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Cinema

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Data de Publicação: 10 de maio de 2008
Por: José Guilherme
E-mail: jguilherme@brasiliaemdia.com.br


ESTÔMAGO Brasil/Itália, 2007.
Direção/Co-roteiro: Marcos Jorge.
Elenco: João Miguel, Fabíula Nascimento, Babu Santana, Carlo Briani.
* * * * ½


Nunca mexa com os sentimentos ou com a honra de um homem disposto a tudo, nem fique na alça de mira de seu rancor armazenado em geladeira. E ninguém é mais disposto a tudo do que aquele que não tem nada a perder. É o caso de Nonato (Miguel, ótimo), um nordestino que chega à cidade grande sem um tostão e vai trabalhar como auxiliar numa lanchonete de terceira. Logo Nonato descobre que tem “mão boa” para culinária, e seus pastéis e coxinhas atraem, além de uma fiel clientela para o dono do boteco, o restaurateur Giovanni (Briani), que o convida a ser uma espécie de sous-chef no seu estabelecimento.

É o paraíso para Nonato. Mas não existe paraíso sem inferno. E Jorge nos revela as inusitadas facetas “gastronômicas” dessa conhecida e inevitável dicotomia, numa narrativa que usa inteligentemente uma linguagem binária, à base de flashbacks alternados com cenas atuais: o filme, narrado em off pelo próprio Miguel, começa com Nonato entrando na prisão. Sabemos que ele foi condenado por um crime grave; que crime é esse, só descobriremos à medida que a narrativa avançar. E o caminho para essa descoberta é delicioso.

Realmente, é uma celebração para os sentidos acompanhar as imagens e diálogos que nos introduzem a uma verdadeira “Festa de Babette” à brasileira: tanto na prisão, onde aplica as lições aprendidas com o restaurateur, quanto no restaurante, nosso aprendizado em cima dos irresistíveis pratos e quitutes que desfilam na tela é de dar água na boca. Mas a linha que divide inferno e paraíso é muito fina. Nonato que o diga. Daí ao crime, que também possui, à sua maneira, referências gastronômicas próprias, é só um passo. Para quem quiser acompanhar a trajetória desse ator relativamente novo e pouco conhecido, recomendo: Cinema, Aspirinas e Urubus; Mutum; Cidade Baixa; O Céu de Suely; Deserto Feliz, entre outros. O espectador só tem a ganhar.

O SONHO DE CASSANDRA (Cassandra’s Dream).
EUA/Reino Unido/França, 2007.
Direção/Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Ewan McGregor, Colin Farrell, Hayley Atwell.
* * * *


Terceiro filme de Allen rodado na Inglaterra, depois de Match Point (2005) e Scoop – O Grande Furo (2006), este Cassandra... representa também, à incrível média de um filme por ano, a terceira obra do diretor em sua “nova fase”. Chamo assim à saída de Allen da fase anterior (e única) em que gastou a agulha e furou o disco de vinil fazendo “filmoterapia” para expulsar os seus demônios, fartamente alimentados à base de muita neurose. Não é exagero: Allen até hoje consulta regularmente sua psicanalista. E são, até hoje, 44 filmes, incluindo alguns (poucos) filmes e episódios para séries de TV.

Cassandra... é, em princípio, diferente de Scoop, mas tem muitos pontos de aproximação com Match Point, na medida em que trata, só que de forma mais obscura, depressiva e trágica, daqueles pequenos acontecimentos humanos que assumem uma dimensão só possível de entender se as compararmos com uma bola de neve que vira uma avalanche. Ou, o que é o mesmo, reações em cadeia, em que um ato humano, mais reprovável que o anterior, é cometido para encobri-lo. Obra do Destino ou de um desgovernado livre-arbítrio?...

Ian (McGregor, de Star Wars) e Terry (Farrell, de Alexandre) são dois irmãos com fortes laços afetivos. Ian dirige o restaurante do pai, mas sonha com iates, carrões, uma vida de milionário. Seus devaneios são perigosamente alimentados por Angela (Atwell), uma atriz de teatro alternativo. Enquanto isso, Terry, mecânico de automóveis, é um jogador compulsivo, fumante e bebedor descontrolado, que se envolve numa dívida impagável. São dois perdedores (“losers”), embora não o admitam. Para pagar a dívida de jogo de Terry e financiar um ambicioso projeto de Ian envolvendo hotéis, eles recebem a proposta de um tio rico: eliminar um ex-contador que ameaça destruir sua vida e mandá-lo para a cadeia. No fim, é Dostoievski na veia. A cena final, as duas noivas comprando roupas numa loja, fornece o irônico contraponto para um desfecho trágico.

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