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Ano 10 - 02 a 09 de Setembro 2006
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INSENSATEZ

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Data de Publicação: 2 de setembro de 2006
Mais um crime passional abala Brasília: na noite do domingo, 27, mesmo divorciado da enfermeira Rosineide Martins da Silva, de 31 anos, o empresário Flávio Parente Macedo, de 56 anos, assassinou a ex-esposa, que recomeçava uma nova vida com o médico Fábio Henrique de Oliveira. Flávio, que tinha a chave da casa, aguardou o casal, que chegavam de uma viagem a Belo Horizonte, agredindo com um porrete a cabeça dos dois e depois alvejando-o com dois tiros no peito. Não houve discussões, tudo foi rápido e a residência do Condomínio Ville de Montagne, próximo ao Lago Sul, acabou transformada em mais um cenário nelsonrodrigueano, de um crime puramente passional.

Rejeitada pelo ex-marido, Rosineide foi agredida, teve dentes quebrados, recebeu pancadas no tórax e cortes nos braços e nas pernas. Como não acontece nem em filmes de Alfred Hitchcock, logo depois do crime ela e a filha de 15 anos foram trancadas em um quarto, depois de forçadas a colocarem o corpo do médico no Golf, que pertencia ao assassino.

Não foi o primeiro caso de um crime desse que traumatiza a sociedade. A questão que se coloca, agora, o que leva um homem, depois de separado continuar se equivocando, achando que é dono do corpo e da cabeça da ex-mulher. Em resumo: por que alguns homens se comportam como trogloditas, perdendo completamente a sensatez diante da frustração amorosa?

O que levou um jornalista respeitado, como Pimenta Neves, diretor de Redação do jornal O Estado de São Paulo, a disparar dois tiros contra a ex-namorada Sandra Gomide, que não concordava em reatar o romance? Pimenta Neves é mais uma vítima de uma síndrome que está aumentando no Brasil, preocupando criminalistas e psicólogos. Agora, com a prisão na Dinamarca de Marcelo Bauer, que assassinou a ex-namorada, Thaís Mendonça, aqui em Brasília, em circunstâncias parecidas, em 1987, o debate entrou na ordem do dia.

Fábio HenriqueA causa desses crimes é o ciúme, e o psiquiatra Antônio Mourão Cavalcante tem uma opinião firmada a esse respeito: o ciúme é uma paixão. Seguindo sua linha de raciocínio é possível compreender que ele tem os sintomas da paixão porque é cego, violento e pode tornar-se obsessivo. Além disso, ele costuma surgir quando o relacionamento é baseado na posse, o que é típico da paixão, e não uma relação pautada pela partilha, pelo amor. A pessoa sente ciúme quando imagina que seu parceiro é uma parte sua. A possibilidade de perda é que gera o ciúme.

Flávio Parente, 56 anos, acertou três pauladas na cabeça e dois tiros no peito do namorado da ex-mulher, o médico Fábio HenriqueComo se fosse dono do corpo e da cabeça da mulher, no caso de uma separação, alguns homens muitas vezes não conseguem recuperar-se. Mas a coisa é antiga, como ressalta o psiquiatra: “O ciúme está citado na Bíblia em várias situações. Sara, quando engravidou, depois da idade fértil, mexeu com Abraão. O caso clássico é o de Maria, quando contou a José que estava grávida. Foi preciso que o anjo explicasse o episódio para que ele voltasse a falar com ela. É possível encontrar também o ciúme em muitas obras de Shakespeare. Desde que existem o homem e a mulher, existe o ciúme. É da alma humana, não está ligado essencialmente a padrões culturais”.

Mas, afinal, o ciúme é ou não uma patologia? O psiquiatra não tem dúvida: “No sentido psiquiátrico, ele não chega a ser uma anomalia, mas um revelador de alguma patologia.

A questão que se coloca esses dias é única: o que leva o homem a matar, é o ciúme ou a paixão? O raciocínio do criminalista Waldir Troncoso Peres é claro: “Os homens mais apaixonados talvez sejam os mais incapazes de renunciar, são os mais ávidos no comércio afetivo de ter a prerrogativa de receber. Porque a vida é um grande comércio afetivo. Você gosta de quem gosta de você. Nos passionais obsessivos, o que vi mais foi a avidez de receber. Então, o que é o amor? Ele é o estado sublime de renúncia do ser para que o apaixonado se doe integralmente ao próximo, ou é o contrário, tem um sentido possessivo e é a avidez de absorção do companheiro. O problema da paixão é a obsessão”.

No caso do jornalista Pimenta Neves não falta quem compreenda seu gesto como uma espécie de suicídio moral, o que vem reforçar a tese do criminalista: “A característica da passionalidade está na autodestruição, na impossibilidade de viver sem o objeto amado. Tanto é assim que o homicida passional não foge. Fica no local para ser preso em flagrante. Essa é a regra”.

O advogado acha que existe uma linha divisória que diferencia aquilo que é crime do que não é crime, mas é abstrata. Isso porque o réu não sabe por que praticou o crime, o que o leva a considerar ser um dos grandes erros dos tribunais pretender saber do réu por que ele matou. Coisa que nem o assassino sabe.

Ressalta que fala-se do crime passional com um preconceito sórdido e hipócrita, mas que é preciso meditar sobre essa conduta humana, para daí verificar o que houve com piedade, compreensão e muita tolerância. “Existe ainda introjetada no espírito do povo a idéia de que o traído manso tem de matar. Então, quem pratica o fato obviamente tem uma estimulação que vem de dentro e vai para fora. Mas existe uma coadjuvação do lado de fora para dentro. Existe um comando social que determina que ele mate”.

Do alto de tanta experiência profissional, ele não deixa dúvida que o homicida precisa de muita paixão, e que a conseqüência é tão trágica, mas tão trágica, que, se o indivíduo não viver um tumulto interior muito grande, ele não mata. Porque ele sabe que será punido. E sentencia Waldir Troncoso Peres: “A passionalidade explode no crime porque ela se torna um estado de onipotência interior. Você passa a ser obsessivamente um homem que só pensa naquilo, não pensa em outra coisa. Traição. Essa única palavra é que faz o infortúnio do homem. Não tem ninguém que possa conviver com uma idéia só, com uma coisa atazanando a cabeça, de manhã, de tarde e de noite, na rua, conversando, falando. Essa é a aniquilação do homem. E isso vai até um epílogo que é o rompimento. Aí é uma coisinha mais, uma coisinha menos”.

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