ENTREVISTA - Alcione
Data de Publicação: 9 de setembro de 2006
A voz do povo
Alcione, a Marrom, é uma das mais famosas cantoras da música popular brasileira. Conseguiu conquistar o seu espaço com muita garra e, é claro, talento. Vivendo atualmente a sua melhor fase profissional, completando 35 anos de carreira, coleciona discos de ouro e platina, exibindo ultimamente, com muito orgulho, um duplo de platina pelas 500 mil cópias vendidas.
Tudo isso, além de ser tetracampeã do Prêmio TIM - o mais importante festival da música popular brasileira -, conquistou esses dias um troféu internacional por toda a sua contribuição à cultura brasileira - o Lifetime Achievement Award, que acaba de receber, na nona edição do Annual Brazilian Press, em Lauderdale, na Flórida.
Nesta entrevista, ela conta a sua trajetória profissional e de como foi difícil conquistar o espaço na carreira artística, começando como vendedora em uma loja de discos, no Rio de Janeiro, além da tentativa, no início, em ousar fazer uma experiência profissional na Europa.
Durante a longa conversa, também falou das cotas raciais, manifestou a sua indignação diante do crescente quadro de desigualdade social no Brasil, principalmente a fome, a qual considera a bomba-relógio do estômago. Lamenta que o nível do ensino público esteja muito baixo, diferente da época em que estudava em escolas públicas no Maranhão, tendo como colega de classe, a hoje senadora, Roseana Sarney, filha do então governador José Sarney. Vê com preocupação, o aumento da violência no país e a ação, cada vez mais crescente, do crime organizado, que estaria por trás, também, da indústria da pirataria dos CDs.
Conta também, dos seus amores e as loucuras que fez por alguns deles, afirmando que tudo é válido quando a força do sentimento se exprime com mais força.
Marcone Formiga - Você é uma mulher plugada com o que acontece no Brasil, leva uma vida participativa. Como vê o país dos sanguessugas, dos mensaleiros, da corrupção?
Alcione - O Brasil é um país de muita pobreza. Será que isso não vem na cabeça de uma pessoa quando ela rouba milhões e milhões? Por querer tanto se existem muitos que não têm nada? Como pode?! Eu agradeço aos meus amigos; o Emílio Santiago, a Maria Bethânia, o Jorge Aragão, o Zeca Pagodinho, que me ajudam a manter as famílias do projeto que eu faço parte. A fome é a bomba-relógio do estômago e muita gente não tem, simplesmente, o que comer. Como o governo não zerou a fome, eu faço o que posso, apelando a amigos e colegas para que façam a sua parte, já que não podemos resolver sozinhos esse problema. Existe algo mais dramático de que assistir uma criança ou uma pessoa idosa com fome, sem ter de onde tirar o dinheiro para se alimentar? Isso dilacera o meu coração.
Marcone Formiga - Em que consiste o seu trabalho social?Alcione - Nosso trabalho é como um beija-flor jogando um pingo d'água em um incêndio, mas, se cada um fizer sua parte, o apagaremos. Vamos ajudar quem precisa e, votar com consciência, em quem pode melhorar. Esses roubos já me cansaram e estão cansando o povo... Temos que prestar atenção em quem está roubando ou fazendo algo errado para não elegermos esse tipo de gente mais. Os meios de comunicação estão aí para nos ajudar a obter essas informações. A maior punição é não votar mais em corruptos. Embora saibamos que existe gente que foi cassada, mas continua mandando...
Marcone Formiga - A impunidade é que acaba estimulando isso, não é?Alcione - A impunidade deste país estimula muito. Mas Deus não dorme. Eu sou uma pessoa que acredita muito em Deus. Eu acredito que, depois da meia-noite, tem que clarear. E já deu meia noite. Está na hora. Vamos clarear com nossos votos!
Marcone Formiga - Quando se fala em cotas para negros nas universidades, você acha justo? Afinal, você não precisou de nada, além do seu talento, para conquistar o seu espaço... Qual é a sua visão com relação a essa questão?Alcione - Eu acho esse sistema de cotas um pouco de discriminação também. Tem que se dar oportunidades para todos estudarem - negros, brancos, cafuzos, amarelos. Nós somos um país multiracial. Todos têm que ter chances, principalmente os pobres, independente de qual for a raça. Aí, caberá a eles aproveitarem o que se apresenta.... Eu sou filha de uma mãe muito pobre. Estudei em colégio público, no Maranhão, e fiz o melhor primário que uma pessoa podia fazer, porque, na época, os colégios estaduais e municipais eram os melhores. Estudei com a Roseana Sarney. Era ali que o então governador José Sarney colovava seus filhos para estudar. O que falta hoje é esse tipo de oportunidade. Vários colegas pobres que eu tive, hoje, estão muito bem de vida: um é chefe de hemodiálise do Hospital das Clínicas, um é pediatra, outro é agrônomo... Todos eram pobres como eu. No Maranhão, naquela época, por incrível que pareça, nós nunca sentimos diferença de classe. Na rua, andávamos todos juntos. Hoje, falta qualidade no ensino público. Falta qualidade de ensino para os mais cartentes. Sequer pagam bem os professores...
Marcone Formiga - Isso demonstra que, para vencer na vida, não precisa de cotas e, sim, de talento e educação...Alcione - É com ensino! Com ensino para todas as pessoas o problema vai acabar. É preciso dar qualidade de ensino e qualidade de vida, porque gente precisa comer. Eu nunca passei fome. Meu pai era soldado da polícia e minha mãe era lavadeira, mas nunca nos deixaram conhecer a fome.
Marcone Formiga - O Brasil, nesse sentido, está pior do que antes...Alcione - Acredito que sim. Embora, hoje, tenhamos mais oportunidades. As coisas estão ao alcance das pessoas. Então, o que está faltando? Está faltando a boa distribuição de renda, educação, saúde para o povo. Não adianta você dar cotas e não dar qualidade no ensino primário, na educação de base. Eu me lembro que, quando a gente estudava em um colégio pago, sentia vergonha. Chamavam colégios particulares de “pagou-passou”. O bom era estudar em um colégio público, porque, para entrar lá, tinha que ralar. Era preciso ficar noites e mais noites estudando em casa, senão ficaria para trás. Hoje, se o aluno não tiver estudado em colégio pago vai ter poucas chances de acesso a uma educação superior. Melhorar a qualidade do ensino primário e ginasial é fundamental para que todos, democraticamente, tenham acesso ao nível superior, pela preparo intelectual...
Marcone Formiga - Como foi sua trajetória artística?
Alcione - Eu comecei, em São Luís do Maranhão, cantando em festas de colégio. Nós tínhamos um grupo, onde eu cantava e tocava um pouco de trompete, Roseana Sarney, por exemplo, tocava violão, minha irmã tocava bateria, outra irmã menor, que hoje é minha produtora, tocava maracas. Eu cantava também no coral do colégio. Cantei uma vez na festa do meu pai, onde o crooner ficou doente e eu precisei entrar no lugar dele. Meu irmão me pediu para substituir o cantor, e eu comecei a cantar uma música da Ângela Maria (começa a cantarolar O Amor me Pegou) Então, as pessoas pararam de dançar e começaram a olhar para mim. Terminei a música e aplaudiram, cantei outra e aplaudiram... Quiseram me contratar, mas meu pai disse: "Não. Minha filha está estudando. Só vai seguir essa carreira depois que se formar”. Aí, eu só cantava em baile de 15 anos e essas coisas. Depois que eu me formei, meu pai me pediu para que eu ficasse dois anos no Maranhão, para cumprir minha missão de professora, que sempre foi o desejo dele. Como ele lutou muito para criar nove filhos, resolvi cumprir seu desejo, lecionando no Maranhão, para depois ir ao Rio de Janeiro. Depois que cheguei ao Rio, em 1968, fui morar na casa da minha tia, na Parada de Lucas. Consegui um emprego no Império dos Discos, e fui vender muitos discos de Agnaldo Timóteo, Roberto Carlos...
Marcone Formiga - Era vendedora de loja?Alcione - Sim, até porque eu não achava outro emprego, embora eu fosse formada. Haviam anúncios em jornais antigos, que procuravam "moças bonitas”!. Não exigiam que as pessoas fossem qualificadas, mas, sim, que fossem bonitas e... tivessem pernas grossas!!!. Então, fui vender discos, ganhando comissão. O dono da loja percebeu que eu era uma pessoa que tinha estudado muito e me colocou no caixa, com um salário melhor. Um dia, vi um anúncio na Rede Excelsior, canal 2, que oferecia ao ganhador de um concurso um contrato. Eu falei à minha prima, que morava comigo: “Eu vou nesse programa e vou ganhar!”. Ela me respondeu: “Você está pensando que isso aqui é o Maranhão?”. Cheguei lá e fiquei em primeiro lugar. Então, eles me contrataram logo. No terceiro domingo seguinte, eu já era júri desse programa. Minha prima falou: “Puxa vida, você é audaciosa...”
Marcone Formiga - Ou seja, veio disposta a conquistar seu espaço?Alcione - Mas eu tinha a consciência que ainda precisava aprender muito. O Rio acabou ficando pequeno para mim e resolvi ir embora. Morei dois anos na Europa, trabalhando como crooner. Trabalhei, inclusive, com Romano Mussolini, filho de Benito Mussolini...
Marcone Formiga - Filho do duce?!...Alcione - É! Mas não tinha nada a ver com o pai. Ele sempre ia tocar conosco. Politicamente, é isso que você quer saber, eu sei, não houve qualquer manifestação. Nem fascista, nazista, democrática. Falavámos só um idioma universal - a mú-si-ca!...
Marcone Formiga - Uma viagem com passagem de volta...Alcione - Yes! Eu não tinha mesmo a menor vontade de ficar por lá, queria mesmo era conhecer alguma coisa interessante lá fora, naquele mundo musical. E, naquela época, musicalmente, a Europa estava com tudo.
Marcone Formiga - Voltou e o que aconteceu de interessante?Alcione - Voltando ao Brasil, procurei o Jair Rodrigues, que me apresentou o Roberto Menescal. Foi, então, que eu gravei meu primeiro compacto simples. Minha primeira composição foi feita com o Nei Lopes e Reginaldo Bessa - era “Figa de Guiné”. No segundo compacto, o Gilberto Gil me deu duas músicas - “Entre a So-la e o Salto” e “O Sonho Acabou”. Ele nem me conhecia! O Gilberto Santana que pediu para ele. Tenho muita gratidão pelo Gilberto Gil por isso. Depois de gravar alguns compactos, gravei meu primeiro LP, “A Voz do Samba”, que tinha “O Surdo” e “Não Deixe o Samba Morrer”, produzido por Roberto Santana. Hoje meus produtores são Jorge Cardoso e Alexandre Menezes. Já ganhei muitos discos de ouro por causa desses produtores.
Marcone Formiga - E o esquema das gravadoras? É difícil de penetrar... Existe algum esquema com as emissoras para tocar ou não determinadas músicas? Aquela coisa do jabá (as gravadoras teriam que pagar para que as músicas sejam programadas e façam sucesso)...?Alcione - Eu não tive dificuldades porque foi o Jair Rodrigues quem me apresentou. E quando fui apresentada, cantei para o Menescal. Ele gostou e mandou fazer o compacto. Naquela época, eu cantava muito na noite. Um dia o Menescal, que era um grande conselheiro, me falou: “Você quer seguir uma carreira artística ou ficar cantando na noite?” Ele dizia que o disco era o documento do artista, que ele tinha que ser trabalhado. Mas se eu não cantasse na noite, quem iria me sustentar? Ele me disse que a companhia iria pagar minhas refeições e roupas e eu trabalharia durante o dia para divulgar o disco. Comecei, então, a viajar pelo Brasil com Roberto Santana e Emílio Santiago.
Marcone Formiga - O Jair Rodrigues, melancólico, lamentou que o samba está morrendo... Você concorda com isso?Alcione - Não concordo com isso! Muito pelo contrário! Vejo o Zeca Pagodinho vendendo centenas de milhares de discos! O Jorge Aragão também...
Marcone Formiga - Quantos discos você já vendeu em sua carreira?Alcione - Eu tenho 27 discos de ouro, 5 de platina. Ganhei recentemente disco e DVD de ouro. O samba passou por várias fases e, atualmente, está em uma de suas melhores. O samba nunca vai morrer. Ele é a música deste país! A prova disso é que a juventude vai muito aos meus shows, aos do Zeca Pagodinho... Os jovens se voltaram para a música brasileira. Estão ouvindo chorinho, samba... Os jovens agora gostam de música romântica. Vejo garotas de 15 anos pedindo que eu cante “A Loba”... Uma vez vi uma criança cantar “Primo do Jazz” na minha frente! Alguma coisa nova está acontecendo, graças a Deus!
Marcone Formiga - Entre os jovens, sempre prevaleceu a música americana. O romantismo era visto por eles como uma coisa brega. O que impulsionou essa mudança?Alcione - O amor é a base de tudo - o amor pela família, o amor pelo trabalho, o amor ao próximo. Todas as formas de amar são lindas. Os jovens estão ligados nisso, por isso eles estão românticos, cada vez mais, e sem vergonha desse romantismo. Isso é bom para o jovem, que ele ame. Os jovens não estão mais querendo saber de drogas, porque estão percebendo que existem inúmeras maneiras de se divertir, ser feliz e saudável. É um caminho bom.
Marcone Formiga - Como você se sente quando caminha em uma rua e vê ambulantes vendendo seus discos pirateados?Alcione - O que acontece é que falta uma grande vontade política para acabar com isso. CDs virgens entram no mercado para servir de matéria-prima da pirataria. Por que, então, permitem? Entram 100 milhões de CDs virgens anualmente no Brasil. É uma coisa muito forte! Não devia acontecer isso... É na cabeça que tem que cortar. E para o que já entrou, a fiscalização deveria preocupar-se em tirar de circulação o que foi prensado. Sabe-mos que os governos estaduais estão trabalhando nisso. Vários artistas - eu, o Gabriel, o Pensador, o Martinho da Vila, o Leonardo - estão empenhados nessa luta. Eu peço para o povo não comprar discos piratas, porque, além de prejudicar o seu aparelho de som, acaba desempregando pais de família, os compositores. Tem que haver uma campanha política muito grande, com uma vontade política enorme. Se não for assim, a pirataria só vai aumentar a cada dia que passa, diante dos nosssos olhos e de toda a nossa indignação.
Marcone Formiga - O Cauby Peixoto, certa vez, afirmou que, se tivesse nascido nos Estados Unidos, seria maior que Frank Sinatra. Então, é tudo resultado de esquemas de superprodução na carreira de um artista?Alcione - É tudo resultado disso mesmo. No Brasil, por exemplo, os artistas que começaram antes de mim sofreram muito. Hoje, eu posso afirmar que estou muito bem dirigida porque teve um Cartola, um Ismael Silva, que sofreram antes por mim. Todos tiveram que sofrer para que nós pudéssemos estar bem. Eu acho que o Cauby Peixoto tinha que nascer mesmo no Brasil, porque nós temos o direito de ter uma voz dessas. Mas o artista no Brasil ainda sofre muito, por falta de patrocínio, de ajuda, principalmente o artista popular, como nós.
Marcone Formiga - Você é reconhecida como uma mulher romântica, de grandes paixões. Dentre essas grandes paixões, você já fez algumas loucuras por amor. Aquela história do avião que alugou para sobrevoar a sua casa... Como foi isso? Quem era essa paixão? Alcione - Não posso dizer o nome... Eu não me arrependo de nada. Eu não bebo, não fumo e não cheiro. Nunca me arrependi dos amores que tive. Tudo nessa vida tem que ser intenso. Não gosto de nada mais ou menos. Ou eu gosto muito ou eu deixo para lá. Uma vez eu perguntei para um rapaz que faz aquelas propagandas na praia, sobrevoando de avião, se ele podia fazer uma faixa escrita: “Eu amo você, fulano de tal”. Aí, eu marquei com ele meia hora antes. Quando o avião passou, eu mostrei a mensagem. Eu adoro essas coisas! Loucuras de amor, quem não faz é porque não ama. Por exemplo, mulher gosta muito de rasgar a camisa do homem que ama e com quem está brigado. Sabe por quê? Porque a camisa deve ser uma espécie de pele especial do homem... Aquela coisa de chegar no meio da noite na casa dele, depois da briga, tocar a campainha e, quando ele abre, ir logo arrancado-lhe a camisa, rasgando-a, é uma loucura. Mas, no amor, uma loucura dessas, é perdoável, além de ser um componente muito forte para sacudir a relação, esquentar tudo. Além do mais, o melhor de uma briga é a reconciliação...
- Próximo texto:
- Gente Cartão vermelho
- Texto Anterior:
- Empresas & Negócios Empresas & Negócios
- Índice da edição - Ed. 507