Lula decola
Data de Publicação: 2 de setembro de 2006
Há exatamente um ano, quando a crise política do mensalão incendiava a ban-deira ética do PT e a promessa feita pelo presidente Lula, solenemente, em seu discurso de posse, de acabar com a cor-rupção ("O combate à corrupção e a de-fesa da ética no trato da coisa pública serão objetivos centrais e permanentes do meu governo"), seria impossível ima-ginar o que está acontecendo agora: além de outros escândalos que atingiram a es-pinha dorsal do governo petista, o presi-dente não apenas sobreviveu a toda a crise passada, mas decolou para con-quistar um segundo mandato, voando muito mais alto do que todos os seus adversários que levantam a bandeira da ética.
Na terça-feira, com o ar triunfal, o presidente Lula festejou com um grupo de assessores mais próximos o resultado de uma pesquisa do Datafolha demons-trando a sua superior performance na corrida para prorrogar por mais quatro anos sua permanência na Presidência da República: ele está com 50% das intenções de votos, enquanto o seu principal adversário, Geraldo Alckmin (PSDB), oscilou dois pontos para cima, ficando com 27%, e Heloísa Helena (PSOL) despencou de 11% para 10%. Para reforçar ainda a posição de favorito de Lula, na mesma terça-feira, o instituto CNT/Sensus apurava que ele lidera com 32 pontos de vantagem, o que significa uma grande distância dos seus adversários.
O que as duas pesquisas revelam, além da possibilidade de o presidente ser reeleito no primeiro turno, é que seus adversários, principalmente o tucano Alckmin, apostaram na força da tele-visão para reverter o quadro, e perderam. Como também deverão perder a disputa. O que o "Jornal Nacional" apresentou, na noite da terça-feira, foi um quadro praticamente definido, com difícil mudança, quando falta pouco menos de um mês para as eleições: 55% dos eleitores declararam não ter tomado conhecimento dos programas exibidos no horário eleitoral.
Traduzindo: o grande palanque, que poderia produzir o milagre de acabar com o favoritismo de Lula, simplesmente não funcionou. E, provavelmente, na reta final, também não fun-cionará.
Enquanto isso, o presidente se comporta e faz discursos como candidato reeleito, já pensando no dia seguinte ao que voltar a subir a rampa do Palácio do Planalto, em janeiro, depois de empossado pelo Congresso para continuar no gabinete principal do terceiro andar.
Percebendo que as urnas também são uma incógnita com relação à base parlamentar que terá a partir do segundo mandato, talvez prevendo que seu principal adversário, Geraldo Alckmin, usaria o ataque como a melhor defesa eleitoral, usando como munição os escândalos de corrupção que ocorreram no seu governo, tratou de se empenhar na eleição de parlamentares que o apóiam, tratou de colocar o combate à corrupção em seu programa de governo, lançado na terça-feira, mas debitando toda a situação atual ao governo de Fernando Henrique Cardoso.
Até porque está respaldado no favoritismo que as pesquisas indicam, ao apresentar o seu programa de governo não se deu sequer ao trabalho de apresentar metas importantes para o país, como, por exemplo, a segurança.
Ele sintetizou o que é sua estratégia, daqui por diante, para formar a opinião nacional, no sentido que o PSDB e o PFL têm como objetivo fazer prevalecer um discurso "com ênfase na ética, no crescimento ou no choque de gestão". Pretende desconstruir esse discurso demonstrando que não têm credibilidade política para dar consistência a ele.
Quando aborda os escândalos que sacudiram e ameaçaram o seu governo, o programa apresentado por Lula apenas se refere à necessidade de uma reforma política como uma das prioridades, mas, nenhuma referência sequer a respeito do mensalão, valerio-duto, Waldomiro Diniz, sanguessugas ou vampiros. Repete a mesma ladainha que o presidente usa em seus discursos.
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