Madonna - Quem te viu, quem te vê
Data de Publicação: 23 de setembro de 2006

A Madonna que se intimidou diante da rainha Elizabeth é a mesma que escandalizou a América com um clipe-pornô. Uma camaleoa que tanto posa como cortesã do século passado, como mete a mão no fogo para incendiar seu público.
Se Madonna - toc, toc, toc! - fosse homem, quem seria? David Bowie, o camaleão, tantos e variados lay-outs tem apresentado em todos esses anos de evidência?
E se fosse uma definição? Quem sabe diva do videoclipe, musa da geração aeróbica, clone de um mito sexual como Marilyn ou a porção feminina de um Mick Jagger?
Madonna agrada a homens e mulheres como mulher e como quem se quiser. Madonna - sweet lady Madonna - tem todos os tipos de crianças a seus pés.
E não é em função da música. Música, nesse caso, é o que menos importa, embora envolva o todo. Também não se trata de uma exímia dançarina (é competente, sem dúvida) ou da cabeça de alguma corrente do pop. A verdade é que Madonna é um tesão.
Ela tem seios lindos. Ela tem uma pintinha no canto da boca. Ela tem aquele rosto irresistível de pilantra, de garotinha que deu para todo mundo. Ela é adoravelmente vulgar, alguém para quem mordomo de novela das oito não hesitaria dizer que gosta mesmo é de uma boa sacanagem. Ela tem até aquele jeitinho de gatinha suburbana altamente atraente, disponível e disposta a tudo.
Em Madonna forma e conteúdo se casam sem contradição. Ela parece ser o que aparenta e aparenta ser como é. Quando estourou - lá por 83 - e ganhou seu primeiro milhão de dólares, comprou uma bicicleta de 10 marchas. Custou a realizar o que lhe tinha acontecido, embora sempre o tenha desejado.
Por outro lado, basta examinarmos seu clipe Justify my Love e sua frase final para entender que Dona Madonna sabe o poder que tem e tenta dar seus toques: "Pobre é o homem cujos prazeres dependem da permissão de outros." Moral de uma história em que ela se expressa radicalmente através da forma que a consagrou. No caso e necessariamente nessa ordem - física, clipe, erotismo e música pop.
Pouco importam as bobagens que ela canta. É pela imagem que Madonna ganha ouvintes para seu som e, principalmente, público para seus shows. Tente imaginar, se você ainda não viu...
Madonna surge com aquele jeitão definido há alguns parágrafos: gatinha, disposta, etc. No corredor de um hotel qualquer em Paris, inicia sua coreografia pop-pornô, se esfrega, se acaricia, vai abaixando e abre bem as pernas enquanto surge um rapagão de costas para o público, mas com o sexo bem à frente de sua boca. Noutra cena, ela é beijada na boca por outra mulher, ficam se roçando, cheiro no cangote, na maior safadeza. De enrosca em enrosca, quase se vêem seus seios, vê-se de tudo um pouco - e em movimento -, até sua calcinha de renda preta. Haja fôlego. Madonna talvez seja uma espécie de Cazuza-fêmea do Primeiro Mundo - exagerada.
Há alguns anos, durante um réveillon, ela abriu suas portas em Manhattan para uma meia centena de amigos, petit-comité, pode se dizer de alguém que está acostumada a transar com 60 mil pessoas ao mesmo tempo. Entre os privilegiados convidados de sua festinha, estava uma quiromante que delicadamente evitou sua mão, temendo uma overdose de leitura.
Evidente que a Cicciolina da pop music ficou com a cobra atrás da orelha. E encheu a mulher até ela revelar seu futuro: disse que Madonna não teria filhos, sua vida amorosa estaria fadada ao fracasso e sua própria carreira corria riscos. O suficiente para ser enxotada porta afora de baixo de apropriadíssimos impropérios. Madonna tem lá sua porção Elba Ramalho.
Mas Madonna não nasceu no agreste. Veio ao mundo na pátria-mãe das oportunidades. Um pé na Itália e os dois na América, dela fizeram uma self-made-woman capaz de autocrítica. Passado o mal-estar, o incidente e todo o resto, inclusive a festa, desabafou: "Esta mulher falou coisas que me fizeram pensar. Mas que jeito de começar o ano!"
Madonna Louise Ciccone nasceu há 31 anos na Pensilvânia. Seu pai era metalúrgico, a mãe, dona-de-casa, e ela - que traz de berço o nome artístico - tinha um sonho: ser bailarina. Foi atrás dele que, ainda adolescente, desembarcou em Nova Iorque sem um tostão no bolso e uma malinha na mão.
Era morena, bonita e gostosa. E foi na base do charme pessoal que descolou seu espaço na Grande Maçã. Sempre teve uma queda pelo pecado. No East Village, foi grafiteira, mulher para muito guitarrista e performáticos de um modo geral. Foi ali que posou nua e estrelou um filme pornô. Foi ali que começou a cantar e a dançar. Foi dali que partiu para o sucesso com uma rápida escala em Chelsea, numa danceteria onde empolgava, dançando, a estranha fauna que habita a noite nova-iorquina.
Os anos 80 mal se iniciavam. E apesar de transar na barra pesada do rock and roll, sem saída daqueles tempos, gostava mais de Donna Summer e dos Bee Gees que de pauleira. E quis fazer seu som por aí. Ah, a moça compõe.
Madonna surgiu dos palcos. Surgiu num momento em que as academias de ginástica sonorizaram os solitários exercícios para superação de adiposidades residuais de corpos humanos carentes. Na segunda onda dançante pós-John Travolta. Na retomada - revista e revisada - daqueles tolos tempos de embalos todas as noites. Já vivíamos uma era pós-cinema: a era do vídeoclipe.
E é aí que fica o X da equação. Se a Madonna é uma cantora muito mais ou menos, uma razoável dançarina, intérprete inexpressiva de versos médio-medíocres, qual o segredo de Madonna? Por que ela vende mais? Por causa do vídeoclipe. Ninguém mistura sensualidade e exuberante forma física com o ritmo do momento impunemente.
Exporte essa receita sintetizada pela via dos clipes e terás um - fugaz - mito mundial: Madonna. Mistura de Electra com a ereta de boa e saudável moça a fim de pecar, transar e gozar. Madonna é tanto a encarnação da liberada da cidade grande, como da gatinha angustiada que todos querem proteger. Ou ainda o anjo bissexual da beleza e a reencarnação de ícones sensuais da modernidade. Assim ela desaparece num vídeo procurando desesperadamente sua identidade feminina e surge noutro, ambiciosamente loura, na pele de uma Mariliyn Monroe estilizada, fatal Breathiess Mahoney imaginária, doida para ficar com um Dick Tracy qualquer.
Porque o cinema é hoje o que os quadrinhos foram ontem - estão por aí o próprio Tracy, o Batman, o Super-Homem, o Flash Gordon e o Indiana Jones para não nos deixar mentir - e os quadrinhos de hoje serão os sinais eletrônicos de alta definição amanhã. Mas isto é outro papo.
Madonna, essa sim, é a questão. Que no meio dessa clonagem toda, pode estar para o vídeoclipe como os Beatles e outros estiveram um dia para o compacto.
Seu disco de estréia vendeu três milhões de exemplares. No ano seguinte (84), seu Like a Virgin - auto-retrato? -sete milhões. A moça começava - e bota começava nisso - a viver no mundo material. Seria a Doris Day (and night) ou a Mae West (and east) do rock?
Ambas. E muito mais personagens do inconsciente coletivo americano médio e arrabaldes. Em 83 era a própria garotinha suburbana ressaltando suas - bem cuidadas - formas num figurino generoso e cantando num ritmo feito sob medida para o povo rebolar nas pistas de dança do mundo afora. Em 84 foi a vez de ser Marilyn em Material World, sucesso que bateu todos os recordes de vendagem de Michael Jackson (lembram?).
Em seguida houve uma pausa para a busca de uma nova identidade, Who’s That Girl, a musa magra, musculosa, malhada, que fez o corpo de incontáveis mulheres em 87. Dois anos depois já estava moreníssima, o que ressaltou sobremaneira a pintinha fatal, em Like a Prayer, um álbum recendendo a patchuli para exigir de um pai a liberdade de ter filhos, condenando por tabela o aborto e exaltando a condição de mãe solteira - que a cigana, no ano novo de dois invernos depois, descartou como possibilidade. No início destes anos 90 - como passa o tempo, mesmo para a popularidade - retomou a louridão, assumiu a maturidade como fêmea - Madonna aos 30 era de fazer felino ganir - e reencarnou a Marilyn desestabilizadora que habita desejos reprimidos de uma mídia órfã do tesão provocado pela original.
Uma jogada certa e precisa. A América - e por tabela o resto do mundo consumidor do ramo - carecia de uma darling assim. Mas quem era essa garota? Já não era mais. Antes uma improvável balzaca, que duas horas e meia de ginástica por dia e uma rigorosa dieta vegetariana transformariam numa Peter Pan de corpete, de indefinível faixa etária, que conjuga com seus esforços pessoais o interesse da mãe natureza em sua escultura.
Não nos lembraremos de Madonna por sua contribuição à música - pop e consumível, que seja - mas por sua inestimável participação nas fantasias do homem comum que um dia sonhou ter acesso à mulher do lado. Madonna não é - nem nunca pretendeu ser - a Teresa Stratas, mas sim a vizinha gostosinha que trabalha no Chorus Line da cidade e canta no chuveiro, cujo basculante dá direto para o banheiro da gente.
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