Vasectomia
Data de Publicação: 9 de setembro de 2006
Apesar de delicada, é uma cirurgia simples, eficiente e a cada dia mais procurada por homens interessados num contraceptivo seguro e conscientes da importância de planejamento familiarPor: Sérgio Costa
A maioria chega ao consultório médico com a pulga atrás da orelha.
- Doutor, é irreversível?
À primeira pergunta se segue a razão maior de seus temores.
- E se eu ficar broxa?
De jeito e maneira. Depois de vasectomizada, inclusive, essa mesma maioria costuma voltar ao doutor para contar que melhorou sua performance. Livres do fantasma de uma gravidez indesejada, os casais costumam se liberar para valer na cama.
Porque sexo e procriação, apesar de intimamente ligados, muitas vezes se atrapalham. A começar pelos métodos contraceptivos. Todos sabem como é difícil escolher um, já que em cada um há inconvenientes. A chamada tabelinha, um mês sempre falha ou não dá para segurar. Camisinha e diafragma, quando não esfriam o clima, constrangem algum dos parceiros. Pílula desequilibra o organismo feminino e, às vezes, tira a libido, coitus interruptus pode ser um corte... e por aí vai.
Até chegar à vasectomia. Imaginemos, pois, uma situação ideal. Um casal com dois ou três filhos, satisfeito com eles todos e entre si, que quer tirar do sexo apenas o máximo de prazer. Dá para resolver isso em 20 minutos. Basta procurar um urologista. Depois de uma consulta em que ele vai explicar a operação e dirimir dúvidas - a maioria dos médicos não faz vasectomia em pacientes muito jovens ou em homens que não tenham pelo menos um filho - é só marcar o dia e cortar os sustos pela raiz.
Mas, calma! Não é tão radical quanto você está pensando. A vasectomia é uma cirurgia simples, ambulatorial - ou seja, não precisa de internação - feita com anestesia local, em que o paciente sai andando, pronto até para a cama, se quiser, embora não seja recomendável, como veremos adiante.
A operação em si trata-se da interrupção dos canais (deferentes), por onde os espermatozóides produzidos nos testículos chegam até a vesícula seminal para se misturar ao esperma e aguardar uma prazerosa oportunidade de ganhar o mundo - ou pelo menos de conhecer intimamente uma mulher. O cirurgião acaba com a alegria deles ao abrir um corte de não mais de dois centímetros de cada lado da bolsa escrotal - ou no meio dela, pouco acima dos dois testículos -, pinçar os canais deferentes, cortar meio centímetro deles, isolar as pontas e pronto. No máximo um ponto em cada corte e está encerrada a carreira de reprodutor do paciente macho.
Sem ter como sair dos testículos, os espermatozóides se transformam em corpos estranhos e - proteínas que são - em vítimas do organismo que os produziu. Ele começa a fabricar anticorpos imobilizantes e enfraquecedores destes espermatozóides para reabsorvê-los. Com o tempo, o indivíduo acaba se tornando estéril por ação de seu próprio corpo.
Aí reside a maior das dificuldades de reversão da vasectomia. Quanto mais tempo passar da operação, menos chances de que, mesmo reatando os cotos dos canais deferentes, o homem volte a ser fértil. Dez anos depois, por exemplo, é bem provável que o espermograma de um sujeito vasectomizado revele sua azooespermia - ausência de espermatozóides em sua seiva vital.
Mas isso tudo acontece dentro dos testículos. Acima, onde reina soberano o pênis, tudo continua normal. O homem tem desejo, ereção, ejaculação e prazer do mesmo jeito - às vezes até mais. O próprio esperma continua com a mesma aparência, textura etc. Só não conta com os espermatozóides, cuja exclusão do processo era o objetivo da cirurgia. Portanto, bem-sucedida.
Nos países de primeiro mundo, a vasectomia é o procedimento mais estimulado dentro de políticas de planejamento familiar. Seu alto grau de eficácia, simplicidade e ausência de contra-indicações faz com que o Estado crie todas as facilidades de acesso às pessoas conscientizadas da importância do controle populacional. No Brasil, a cirurgia ainda é vítima de uma série de preconceitos, que vai desde os temores masculinos com relação à sua virilidade até a ação da Igreja, que condena os métodos contraceptivos e, devido à sua influência em nossa sociedade, inibe as iniciativas do Estado nesta área.
Atraso é atraso. Mas se nosso país quiser mesmo trocar de mundo, tem que entrar antes na do planejamento familiar. Se é difícil dar condições de vida digna aos brasileiros e brasileiras que já existem, será impossível para os milhões que ainda virão, se as pessoas não se conscientizarem de que só devem ter os filhos que podem criar. A chamada classe média já pensa assim há algum tempo. E são justamente os casais deste corte social que têm procurado se esclarecer sobre a vasectomia, lembrando o que aconteceu na Europa e EUA dos anos 70, quando esta prática atingiu seu auge, mantido alto até hoje.
Assim, de cada 10 pacientes que entram no consultório de um especialista, pelo menos três têm interesse em fazer a vasectomia. Muitas vezes encaminhados pelo próprio ginecologista da mulher. Há um consenso na classe médica - pelo menos entre os profissionais mais éticos - de que a ligadura de trompas é uma cirurgia bastante arriscada - e cara - quando realizada com a mesma finalidade da vasectomia. Depois da consulta esclarecedora ao urologista, entre 90 e 95% dos pacientes vão adiante e interrompem o caminho de seus serelepes sptz.
Mas e se lá para frente esses mesmos decididos pela vasectomia de hoje voltarem atrás? Afinal, as coisas estão sempre mudando e, de repente, tudo o que parecia definitivo hoje assume ares transitórios. Uma nova relação aparece na vida do homem e ele até pensa em começar tudo de novo, inclusive com filhos. Há algumas possibilidades.
A reversão da vasectomia se chama vasovasostomia e consiste na religação dos canais deferentes. Quanto mais cedo for feita a reversão, mais chances de que seja eficaz. A partir dos cinco anos, como já vimos, o próprio organismo do paciente impõe seus obstáculos. O índice de reversão natural é insignificante: 0,01%.
Uma vasectomia não tem por que ser uma cirurgia cara, já que é feita em caráter ambulatorial, requer apenas a presença do cirurgião, uma enfermeira ou instrumentista e geralmente não dura mais do que 20 minutos. Alguns se queixam de um pequeno incômodo no saco, nas primeiras 24 horas. Só.
O único cuidado que o paciente precisa ter para garantir o êxito total da cirurgia é com as suas primeiras ejaculações pós-operatórias. Os médicos recomendam uma espécie de resguardo de um mês para relações completas, ou seja, com ejaculação interna, ou contar 15 ejaculadas (não precisam ser todas de uma só vez) depois da cirurgia antes de fazer um espermograma que confirme o sucesso da vasectomia. É preciso gastar o estoque de esperma com sptz antigo, antes de começar vida nova, sem preocupações com gravidez. No caso do casal que já toma alguma medida contraceptiva, o ideal é que continue a fazê-lo até completar o período de carência. Depois, tá liberado.
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