Chanchada
Data de Publicação: 10 de maio de 2008
Se fosse roteirizado todo o infortúnio que o jogador Ronaldo vem enfrentando, desde que resolveu fazer um programa com prostitutas (a sua versão é essa, mas, na verdade, eram três travestis), em motel na Barra da Tijuca, seria uma chanchada, ou um filme vulgar, do mais baixo nível. O trágico em tudo isso é que, em um mundo cada vez mais midiático,o escândalo poderá tirar o brilho de uma trajetória de sucesso. O jogador, que já foi um fenômeno, teve abalado seriamente o prestígio internacional, podendo, agora, perceber que é tênue a linha divisória entre o sucesso e a decadência profissional.
Na noite do domingo passado, dia quatro, uma semana depois do incidente, em entrevista ao programa “Fantástico”, da TV Globo, em sua casa, em Angra dos Reis, ele confessou estar arrependido, mas procurou enfatizar que não fez sexo com os travestis, além de se esforçar, com muito empenho, em esclarecer que não faz uso de drogas, ao contrário do que um dos travestis revelou à imprensa, depois de tentar lhe extorquir com R$ 50 mil, para que nada chegasse a público. Considerando a “quantia absurda”, preferiu encarar de frente a chantagem.
Humilde e fragilizado emocionalmente, revelou: “Eu fiz uma grande besteira na minha vida pessoal. Acho que todos nós estamos sujeitos a errar. Comprovei que se tratava de travestis e tentei concluir ali o programa para voltar para casa, mas não consegui. Daí começou a extorsão...”
A besteira foi dando seqüência a um enorme besteirol. Para começar, quem articulou a entrevista para um programa que alcança milhões de telespectadores, esqueceu de treinar o jogador a usar a palavra verbalizada, e não as pernas, que aprendeu a usar. Ronaldo não foi nada convincente, exibindo um depoimento claudicante, que não esclareceu nada e deixou muitos pontos de interrogação na cabeça dos brasileiros que o ouviram pela primeira vez desde o escândalo.
Sem superar a crise de depressão que o acomete desde que foi interrogado por um delegado de polícia, com convulsões de choro, já sabe que sua carreira está em contagem regressiva. Além de freqüentar sessões diárias de fisioterapia, para driblar uma fratura, seu contrato com o Milan, da Itália, termina em junho, com chances equivalentes a zero para uma renovação. Ele próprio torce para que seu próximo clube seja o Flamengo, mas irá entrar nas negociações em desvantagem.
Quando terminava a entrevista cometeu outra besteira: disse não acreditar que a repercussão do escândalo prejudique seu cargo de embaixador da Unicef e seus contratos publicitários. Perdeu uma grande oportunidade de ficar calado. Um dia depois, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, o órgão da Organização das Nações Unidas tratava de esclarecer para o mundo inteiro que não tem vínculo com Ronaldo. “O senhor Ronaldo Nazário de Lima não é e nunca foi embaixador do Unicef e não tem qualquer vínculo oficial com esta agência”, ressalta o comunicado, para acrescentar em seguida: “A menção ao nome do Unicef na mídia foi um equívoco”.
O organismo entrou no besteirol, porque Ronaldo foi, sim, nomeado embaixador do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, no final de 1999, atuando em diversas atividades da ONU, entre as quais amistosos beneficentes ou visitas a campos de refugiados na Palestina.
Um escorregão da ONU, que deveria exercitar um estilo diplomático e não recorrer ao besteirol que também vem consumindo Ronaldo.
Ironicamente, justamente os travestis, que foram seus algozes, abriram uma porta para o fim da auto-fragelação em que Ronaldo vem se submetendo. Andréa Albertini e Carla, compareceram na tarde da terça-feira a 16ª DP, na Barra da Tijuca, negando em novo depoimento tudo o que tinham declarado na manhã do escândalo, quando teriam tentado extorquir o jogador.
Contaram ao delegado Carlos Augusto Nogueira que só conversaram e beberam com Ronaldo, afirmando que o terceiro travesti, Veida, não chegou a comprar cocaína. A motivação para ter detonado o escândalo, Andréia explicou que fora uma forma de “alavancar sua carreira”. Mudando completamente o roteiro da chanchada, acrescentou que ele acreditou, realmente, que estava com três garotas de programa. Quando percebeu que se tratavam de três travestis, desfez imediatamente o programa para o qual pagaria mil reais a cada um deles.
Diante disso, Andréa resolveu iniciar o escândalo que atingiu em cheio a imagem do atleta, famoso internacionalmente.
Se tem como atenuante o depoimento dos travestis, muita coisa ele precisará fazer para melhorar sua imagem pelo planeta inteiro, ainda perplexo pelo seu envolvimento com homossexuais.
Um exemplo bem significativo disso é que o padre italiano Antonio Mazzi, velho amigo de Ronaldo, publicou, na terça-feira, na revista “Família Cristã”, um artigo detonando-o: “Caro Ronaldo, e se você deixasse, de uma vez por todas, de bancar o cretino? Eu esperava que a queda de Maradona tivesse ensinado que a transgressão não compensa. Por outro lado, de campeões, de símbolos, de jovens, se vive. Mas, com campeões e símbolos fajutos, o risco é de morrer, culturalmente e socialmente”.
Logo depois do primeiro parágrafo detonador, o religioso ainda concedeu-lhe um crédito de confiança: “Hoje, você me deixa com raiva, e me deixam ainda mais nervosos aqueles que exploram e extorquem você. Mas se um pedacinho do menino que eu descobri em Bormio (norte da Itália) ainda estivesse aí dentro, eu apostaria na sua recuperação. Você está desperdiçando seu talento. Como você conseguiu se destruir assim? E como aqueles que sempre lhe estiveram perto permitiram isso? Os jovens precisam ver atletas que não desperdiçam assim o talento”.
Se precisava ter mais uma chance, Ronaldo agora tem.
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