucano não seriam mais sigilosas porque o caráter “reservado” dos dados já estariam caducando. Em fevereiro, quando se cogitava a possibilidade de ser instalada uma CPI para investigar os gastos com cartões corporativos, a Casa Civil reabriu processos de prestações de contas do antecessor de Lula. Dilma, até então, insistia que as informações eram “sigilosas”.

O Palácio do Planalto reagiu com empolgação o gol feito por Dilma no rebate com Agripino Maia, principalmente porque a chefe da Casa Civil demonstrou segurança e jogo de cintura, superando a fase do pavio curto que poderia inviabilizar o projeto político de ser candidata à sucessão de Lula.

Com a oposição acuada, Dilma Rousseff passou a se comportar com desenvoltura em seu depoimento, afirmando, inclusive, que fora vítima do escândalo do dossiê com os gastos de Fernando Henrique Cardoso. Parecia mesmo disposta a um debate: “Jamais aceitamos que tinha um dossiê feito a meu mando ou a mando de alguém. O que fizemos foi um banco de dados. Cheguei à conclusão de que era vítima porque o que foi divulgado foram dados irrisórios. Prejudicava-me porque não tem sentido nenhum, porque são gastos legítimos”.

Não foi por acaso que, no final do seu depoimento, elogiou a iniciativa do Senado em convidá-la: “Para mim, foi um momento muito importante, que só engrandece a democracia”.

Faltou agradecer ao senador Agripino Maia, que se encarregou de colocar uma azeitona em sua empada...

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