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Observatório Geral

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Data de Publicação: 10 de maio de 2008
CLÁUDIA PEREIRA
cpereira@brasiliaemdia.com.br


ANO MÁGICO

“Sejamos realistas, desejemos o impossível”. Foi com esta conjugação de palavras livres, leves e soltas, quase desconexas, que os jovens ocidentais tomaram as ruas, as universidades e as praças, impregnando corações e mentes com sonhose desejos de liberdade. O tempo era 1968. Ano mágico. Data símbolo de transgressão, de mudança e rebeldia contra todo tipo deautoritarismo, preconceito e opressão.

MAIORES DE 30

Maio de 1968 está completando 40 anos. Uma ironia para um movimento que declarava abertamente não acreditarem maiores de 30. Os jovens de 1968 são hoje sexagenários. Alguns continuam cabeludos e sonhadores. Outros se enquadraramao sistema ao longo do tempo. Muitos construíram sua liberdade, sua consciência social e ecológica, seus direitos feministase raciais. Depois de Maio de 1968 o mundo não foi mais o mesmo. Ampliamos nossa visão. Conquistamos emancipação.

VENTO DE ABERTURA

Nos EUA o movimento de 1968 deu vida à New Left e fomentou os protestos contra a Guerra do Vietnã.No Brasil, as passeatas contra a ditadura militar ganharam força e legitimidade. Na Tchecoslováquia, Alexandre Dubcek começoua construir um vento de abertura, a chamada “Primavera de Praga”, e foi duramente reprimido pelas tropas soviéticas. NaFrança, segundo André Glucksmann, “(...) Maio de 68 foi uma promessa de revolução filosófica com o objetivo de derrubar osarcaísmos que se viam na educação, no comportamento social e coletivo, bem como nas opções partidárias que oscilavam entre ogaullismo e as tentações stalinistas.”

CRÍTICA DO AUTORITARISMO

Para o cientista político Sérgio Paulo Rouanet, o que havia de mais positivo no movimento de1968 era a crítica do autoritarismo: “(...) o que existia de mais simpático era o apelo à imaginação, ao desejo, ao amor semcensura”. Em contrapartida, para Rouanet, o outro lado moeda era problemático: “(...) a pretexto de atacar a cultura de classe,o movimento acabou atacando a cultura em si.” Segundo o cientista político, em depoimento ao Jornal do Brasil (26.04.2006),“(...) uma coisa é atacar a cultura de massas, inspirada por Marcuse, outra coisa é atacar a alta cultura (...) esta em si, uma estratégiada barbárie.”

HERANÇA CRÍTICA

As ações e reações provocadas pelos movimentos de Maio de 1968 estão em discussão. De calça Lee e minissaia, com a pílula na bolsa e o rock na cabeça os jovens de 68 mostraram sua importância na política e na cultura. Desafiaramo que estava estabelecido. Para a socióloga Dominque Vidal, da Universidade de Lille “(...) 1968 deixou como herança uma críticadas forças políticas tanto de direita, quanto de esquerda. Fez surgir movimentos de contestação que fugiram do controle dospartidos político. O movimento feminista iniciado em 68 desembocou em avanços consideráveis dos direitos civis.”

LIBERDADE E AUTONOMIA

Na visão do filósofo Leandro Konder, “(...) 1968 abriu caminho para a última contestação românticado capitalismo (...) a esquerda abriu mão da sua radicalidade tradicional e, em muitos casos, fez uma autocrítica oportunista:em vez de se renovar e inovar, renunciou ao ideal do socialismo.”. Ao avaliar o movimento de 68, um de seus maiores ícones, Cohn-Bendit, afirma que “(...) a sociedade evoluiu no conceito de liberdade e de autonomia do indivíduo e no plano político, o principalfruto foi o movimento ecologista.”

PORTAS DA PERCEPÇÃO

Numa reinterpretação de Aldous Huxley, podemos dizer que 1968 abriu as portas da percepção. Nosensinou outros caminhos para a prática política, muito além dos partidos. Deu vida aos movimentos de direitos civis. Questionou aspráticas fascistas da direita e a visão stalinista da esquerda. Deu um xeque-mate em toda forma de opressão e autoritarismo. Mas deixou muitas brechas. Para o pensador Rouanet “(...) 1968 não terá valido a pena se contribuiu, com sua crítica anárquica, para o irracionalismo, para o culto da barbárie e para a emergência de um fascismo de esquerda”. Na visão do jornalista Zuenir Ventura, no Brasil hoje temos 68 no poder. De um lado Fernando Henrique e do outro o PT“(...) o PT trouxe para si os princípios de 68 como a paixão pela coisa pública e a ética. Mas de uns tempos para cá os escândalos têm sempre alguém do PT. Essa transição do poder foi chocante.”

(fonte: Jornal do Brasil, edição especial, Idéias e Livros. 26.04.2008)

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