Estas crianças aprendem a matar
Data de Publicação: 2 de setembro de 2006
Um novo tipo de escola surge às dezenas, nos Estados Unidos, sob a alegação de que as armas existem para serem usadas... por todos
“Temos sempre um revólver em casa. Nossos cinco filhos brincam por toda parte e já ensinamos o mais velho, a manejar armas, para saber o perigo que representam e impedir os menores de pegá-la."
A afirmação é de uma mãe de família tipicamente americana. Vive em Nova Orleans e as coisas que diz lhe parecem banais, nada mais do que isso. O filho mais velho que ela cita tem 12 anos. Mas não parece nada embaraçado, quando está num stand de tiro, treinando. O grande Colt 38 cresce ainda mais nas suas pequeninas mãos. Da mesma forma que o capacete de proteção quase engole a sua cabeça. Ele é a imagem viva desses meninos americanos que as armas transformam, subitamente, em adultos, com todos os riscos criados pela familiaridade com as armas de fogo e a imaturidade.
Mas não são todos os americanos que apóiam atitudes como a dessa família de Nova Orleans. Tanto que o problema divide o país, assim como o do controle da venda de armas. Com o assassinato de John Lennon e os atentados contra o Presidente Ronald Reagan e o Papa João Paulo II, a polêmica reacendeu-se... da mesma forma que o índice de criminalidade, no país, também cresceu. Para os que são a favor do uso livre das armas, a filosofia é simples:
"Já que elas estão aqui, vamos usá-las."
Assim, para o garoto Brian Magouirk, 11 anos, de College Station, Texas, a realidade é essa:
"Sempre tivemos armas, em casa. Meu pai é colecio-nador. Sei atirar e conheço as regras de segurança do jogo."
Completa:
“Comecei com cinco anos de idade. Hoje, tenho uma carabina de 9mm para caça e um fuzil de ar comprimido para tiros de precisão."
College Station fica ao norte de Houston. Lá, há um quarto de século, o coronel de Cavalaria da reserva Sid Loveless transformou o seu rancho - Pleasant Acre - num campo de treinamento. Ali, as crianças das redondezas aprendem a se transformar em verdadeiros texanos: prati-cam a equitação, a vida ao ar livre e, sobretudo, o manejo das armas. O Coronel Loveless tem boas razões para justificar a existência da sua escola. Costuma contar a história de uma sobrinha de 14 anos que morreu quando brincava com um fuzil que julgava descarregado. Foi quando ele resolveu que era mais seguro, para as crianças, aprender a manejar as armas. E a respeitá-las.
“Em Pleasant Acre - diz ele - nós ensinamos o ABC do manejo das armas. Isso é indispensável nos dias de hoje”
As idades de seus alunos variam dos 10 anos aos 14 anos. Mas quase todos começaram a lidar com armas entre os 5 e 6 anos. O Pleasant Acre é apenas uma, entre muitas escolas do gênero, nos Estados Unidos. A publicidade para incen-tivar tais instituições se baseia em estatísticas como essas: um quarto das casas americanas contém um revólver. 2,5 milhões de revólveres serão vendidos no comércio, somente este ano. Mas apenas uma pequena porcentagem dos compradores sabe manejá-los. Uma coisa é certa: as crianças americanas adoram brincar nesse jogo de adultos. Muitas vezes mortal...
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