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Ano 10 - 02 a 09 de Setembro 2006
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As atrações fatais do poder

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Data de Publicação: 2 de setembro de 2006
Por: Maria Helena Esteban

Tudo começa como segredo de Estado. Ministros com call girls, presidente com cunhada, candidato com enfermeira, secretário com atriz e até ditador com vedete. Mas, aos poucos, o que era bom - e excitantemente perigoso - vem à tona. A sujeira esbarra no ventilador e a farra acaba estampada nas páginas de jornais, revistas de fofocas e até na tela da tevê. Há verdades, meias-verdades e mentiras, mas nem sempre o desmentido conserta os estragos que a divulgação causou. O amor é bom, claro, mas pode dar uma dor-de-cabeça danada. O senador Antônio Carlos Magalhães é a vítima mais recente: foi acusado pela ex-amante Adriana Barreto de ter grampeado seu telefone e agora enfrenta problemas...

Dizem que o homem foi deposto do paraíso em um golpe de Estado dado pela serpente. O ardiloso animalzinho se utilizou de uma tentadora maçã e - é claro! - de uma mulher.

Naquela época, o status feminino era o de uma reles costela, mas, a partir de então, os homens descobriram que o buraco era mais embaixo e as relações nunca mais foram as mesmas. Nem o rumo de nossa história.

"O poder é afrodisíaco", disse um dia Henry Kissinger. O homem que foi assessor de segurança nacional e secretário de Estado americano não podia estar longe da verdade. Vez por outra, os poderosos são descobertos com a mão na cumbuca. E isto pode significar o fim de uma carreira política, ou, apenas, contribuir um pouco mais para o glamour que a cerca. Quando Franklin Delano Roosevelt disputava uma de suas reeleições para a Casa Branca, teve que frear seus assessores. Ocupados em provar que o candidato republicano, Wendel Wilkie, tinha uma amante, ouviram de Roosevelt: "Não espalhem isso, senão ele é capaz de ganhar a eleição". Entretanto, em 1980, o senador Edward Kennedy não teve a mesma sorte de Wilkie. Foi obrigado a desistir da campanha à presidência depois de dar uma escapadinha de fim de semana com a secretária Mary Jo Kopechne. O mesmo aconteceu com Gary Hart, oito anos depois, ao ser revelado seu romance com a atriz Donna Rice.

No entanto, o ex-presidente americano John Kennedy nunca fez nada para esconder o seu instinto de garanhão. Já durante a Segunda Guerra Mundial, quase foi expulso da Marinha ao se apaixonar por uma espiã nazista (apenas a primeira espiã de sua vida). Mais tarde, o fato nem chegou a influenciar sua candidatura e, em campanha para a Casa Branca, seguiu satisfazendo seu insaciável apetite. Kennedy, além de mulherengo, era supersticioso e usou como amuleto, na corrida presidencial, as call gir1s. A fórmula foi descoberta quase que por acaso. Antes de enfrentar o adversário Richard Nixon, em seu primeiro debate na televisão, contratou uma garota para transar. Kennedy se saiu tão bem, na tevê que nunca mais dissociou os dois atos. Em todos os debates que se seguiram, a tática política foi a mesma: uma call girl antes e, no lugar do cigarro, Richard Nixon.

Eleito, Kennedy voltou a repetir velhas receitas. Seu primeiro ato presidencial foi despachar sua mulher - a bela Jacqueline Kennedy - mais cedo, na noite da posse, e transar com uma moça que chorou quando ele foi embora. O jovem presidente parecia ter, mesmo, gosto pelo risco e, em plena Guerra Fria, teve um romance com uma alemã ocidental. O romance poderia ser, apenas, mais uma aventura se Ellen Fimmel Rometsch não fosse uma espiã e o caso não houvesse provocado a intervenção do procurador-geral americano. Para sorte de Kennedy, o procurador era um outro Kennedy - seu irmão Robert - que resolveu o que poderia vir a ser uma crise de Estado, expulsando a alemã dos Estados Unidos.

A intensa vida sexual do presidente daria um livro inteiro. Ele se utilizava do cunhado, o ator Peter Lawford, para chegar perto das estrelas de Hollywood. Foi assim que se aproximou de Marilyn Monroe e iniciou um dramático romance. Quando Kennedy se afastou, a atriz se afundou em depressão, álcool e drogas, ameaçando tornar pública a relação dos dois. Mais uma vez, o irmão Robert entrou em cena. Só que agora com uma deliciosa solução: para acalmar os ânimos da atriz, passou a ter, também, um romance com ela. Mas nada parecia estar errado. Afinal, muito antes deles, e em diferentes pontos geográficos, milhares de poderosos haviam bebericado livremente na taça de Afrodite.

O Rei Salomão governou Israel entre os anos 973 e 933 antes de Cristo. Nestes 40 anos de poder, teve 700 esposas e ainda encontrou tempo - e fôlego - para inúmeras amantes. Em Roma, Nero imperou por 14 anos e ficou famoso por transar com meninos, mulheres dos outros e virgens vestais. Porém, sua atitude mais ousada foi não só casar com seu amante de plantão, Sporus, como nomeá-lo a Imperatriz de Roma.

A aristocracia francesa, às vésperas da Revolução, ocupava seu ócio com divertidos jogos amorosos. O livro Les Liaisons Dangereuses, escrito em 1782 por Choderlos de Laclos, investigava estes hábitos. "Espero ter escrito algo que ainda vai ser lido quando eu não estiver mais aqui", escreveu Choderlos. E não deu outra. Ligações Perigosas foi transcrito livremente para o cinema, em 1959, e transformado em peça teatral, em Londres, em 1985. Os hábitos libertinos do Visconde de Valmont e da Marquesa de Mertuil seguiram encantando e, em nossa década, uma nova versão cinematográfica se transformou em um grande sucesso de bilheteria.

Por aqui, o nosso Imperador Dom Pedro I entrou para a história por ter gritado "Independência ou morte!", às margens de um rio, e por ter sussurrado juras de amor aos ouvidos de muitas mulheres. Sua amante mais famosa foi Domitila de Castro e Canto e Melo, transformada em marquesa de Santos por seus favores amorosos. Pedro I nomeou-a primeira-dama do Paço, construiu para ela um palacete e reconheceu os quatro filhos que tiveram juntos, escandalizando a Corte. Sem esconder sua voracidade, nas cartas que escrevia a Domitila, se auto-intitulava demonão ou fogo-foguinho. O fogo que tomava conta do casal chegou a inspirar historiadores a estudarem a vida da marquesa e a importância histórica do relacionamento, como Pedro Calmon, que declara: "Domitila foi a inspiradora brasileira, a testemunha sentimental de sete de setembro. A teatralidade do gesto do imperador foi inspirada no amor por aquela jovem brasileira, porque ele a conheceu a 29 de agosto e proclamou a Independência a sete de setembro, em frente à casa dela". Porém, nosso Dom Pedro não estava preocupado em deixar margens a interpretações heróicas. Sua paixão costumava inspirar atitudes bem mais vulgares, como os versos que escreveu à amada: "Para quem, com amor / me prende e por ele é preso, e será / este lindo passarinho canta,/ brinca, pica e fura / mas, quando torna a repicar,/ é mais doce a pica dura". Este amor de passarinho, no entanto, não impediu que o imperador tivesse um filho com a Baronesa de Sorocaba, irmã da Marquesa de Santos.

Paixões imperiais sempre despertaram profundo interesse nos súditos. E a ira da realeza. O Rei Eduardo VIII teve que renunciar, em 1936, ao título de rei da Inglaterra e imperador da Índia, por amor a uma plebéia. A eleita foi Wallis Simpson, uma americana, nada bonita, filha ilegítima e duas vezes divorciada. O rei passou a se intitular Duque de Windsor e a duquesa teve sua vida devassada em livros e artigos. Wallis era apresentada como amante do Marechal Ribentrop, da Alemanha nazista; mãe de um filho do ministro da propaganda do governo Mussolini; espiã nazista e da KGB; lésbica e ninfomaníaca. A versão de que Wallis teria sido prostituta em Xangai (China), onde aprendera maravilhosas técnicas sexuais, deve ter feito com que muitas mulheres sonhassem em conseguir um estágio no mesmo prostíbulo para poderem exercer o mesmo domínio sobre os homens. A relação íntima do casal chegou a despertar o interesse de estudiosos. O historiador Philip Ziegler conta que Eduardo VIII era um sadomasoquista, que adorava ser maltratado e subjugado por Wallis.

Depois de Eduardo VIII, a vida sexual da família real britânica nunca mais foi a mesma. A princesa Anne foi acusada, em 1985, de ampliar os poderes de seu guarda-costas e passear com ele de mãos dadas nos jardins do palácio. Quatro anos depois, algumas cartas apaixonadas foram roubadas de seu escritório no Palácio de Buckingham. Só que o remetente não era nem seu marido, Mark Phillips, nem o famoso guarda-costas. As cartas haviam sido remetidas por Timothy Laurence, o fiel - ou nada fiel - escudeiro da rainha. O caso acabou na polícia, enquanto os jornais noticiavam um relacionamento entre o marido da princesa e a ex-Miss Índia, Pamella Bonders. Como se não bastasse, Pamella era acusada de ter ligações com o serviço secreto líbio e de se prostituir dentro da Câmara dos Comuns.

Nem a angelical Diana escapou dos bochichos imperiais. Os jornais ingleses davam como certo seu envolvimento com o cunhado, príncipe Andrew, casado com Sarah Ferguson. O major da cavalaria James Hewitt contou, no livro A Princesa Apaixonada, que teve um caso com Diana durante cinco anos. Embolsou US$ 4,5 milhões dos editores. Acusa-se, também, um outro príncipe, Edward, de ser namorado do ator Michael Bali. Em meio à vida - nada anglicana - da realeza britânica, não é de se estranhar que o príncipe Charles desejasse sumir - nem que fosse em meio ao esgoto - e confessasse, em uma provocante conversa telefônica com sua amante, Camilla Parker-Bowles, que desejava ser um tampax.

Mas, enquanto a família real se divertia entre os muros palacianos, oito parlamentares conservadores tiveram seus segredos de alcova revelados. Primeiro caiu o ministro do Patrimônio Nacional, David Mellor, por ter um caso com uma atriz desempregada que passou a cobrar US$ 700 cada vez que abria a boca para falar. Depois, foi a vez do secretário de Transporte, Steven Norris, que conciliava o casamento com cinco amantes. A performance sexual dos políticos ingleses culminou com a morte do deputado Stephen Milligan, em fevereiro deste ano. O solteirão mostrou que não tinha nada de conservador na hora da transa. Foi encontrado morto em seu apartamento, usando meias de seda e cintas de couro.

Na história sexual de Westminster, o caso Profumo foi o que teve maior repercussão, abalando o trono inglês, na década de 60. O todo-poderoso ministro da Guerra John Profumo se envolveu com a show girl Christine Keeler. Por sua vez, Christine também saía com o adido naval da embaixada soviética em Londres, Eugene Ivanov. A show gir1 foi acusada de passar informações secretas ao diplomata e John Profumo teve que renunciar, não só ao cargo de ministro, como ao de primeiro-ministro, para o qual estava fortemente cotado.

Em 1988, foi a vez da Grécia se render às paixões de seu primeiro-ministro, um sóbrio senhor de 70 anos. Sóbrio, até conhecer a aeromoça Dimitra Liani. Por ela, Andreas Papandreou perdeu a sisudez e o cargo. O fato de Papandreou ser casado não impediu que escalasse a amante, com a metade de sua idade, para o papel de primeira-dama. Como se não bastasse, a paixão fez com que o primeiro-ministro cometesse grandes gafes: em um dia que deveria participar de uma cerimônia, em benefício das vítimas de um terremoto, foi flagrado velejando, em um luxuoso iate, com a amante. A descoberta causou tremores e veio a inevitável renúncia, enquanto nas ruas de Atenas circulava uma nova piada: Papandreou havia inventado uma posição erótica, não prevista no Kama Sutra: a de fazer amor com o pé na cova.

A história de nossa república também é farta em histórias amorosas. Muito antes da invenção da indiscreta antena parabólica - que derrubou o ministro Ricupero -, um simples perfil de mulher já era capaz de balançar a economia. Na virada de nosso século, durante o governo Campos Salles, o ministro Joaquim Murtinho ficou famoso por sanear as finanças com a política do encilhamento. E caiu do cavalo ao ser acusado de mandar imprimir na nova moeda o perfil de uma amante. Depois que Joaquim Murtinho perdeu o cargo, restou a dúvida se a mulher de capacete, escudo e lança, que aparecia nas notas, era a famosa prostituta Senhora Prates, ou a sobrinha e amante do ministro, Laurinda Santos Lobo.

Até o recatado Getúlio Vargas, que manteve a fama de homem caseiro, saçaricava por um belo par de pernas. Quando o presidente concedeu a Virgínia Lane o título de Vedete do Brasil, tinha um conhecimento muito mais profundo sobre a matéria do que supunha o eleitorado. Getúlio e Virgínia foram amantes durante 15 anos sem despertar a desconfiança de ninguém. O romance só terminou com o exílio de Vargas do poder, entre os anos 45 e 50. Mas a vedete e suas pernas continuaram em atividade e, em 1950, foi a vez do deputado Barreto Pinto perder não só as calças como o mandato por elas. Apaixonado por Virgínia e pelo teatro de revista, no dia da estréia de O Mundo de Cuecas, o deputado resolveu participar do show, no improviso, entrando em cena de fraque, cartola e cuecas.

O ex-presidente Jânio Quadros, quando se sentia atraído por uma mulher, perguntava a seus assessores: "Quem é aquela compatriota?" Este era o mote para que seus homens entrassem em ação. O maior adversário de Jânio na política paulista, Adhemar de Barros, não ficava atrás em suas armações amorosas. Durante anos teve como amante Ana Capiglione, a quem, por discrição ou sabe-se lá se por alguma fantasia erótica, passou a chamar de Dr. Rui. Ana - ou Dr. Rui - teve enorme influência no governo de São Paulo e nomeou, pelo menos, dois secretários de estado. Era ela, também, quem administrava a famosa caixinha de Adhemar e o romance rendeu dividendos. Em 1970, quando um grupo de guerrilha urbana se apoderou de um dos cofres de Ana, lá estava o equivalente a mais de US$ 10 milhões!

Provavelmente por causa da rigorosa censura, os presidentes militares não protagonizaram nenhum escândalo sexual. Mas o general João Figueiredo quebrou esta tradição. Figueiredo deu um chute na trave ao pedir que um amigo telefonasse para Xuxa - em início de carreira - e a convidasse para fazer um programa. A modelo e seu então namorado, Pelé, ficaram indignados. Só que o contra-ataque do jogador foi mais certeiro. Pelé procurou a imprensa e deu uma declaração a favor das eleições diretas.

Em uma nova campanha presidencial, o Brasil pôde comprovar a força de um escândalo. No segundo turno de 1989, o empate técnico entre Collor e Lula foi decidido pela assistente de enfermagem Mirian Rosas. Bastou a ex-namorada do atual presidente declarar na televisão que tinha uma filha com o candidato e que ele quis abortar a criança. A ira do depoimento de Mirian reverteu até as expectativas dos institutos de pesquisa IBOPE e Vox Populi - contratados por Collor - que já indicavam Lula como presidente.

Mas foi com a República de Alagoas que o país redescobriu o sabor folhetinesco da vida íntima dos poderosos. Boatos corno o do romance entre Fernando Collor e a apresentadora Marília Gabriela, e os choramingas públicos da primeira-dama - enquanto o presidente aposentava a aliança - viraram notícia, em todos os jornais.

O ritmo de quadrilha desapareceu quando Collor deixou o poder. Mas o ar mineiro de seu sucessor, Itamar Franco, não resistiu ao baticum do carnaval do Rio de Janeiro. Entusiasmado com a destaque Lilian Ramos, que, desfilando com os seios à mostra, lhe mandou beijos, Itamar resolveu receber a modelo em seu camarote. E acabou protagonizando a mais pitoresca foto da história de um presidente. Foi imortalizado ao lado de uma foliã sem calcinhas. O fato ganhou destaque na imprensa nacional e internacional e uma música da dupla sertaneja Itamar e Itapior. A dupla, interpretada pelos irmãos Chico e Paulo Caruso, passou a cantar: "Ai que dor-de-cotovelo / a linda modelo na Sapucaí / Tem perfume nos cabelos / pastelzinho de pêlo / só eu que não vi".

O deslize presidencial, apesar do rebuliço que causou, não chegou a balançar o Planalto. Afinal, lá por volta de 1500, uma encíclica papal já perdoava, com uma sentença que ficou na história: "Não existe pecado ao sul do Equador".

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