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Ano 10 - 02 a 09 de Setembro 2006
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HABILIDADES

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Data de Publicação: 2 de setembro de 2006
Por: Paulo Castelo Branco
E-mail: pcbranco@brasiliaemdia.com.br


A oficina era famosa. De todos os cantos da cidade apareciam clientes pedindo a Afrânio uma opinião sobre algum problema na motocicleta. O mecânico já havia passado dos 50 anos, mas mantinha aparência jovial. Ainda criança aprendera com o avô a desmontar e montar motores de motocicletas. A primeira vez que consertou sozinho um motor, foi de uma mobilete que ganhara de um tio. A máquina chegara às suas mãos completamente desmontada, com as peças enferrujadas, e necessitando de quase tudo para funcionar.

No fundo da oficina, arranjou um espaço e iniciou o trabalho. Como num quebra-cabeça, foi colocando peça por peça sobre uma mesa e procurando encontrar o local adequado para cada parafuso ou porca. Em quinze dias ele já circulava pelas redondezas com a geringonça.

O avô, orgulhoso com o sucesso do neto, o encarregou de desmontar um motor mais sofisticado: um Halley Davisson. Afrânio não se intimidou. Usou o mesmo método da mobilete, só que dessa vez possuía um manual de fábrica com a descrição minuciosa da preciosidade. Ao final de dois meses, o motor funcionava com perfeição. Foi assim que Afrânio ficou conhecido pelo apelido de Halley.

Não havia motor de motocicleta que, da oficina, não saísse perfeito. O avô se foi desta para melhor e deixou de herança não somente a loja, mas todas as ferramentas e equipamentos. Halley transformou o local num misto de oficina, bar e ponto de encontro de motoqueiros. Quem desejasse saber sobre os últimos lançamentos mundiais bastava se filiar ao clube, pagar uma pequena taxa mensal e ter acesso, inicialmente, a livros e revistas; depois, com a tecnologia moderna, a vídeos projetados num imenso telão de última geração. O investimento era alto, é a casa vivia cheia até às 21 horas, quando se encerrava o expediente.

Halley, além de dinheiro, ganhou fama. Casou-se e teve filhos, os quais não podiam chegar perto da oficina. Halley dizia que os filhos deveriam estudar para terem um futuro melhor. Os amigos achavam graça daquele mecânico de sucesso não querer que os filhos seguissem sua profissão. Halley respondia, vaidoso, que ele era único e assim não teria herdeiros na oficina. A família ficava fora dos negócios.

Numa ocasião, Halley desmontava o cabeçote de uma moto quando entrou na oficina o mais famoso cardiologista da cidade. O médico se postou ao lado do mecânico e ficou observando sua habilidade. Halley nem olhava para os lados. Como se estivesse em uma sala de cirurgia, pedia aos auxiliares as ferramentas de que necessitava para concluir o trabalho. O cirurgião acompanhava a operação com interesse. O mecânico dá ordens:– Joca, passa aí o alicate de ponta e um pedaço de estopa. Destravada uma peça, as próximas se deslocam com facilidade. Coloca cada uma sobre um mapa e anota a situação de desgaste do parafuso que sustenta o conjunto. Quando estão todas as peças devidamente lixadas e recompostas, Halley inicia a montagem. Em minutos o motor está pronto para funcionar. O ronco sai forte e seguro. O motor está em condições de voltar à motocicleta. Os clientes quase aplaudem o serviço.

Halley observa o cirurgião que está encantado com a destreza e eficiência do mecânico. Com o rei na barriga, Halley se vira para o médico e indaga: Doutor, posso lhe fazer uma pergunta? Claro, responde o cirurgião. O senhor viu que pego um motor, abro o seu coração, tiro válvulas, conserto-as, ponho de volta no lugar, fecho e, quando termino, ele volta a funcionar como se fosse novo. Por que é que eu ganho menos do que o senhor, se nosso trabalho é praticamente o mesmo? O cirurgião sorri e diz ao pé do ouvido do mecânico: Tente fazer isso com o motor funcionando...

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