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Ano 10 - 30/09 a 06 de Outubro 2006
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Eleições

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Data de Publicação: 30 de setembro de 2006
Por: Paulo Castelo Branco
E-mail: pcbranco@brasiliaemdia.com.br


Joaquim transferiu seu título de eleitor, do interior de Minas Gerais, logo após as eleições municipais. Mantinha o domicílio eleitoral em sua terra natal para que, a cada dois anos, pudesse retornar e visitar a família. Desta vez, empolgado com o apelo das campanhas promovidas pela Justiça Eleitoral, decidiu não somente transferir o título como, também, se envolver com a eleição de algum candidato. Em Brasília, já vivia há mais de vinte anos e, sendo dono de um armazém, sabia que gozava de prestígio junto à comunidade e tinha condições para apoiar alguém que pudesse melhorar as condições de vida da região.

No início do ano, começou uma pesquisa sobre o perfil da pessoa que seria escolhida. Examinou o comportamento do mecânico Ernani. Nas quadras das redondezas, não havia quem não o conhecesse. Prestativo e cordato, o mecânico estava sempre disponível para buscar um carro enguiçado no meio do cerrado. Não havia chuva ou sol que impedisse o socorro. Em suas mãos nasceram mais de dez crianças, cujas mães pediam-lhe ajuda, sempre na madrugada. Era só bater nas portas de aço da oficina que Ernani se levantava, punha o macacão, pegava o carro que estivesse em condições e partia para o hospital levando a parturiente. Quando não dava tempo para o atendimento médico, o mecânico colocava em prática sua destreza e abria espaço para a chegada de mais um rebento. Quase todos eram seus afilhados.

Outro morador que chamava sua atenção era o Zé do Boteco. Este organizou o time de futebol, arranjou camisas do Milan para a equipe, e seis bolas oficiais. As crianças o adoravam, especialmente quando podiam participar das peladas no campo poeirento. Zé dizia que havia morado na Itália durante anos, na casa do avô. Segundo ele, sua família era da região da Toscana e ele possuía dupla cidadania. Quando estava no balcão do bar, contava histórias sobre os encantos da terra dos seus antepassados. Prometia aos garotos que estudassem e jogassem futebol com dedicação e espírito de equipe que, um dia, estariam fazendo parte dos grandes clubes europeus. Era um fazedor de sonhos.

O terceiro que mereceu atenção especial foi o dr.Nascimento, o dentista. O cirurgião era um galã; olhos claros, cabelos revoltos, estatura mediana e uma leve protuberância na cintura que o tornava digno de respeito. Atendia gente de todos os lugares, e não raro, apareciam no consultório uns graúdos e umas madames em carros importados. Dr. Nascimento praticava muitas ações sociais dando atendimento às pessoas carentes. Os vizinhos achavam estranho que um profissional daquele gabarito mantivesse consultório em local desprovido de clientela com recursos. Aos freqüentadores do bar do Zé, ele afirmava que não precisava de muita coisa para viver; havia nascido em família pobre e não fazia muito ao dedicar um pouco do seu trabalho àqueles desprovidos de meios para fazer tratamento dentário.

Quando chegou o momento dos registros de candidaturas, Joaquim convidou, isoladamente, cada um dos escolhidos para almoçar em sua residência. Expôs seu projeto e pediu que os possíveis candidatos falassem sobre suas vidas e seus sonhos. Ernani, o mecânico, disse que não tinha pretensão política e que não estava disposto a uma candidatura. Preferiu continuar com a missão de ajudar os outros sem querer nada em troca. O Zé do boteco afirmou que seu sonho era formar jovens jogadores de futebol e ser empresário dos garotos. Queria vender os passes dos que se destacassem e ficar rico, muito rico. Dr. Nascimento chegou a se interessar pelo apoio, mas ponderou que não bastava o apoio de Joaquim e da comunidade. Eram necessários recursos, muitos recursos, para que a candidatura se viabilizasse. Desanimado, Joaquim desistiu de ter um representante dentre seus vizinhos e decidiu apoiar, com a ajuda dos demais, um candidato à reeleição. O candidato, em troca do apoio, prometeu-lhe uma função de assessor no gabinete. Ele abdicou dos sonhos e aceitou.

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