Um computador no...
Data de Publicação: 10 de maio de 2008
Um computador no cérebro Todo mundo tem memória, mesmo quem não leu Marcel Proust (“Eu levei aos lábios uma colherada de chá onde havia deixado amolecer um pedaço de “madeleine”. Mas no instante em que as migalhas de bolo tocaram meu palato, tremi, atento, a algo extraordinário que aconteceu comigo. Um prazer delicioso me invadiu, isolado, sem noção de causa...”)
Desse breve instante em que a sensação fez ressurgir uma recordação esquecida, Marcel Proust ficou inspirado para escrever o clássico “Em Busca do Tempo Perdido”. Uma soberba descrição da lembrança em ação, que resume tudo sobre a memória.
Na era da informática, o cérebro do homem é a única máquina capaz de arquivar lembranças acopladas a sentimentos.
Proust não sabia o que é memória. Não podemos repreendê-lo. Até hoje, os pesquisadores não sabem muito mais do que ele. O fenômeno permanece estranho, misterioso. Mas, o que já se descobriu e as pistas que têm sido exploradas confirmam a impressão do escritor: a memória e a nostalgia mantêm estranhas relações.
A memória ou as memórias? Um estudo de diferentes tipos de amnésia mostrou que existem pelo menos dois grandes tipos de memória. Primeiro, a de know how, como escrever, falar, desenhar, tocar piano: uma função preservada entre os pacientes de amnésia profunda, incapazes de memorizar dados novos. Esta memória do hábito funciona sem que seja necessário um esforço consciente para lembrar alguma coisa. É como se o cérebro acessasse, por uma espécie de reflexo, estes circuitos. Hoje sabemos que este circuito de memória implícita passa por gânglios que se encontram na base do cérebro. O segundo circuito é o da memória explícita, que recorre ao sistema límbico: hipocampo, amígdala, córtex, tálamo. Uma ruptura nesta rede é o que, mais frequentemente, provoca as amnésias. Ou seja, sabemos onde isto acontece, mas não sabemos verdadeiramente como.

De que maneira um conjunto de dezenas de bilhões de células nervosas podem ser as depositárias de nossas lembranças? Alguns testes mostraram que podemos identificar mais de 10 mil fotografias vistas, uma semana antes, entre 20 mil apresentadas. A gigantesca aptidão para guardar as imagens na memória demonstra justamente que a idéia de biblioteca ou prateleiras de um arquivo é falsa. Nenhuma grande biblioteca, nenhum cérebro, seja ele de elefante, não terá tamanho suficiente para arquivar tal massa de informações.
Quantas lembranças arquivamos em duas horas? Um simples jantar entre amigos é uma tempestade para o cérebro, acompanhada de um dilúvio de informações: os odores das camisas, a decoração do lugar, a música ambiente... Depois, às vezes muito tempo depois, basta um detalhe para fazer renascer uma das emoções sentidas naquela noite, como um novelo de lã que se desenrola.
Se pudéssemos seguir a atividade do cérebro durante duas horas, com todos os meios de imagem da moderna medicina, constataríamos que todas as informações solicitaram múltiplas zonas e milhões de grupos de neurônios, a maioria das vezes na parte externa do cérebro, o neocórtex, a mais importante região de contato entre neurônios. Como não existe nenhuma zona de armazenamento, os pesquisadores chegaram à conclusão de que a lembrança não é estocada, mas reconstruída quando solicitada, pela ativação da rede de neurônios.
Os mesmos da primeira vez? Não apenas. É provável que a lembrança daquela noite passe também por outras redes capazes de conectar todos esses centros, e de estimulá-los para que reproduzam os acontecimentos. De onde estimula uma certeza: depois de reconstruídas, as lembranças nunca são verdadeiras - nosso cérebro restaura monumentos, cuja forma original se desfez.
Nós não funcionamos como computadores, mas como máquinas de sensações.
Já que emoção e memória são tão unidas, resta apenas saber se a memória não funciona de maneira diferente, conforme a emoção inicial.
Rememorar é um trabalho penoso, um esforço. E a astúcia do cérebro está em nos fazer procurar o prazer. Nostalgia dos bons tempos? Aparentemente, nada mais arbitrário. E, no entanto, nada mais natural. O cérebro expressamente embeleza o passado para nos incitar lembrança. E por que lembrar-se?
Para, justamente, viver o presente e ser motivado a agir sobre ele.
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