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Data de Publicação: 10 de maio de 2008
Por: Paulo Castelo Branco
E-mail: pcbranco@brasiliaemdia.com.br


As pernas finas e o corpo desnutrido não impediam de o moleque se sobressair nas peladas dos campos empoeirados no verão, e enlameados na época das chuvas. A habilidade no controle da bola e o destemor em se aventurar no confronto com os garotos mais velhos acabaram lhe abrindo as portas para o time titular. Era o mais franzino no meio dos galalaus.

Com doze anos, o pai, com seu ar pilantra, vendeu o seu passe para um time amador. Entrou para a escolinha de futebol do Gerônimo, o herói do subúrbio. O sujeito, mal encarado, era um misto de técnico, jogador, olheiro e safado sedutor de um ou outro menino que se deixava envolver pela lábia do mestre ao final das partidas. O pai foi logo avisando: - Fica esperto com o Gerônimo senão ele faz um gol em você. O menino não entendeu nada, até o professor chegar com promessas de novos tempos em um time de destaque. Estavam no vestiário tomando banho. Os companheiros, que ficavam horas debaixo do cano de água que caía forte sobre a cabeça, saíram de mansinho, deixando-o a sós com o técnico. O sujeito, nu, pediu que ele apanhasse um sabonete que escorregara pelo chão. Desconfiado, encostou-se na parede, pegou o sabonete, jogou para o professor. Cobriu-se com uma toalha esfarrapada, colocou o calção e correu. Ainda escutou o técnico gritando: - Foi mordido de cobra, menino?

No treino seguinte não recebeu camisa titular, e nem ficou no banco. No final do dia, em casa, relatou ao pai o incidente. O pilantra, com óculos escuros na cabeça e pança de cerveja, não reclamou. — Amanhã vou levar você para treinar num time de um amigo meu que vai lhe garantir uma vaga. Nesse negócio de futebol você tem que ficar atento para não levar bola pelas costas. Bobeou, dança. O menino continuou sem entender o palavreado vulgar do pai.

O Sol ainda não havia despontado e os dois já estavam no trem: Deodoro 13, com destino à zona sul da cidade. Desceram na Central do Brasil e pegaram ônibus até a sede do clube. Era um estádio bonito com campo verde como nunca havia visto. Recebeu um par de chuteiras e camisa de treino. Pisou no gramado e sentiu o pé afundar. Que delícia, pensou.

Quase no final do teste de avaliação, o professor Juvenal determinou a entrada do menino. O pai, sentado na arquibancada fez sinal de positivo. Os adversários eram jovens, de mais de quatorze anos. Entrou, e logo a bola o procurou num lançamento longo. Estava quase no meio do campo. Matou a redonda no peito e a rolou no gramado reluzente. Com a bola nos pés driblou dois jogadores, deu um balão no terceiro, levou um pontapé, caiu, levantou, e enfiou o pé. A bola se acomodou no cantinho do gol. Olhou para ela, e a viu sorrindo. Era sua amiga para sempre.

Rapazola, já despontava como novo craque. Dentro e fora dos campos. Era um fenômeno. Feioso e desajeitado, foi suplantado na preferência dos olhares maliciosos por companheiros mais bonitos e menos hábeis na arte do futebol.

A fama e a fortuna chegaram como se fossem um furacão. De repente, ficou rico e quase bonito. O dinheiro e o sucesso eram maiores que sua ignorância e despreparo social. Casou-se, teve filhos, e foi feliz. Assim imaginava. Residências luxuosas, carros esportivos e grana, muita grana. O casamento fracassou e ele caiu na gandaia. Trocava de mulheres na mesma velocidade em que aumentava a conta bancária. Ele é feio, gordo, bichado, desanimado, mas é muito legal, diziam as mais belas moças que passavam por sua cama.

Entediado, saiu em busca de novas aventuras. Viu-se num emaranhado de dúvidas e caiu em tentação. Recordou do primeiro técnico e de suas investidas. Não se lembrava mais do que ocorrera naqueles tempos de penúria. Foi direto à fonte. Está na dúvida se, agora, perderá a mais difícil partida do campeonato da vida. Está no escanteio. Prepara a bola com jeito carinhoso. Vai chutar. A bola, infelizmente, como lhe alertava o pai, o pega por trás e o joga ao chão. Marcou gol contra e sem barreiras. Perante a mídia repete: Isto tudo é duro, mas é bom.

Não chora. Não lamenta. Acha que um dia, rindo de tudo que passou, e recuperado, poderá disputar a vaga da Marta na seleção que vai às Olimpíadas.

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