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Ano 10 - 30/09 a 06 de Outubro 2006
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ENTREVISTA - Adriano Cerqueira

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Data de Publicação: 30 de setembro de 2006
Como vencer uma eleição...

Prevalecem, ainda, no Brasil, duas lendas. A primeira, que os marqueteiros são capazes de vender candidatos como se fossem produtos expostos nas gôndolas de supermercados, com embalagens bonitas, mas sem nenhum conteúdo. Alguns não passariam de propaganda enganosa. Já a outra, que os institutos de pesquisas podem influenciar os eleitores a partir dos resultados que anunciam.

Nenhuma coisa, nem outra.

O marketing político, quando é mal-feito, pode até prejudicar o candidato. E quando é bem feito, dificilmente consegue assegurar a vitória de quem recorre a uma estratégia mercadológica que, na política, tem outro efeito.

Quem faz essa avaliação é Adriano Cerqueira, do CB-Data, o instituto de pesquisas do “Correio Braziliense”, que acompanha, com critérios meramente técnicos, o desenvolvimento da campanha eleitoral, a nível local e nacional. Para ele, o marketing político, por ser muito complexo, não envolve apenas a capacidade de comunicação do candidato, mas toda a estratégia de campanha. O que decide uma campanha, na verdade, é uma boa candidatura, que seja assimilada, e não induzida ao eleitorado.

Já os institutos de pesquisas, segundo Adriano Cerqueira, têm a função de um termômetro - medem a intenção de voto, revelando o quadro atual -, e até ressalta: "Não é porque esse quadro foi mostrado que isso signifique que vá prevalecer, porque podem ocorrer viradas”.

Também analisa as tendências das eleições, até a quinta-feira, para presidente da República, governador do Distrito Federal e senador.

Marcone Formiga - Qual o perfil do candidato à presidência da República que os brasileiros estão procurando agora?

Adriano Cerqueira - Com a reeleição, os brasileiros estão, aparentemente, avaliando o governante atual. Nesse sentido, a avaliação é fundamental. Se existe um governo bem avaliado, o perfil desejado acaba sendo o do próprio governante. Observando as intenções de voto mais recentes, o brasileiro está com certa acomodação com a atual situação, achando que a economia está indo bem. Está satisfeito com sua situação econômica. Nesse sentido, está tendendo a ser mais conservador e manter o atual governante no poder. Esta é a tendência atual.

Marcone Formiga - Os sucessivos casos de escândalos políticos não afetam a imagem do governo?

Adriano Cerqueira - A questão da corrupção, de escândalos envolvendo dinheiro público, acontece em muitos governos, em várias partes do mundo, e o Brasil não escapa a isso. O eleitorado é muito sensível a esse tipo de denúncia. Isso, sem dúvida nenhuma, prejudicou a candidatura do atual presidente, porque, não fossem esses escândalos, ele estaria bem mais avançado nas intenções de voto. Essa última situação surgida (o dossiêgate), que envolve espionagem, é muito grave, porque, à medida que o eleitorado for tomando conhecimento dessa situação, poderá mudar o voto.

Marcone Formiga - Ou seja, a população brasileira está dividida?

Adriano Cerqueira - Podemos dividir, hoje, a população brasileira em termos de instrução. Os que têm maior escolaridade, mais leitura, acompanham mais atentamente, têm migrado para a oposição. O eleitorado menos escolarizado, menos formado, está satisfeito com a situação e tem ficado mais com o governo. O primeiro turno não é um cenário absolutamente confirmado. A diferença percentual do Lula para os demais candidatos é pequena. Hoje, há uma incerteza com relação a uma vitória no primeiro turno. A possibilidade de ocorrer um segundo turno se tornou maior.

Marcone Formiga - No Brasil, com essas diferenças sociais tão grandes, como o próximo presidente deveria se comunicar com o povo... Dessa forma messiânica, como faz o Lula?

Adriano Cerqueira - O presidente Lula é um candidato carismático, que consegue aparecer bem falando em uma linguagem mais popular. Ele tem uma série de qualidades como comunicador de massas. O Geraldo Alckmin não tem essa característica. Ele precisa muito de apoios regionais, do convencimento de lideranças locais, cabos eleitorais - instrumentos que conseguem traduzir sua forma. O Alckmin está centrando sua mensagem, basicamente, em uma administração responsável, inclusive no sentido ético-eficiente. É um bom caminho, porque parte do eleitorado se mostrou indignado com essas denúncias e, de certa maneira, espera por mensagens desse tipo. O desafio, sem dúvida nenhuma, será chegar a essas camadas populares, que têm sido bem atendidas pelas políticas do atual governo. Essa crise que abateu a campanha do Lula gerou um momento bom para a candidatura do Alckmin. Já têm alguns dias que a campanha do Lula vem batendo cabeça. O coordenador da campanha foi substituído em um momento crucial, onde deveria estar se adotando uma postura mais tranqüila e conservadora. Tiveram que fazer diversas mudanças de última hora, o que deu gás para a campanha do Alckmin. Se ele conseguir levantar uma onda de indignação - que vai das camadas mais instruídas para as menos instruídas - terá chance, sim, de, em um eventual segundo turno, ganhar as eleições. Hoje, isso é ainda muito improvável. O favoritismo ainda é do Lula, mas existe a possibilidade de uma virada.

Marcone Formiga - O Lula sucedeu um intelectual que tinha dificuldade em fazer um discurso para o povo. Foi fácil para o Lula restabelecer esse diálogo, porque o povo sentia falta de um canal de comunicação com o governante...

Adriano Cerqueira - Claro que a questão da linguagem ajuda, mas tem que se ter um conteúdo na linguagem. O Lula é um candidato forte não só porque fala com essa linguagem mais popular. Ele consegue trazer a mensagem dele - combater a desigualdade, melhorar a situação geral do país, passando-se como uma pessoa mais sensível com os pobres. É na divisão da sociedade, entre ricos e pobres, que o Lula está conseguindo ter mais chances de se reeleger.

Marcone Formiga - Mas em 2002 foi diferente...

Adriano Cerqueira - Na eleição de 2002 foi diferente, porque ele conseguiu montar um perfil que encantou todo mundo. O problema do Lula é que essas denúncias o afastaram da classe média. Então, para ter chances, ele investiu na maior parcela da população brasileira, que é a menos privilegiada. O Lula misturou duas coisas: a sensibilidade com os mais pobres e esse mecanismo de satisfação com a situação vivida. O índice positivo de avaliação do governo vem sustentando o seu favoritismo. Só que ninguém sabe onde essa crise vai parar. Ela criou uma incerteza no horizonte. Até o mercado econômico já reagiu a isso. Ninguém sabe como será um eventual segundo mandato, como será a relação com a oposição.

Marcone Formiga - O mundo e o Brasil mudaram... No entanto, alguns políticos continuam atrasados, lançando mão de métodos antigos, como o coronelismo? Como fica o Brasil hoje?

Adriano Cerqueira - Infelizmente, temos visto mecanismos ultrapassados de se fazer política que ainda são tradicionais - arrebanhamento e compra de votos. Esse esforço do Lula em se recandidatar o aproximou muito de antigas lideranças que, no passado, eram condenadas por ele e pelo PT. Vemos que uma parcela do eleitorado brasileiro é muito sensível a esse tipo de método mais arcaico, porque, infelizmente, funcionam. Eu acho que a única forma de extinguir isso é através da educação cívica. Mas, achar que somente a educação vai impedir que essas coisas aconteçam, infelizmente, é um equívoco. A diferença dos países mais avançados para o Brasil é que os desenvolvidos têm instituições mais ágeis na coibição desse tipo de crime.

Marcone Formiga - Como mudar isso?

Adriano Cerqueira - Precisamos de uma maior agilidade por parte das instituições, como a Justiça Eleitoral e a própria Justiça Criminal, Ministério Público, polícias... Elas têm que ser extremamente ágeis em identificar a ação correta e punir exemplarmente. Isso também faz parte dessa educação civil. Quanto mais ficar claro para sociedade que é muito arriscado investir em ações ilícitas porque há uma reação institucional forte, podemos esperar que esse mecanismo seja cada vez menos freqüente. Eu acho que, infelizmente, ainda vai demorar um pouco. O Estado brasileiro é carente de recursos, sob alguns aspectos até falido. Sabemos que a Justiça é mal aparelhada, não chegou ao nível que esperávamos que chegasse. O aparato de segurança também não é bem aparelhado. A resposta vai vir a médio e longo prazo, com um reforço e maior investimento nessas instituições.

Marcone Formiga - Caso fosse assessorar um candidato presidencial, qual a imagem que sugeria para ele?

Adriano Cerqueira - Na minha avaliação, o eleitorado brasileiro, hoje, está muito sensível com a questão da lisura administrativa. Então, tem que ser um candidato que saiba convencer que vai ter um trato correto na questão pública e estar muito atento à questão da administração dos recursos. Existe uma insatisfação com relação aos maus gastos. Mesmo os setores mais populares percebem uma ineficiência. A questão da gestão administrativa é realmente importante, mas tem que ser bem traduzida para boa parte do eleitorado. Existe, também, a questão de tratar a economia com responsabilidade. O Lula está tendo uma boa votação porque, pelo menos no aspecto econômico, ele tomou certas decisões que permitiram certo crescimento no país. Claro que o Brasil poderia ter crescido mais, mais isso também não quer dizer que não tenha ocorrido. A população é muito atenta à questão da economia. O candidato tem que mostrar que vai saber trabalhar bem a economia do país, gerar crescimento, emprego, segurança, ter um perfil responsável e austero de uma pessoa que não tolera a corrupção.

Marcone Formiga - Atribuiu-se ao marketing político o poder de eleger um presidente. Faz sentido isso?

Adriano Cerqueira - Não! Eu acho que o marketing político, quando é mal feito, prejudica o bom candidato. Agora, o marketing político bem feito dificilmente consegue promover o mau candidato. O que o marketing político pode fazer é, mesmo com um candidato não muito bom, conseguir melhorar a intenção de voto. Mas, ganhar é uma coisa complicada, porque depende de diversos fatores. O marketing político é muito complexo. Ele não envolve apenas a capacidade de comunicação do candidato, mas toda a estratégia de campanha, que, desde o início, tem que estar bem delineada. Tem que haver muitas pesquisas - quantitativas e qualitativas. O decisivo em uma campanha eleitoral é se ter uma boa candidatura. O candidato que tem o poder de se moldar naturalmente ao que o eleitorado está querendo tem maiores chances de ser eleito. Mas, também, tem que ter estrutura de campanha. Marketing político sem estrutura de campanha não funciona. Tem que ter recursos, uma boa equipe, apoios regionais, coesão nos partidos. O marketing é uma ferramenta extremamente importante para promover o que aquele candidato tem de bom, mas nunca para fazer de um candidato insosso algo que possa ser vendido para a população.

Marcone Formiga - Ou seja...

Adriano Cerqueira - O marketing político não faz milagre! No Brasil, com essa dimensão e desigualdade toda, a promoção de uma candidatura presidencial é muito difícil. O exemplo do Lula é muito claro: a poucos dias da eleição, aparentemente tranqüila, ocorre uma ação completamente desastrada dentro do partido que coloca em suspeita a possibilidade de ganhar no primeiro turno e dá ânimo novo à oposição. O marketing da oposição jamais podia contar com essa mãozinha do outro lado.

Marcone Formiga - Até que ponto as pesquisas podem influenciar no resultado de uma eleição?

Adriano Cerqueira - As pesquisas funcionam iguais a um termômetro. Ela mede a intenção de voto, revelando o quadro atual. Não é porque esse quadro foi mostrado que futuramente vai permanecer. Já vimos, em várias eleições, mudanças do eleitorado. Se pesquisa influenciasse, a primeira pesquisa publicada que mostrasse um candidato na frente, garantiria a liderança dele pelo resto da campanha. No entanto, o processo eleitoral mostra viradas. O eleitorado é pouco influenciado pelas pesquisas. O impacto das pesquisas, principalmente as divulgadas, é maior nas campanhas. Todos os candidatos usam muita pesquisa, o problema é quando elas são públicas, porque podem revelar para os agentes que financiam a campanha que aquela candidatura está com problema. Geralmente, quando a pesquisa influencia é mais na questão da estrutura de campanha mesmo. A maior influência é no ânimo da campanha. Para o eleitor, que é o agente mais importante desse processo, as pesquisas são fundamentais, porque, primeiramente, ele quer saber essas informações.

Marcone Formiga - Afinal, qual é o papel das pesquisas?

Adriano Cerqueira - As pesquisas públicas têm o importante papel de informar o eleitor das suas tendências de voto, não no sentido de que ele vá ser influenciado por isso, mas, sim, no sentido de ter essa vontade de se informar satisfeita. São muito importantes as pesquisas públicas feitas com seriedade. A Justiça Eleitoral é muito atenta com as pesquisas que são tornadas públicas. Esse cuidado que existe no Brasil é muito bom, e reforça a importância e necessidade das pesquisas acontecerem. Agora, que ela muda o voto do eleitor não tem como comprovar. Há estudos que foram feitos que revelaram que, no máximo, de um a dois porcento do eleitorado admite influência das pesquisas em seu voto.

Marcone Formiga - Brasília é uma cidade muito politizada. Qual é o perfil do eleitor da cidade?

Adriano Cerqueira - É um perfil bem diferenciado da média brasileira. É um eleitor mais escolarizado, que está mais presente no mercado formal de trabalho, possui melhor renda. É um eleitorado que tende a ser mais atento às notícias políticas.

Marcone Formiga - Existe a possibilidade de um segundo turno a nível federal. E aqui, em Brasília, já está decidido?

Adriano Cerqueira - O que as pesquisas do CB-Data estão indicando é que o Arruda ganhará no primeiro turno. Ele está com mais de 54% nas pesquisas. O eleitorado estimulado já está falando que irá votar nele. O segundo lugar está em torno de 20%. A diferença do Arruda para os demais candidatos lhe dá certa margem de segurança para pensar em uma vitória no primeiro turno. Mas, Brasília tem uma tradição, até em razão das características que eu falei, de fazer viradas, que, inclusive, colocam os institutos de pesquisa em apuros. Eu diria que, hoje, está tudo indicando uma vitória em primeiro turno, mas pode haver alteração.

Marcone Formiga - Qual é o perfil, então, do eleitor do Arruda?

Adriano Cerqueira - Como ele conta com a preferência de mais da metade dos eleitores, ele pega o perfil do eleitorado brasiliense. Uma candidatura que se posiciona muito na frente, pega, praticamente, este perfil. O eleitorado do Arruda tem uma escolarização relativamente alta comparada com a média brasileira. Uma renda boa, também. Uma coisa interessante é que o eleitorado avalia bem o atual governo, que é o da Maria Abadia, só que a disposição de votar não é nela, é no Arruda. Esse é um dado curioso de Brasília. O governo é bem avaliado, mas o eleitor vê no Arruda o melhor candidato, provavelmente porque ele é mais conhecido e procurou evitar brigas e antagonismos com as principais lideranças. Pelo contrário, ele conseguiu fazer uma boa estrutura de campanha. O Arruda está, até o momento, em uma posição relativamente tranqüila.

Marcone Formiga - A provável eleição do Arruda significa o surgimento de uma nova liderança no Distrito Federal?

Adriano Cerqueira - Toda possibilidade de vitória no primeiro turno reforça muito o candidato. A provável vitória de Arruda já no primeiro turno vai lhe dar uma boa projeção nacional, ainda mais por ser na capital da República. Ele surge como uma liderança expressiva no cenário local com condições de influenciar no âmbito nacional, pela natureza dos partidos que o apóiam e pela boa margem de votação.

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