Cinema
Data de Publicação: 9 de setembro de 2006
Por: José Guilherme
E-mail: jguilherme@brasiliaemdia.com.brA DAMA NA ÁGUA(Lady in the Water) EUA, 2006. Direção/Roteiro: M. Night Shyamalan. Elenco: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Jeffrey Wright, Shyamalan, Cindy Cheung.* * *

Em julho/2004, quando fiz a resenha de A Vila, escrevi: “O senhor M. Night Shyamalan deveria parar de fazer filmes e começar a fazer alguma outra coisa. Sério”. Prosseguindo: ele seria “um produto do ‘cinemão’, que tem por escopo divertir sem compromisso com a realidade ou com a verossimilhança”. Parece que o Sr. Manoj (o “M.” abreviado) não leu minha resenha. É uma pena. Menos para ele e para seus distribuidores, que faturam em cima da ingenuidade do espectador americano (seus 4 filmes anteriores estão entre as maiores bilheterias da história americana), e, por extensão, do espectador mundial.
Uma maciça e avassaladora propaganda precede o lançamento de seus filmes. Multidões enchem as salas de projeção. Suas histórias, porém, estão cada vez mais estapafúrdias. Sua imaginação delirante não tem limites, as fronteiras entre o real e o imaginário são simplesmente atropeladas, e nossa inteligência é tratada como um sub-produto do nosso organismo parasitário, que vive da imaginação fantasiosa desse contador de histórias. Shyamalan nos julga, a todos, crédulos como criancinhas ouvindo contos dos Irmãos Grimm.
Desta vez ele aproveita uma antiga história de ninar que fala de ninfas do mar e outros seres fantásticos. A ninfa é Bryce, filha do diretor Ron Howard, que fez a cega em A Vila. Giamatti, a única coisa boa do filme, pelo timing de comediante e pela excelente performance, é Cleveland, o zelador de um condomínio classe “B”, em cuja piscina a ninfa aparece. Cada morador do “condo” parece talhado para desempenhar um papel nessa história tola, ajudando a ninfa a retornar ao seu “Mundo Azul”. Conselho: reveja O Sexto Sentido, o único filme do sr. Shyamalan que, do ponto de vista cinematográfico, “faz sentido”.
VÔO 93(United 93) França/Reino Unido/EUA, 2006. Direção/Roteiro: Paul Greengrass.* * * * ½

No velho, mas ainda confiável, estereótipo, “baseado em fatos reais”, chega-nos este excelente Vôo 93. O título em inglês se refere à companhia United Airlines, cujo avião foi o 4º seqüestrado no 11 de Setembro, destinado ao Capitólio; uma revolta dos passageiros masculinos da aeronave, tentando dominar os terroristas islâmicos, acabou fazendo com que o avião caísse antes do alvo. O filme resgata essa história sem testemunhas (ninguém sobreviveu), graças aos relatos fornecidos pela “caixa-preta” e pelos familiares em terra dos passageiros vitimados.
A visão de Greengrass, que roteirizou o filme (ele fez o igualmente excelente Domingo Sangrento, sobre massacres na Irlanda do Norte), é estereoscópica: ele mostra os três lados do incidente, os terroristas, suas conversas e atitudes; as ações e reações dos passageiros e da tripulação diante do seqüestro; e os movimentos dos controladores e autoridades de vôo, aliados aos militares especializados.
A filmagem é nervosa e realista, em terra como no ar. A trilha sonora realça o clima de suspense a um nível quase insuportável. A ação segue num crescendo, “agarrando” o espectador, que sabe não se tratar de ficção. Greengrass é neutro como um juiz, distante como o próprio espectador, narrando num estilo assumidamente semi-documental e nos transformando em testemunhas oculares desse episódio apavorante, em que a vida de cada ocupante do avião ganha um significado especial. O filme mostra que Bush Jr. autorizou a derrubada da aeronave por caças da Força Aérea, ação não executada. E vem aí World Trade Center, com Nicholas Cage, mais um filme sobre o atentado que completa cinco anos.
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