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O ódio como herança

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Data de Publicação: 26 de agosto de 2006
Por: Jonathan Freedland

A sensação no jardim do restaurante central de Beirute era de uma certa languidez naquela quarta-feira à noite, horas depois de o Hezbollah ter atacado alguns soldados israelenses, desencadeando a atual crise. Estávamos em uma mesa de cristãos e muçulmanos falando sobre o estilo de vida libanês, com frases que começavam em francês, continuavam em árabe e acabavam em inglês.

Para as pessoas em Beirute e mais ao norte, a violência no sul parecia algo bem distante durante a última década de recuperação e acomodação política. Mas quando o telefone de alguém tocou, trazendo a notícia de que o governo israelense autorizara ataques a qualquer infra-estrutura libanesa, todos nós silenciamos. Esperavam-se ataques contra alvos do Hezbollah, porém o bombardeio de áreas cristãs, como Jamhour, Beirute leste, Jounieh e Batroun, deixou os libaneses irados - e unidos.

O contraste com o início da guerra civil no Líbano, em 1982, é surpreendente. Naquela época foram grupos palestinos que lançaram ataques, bombas e mísseis contra Israel. Quando os israelenses reagiram, atacando o Líbano, os grupos cristãos perderam a paciência com esses novos hóspedes, seus partidários muçulmanos e facções de esquerda. Mas agora Beirute está repleta de refugiados, principalmente muçulmanos do sul do país, gente que está sendo bem acolhida até mesmo nas igrejas.

Um grande empregador do centro de Beirute, que espera ter de lidar com tensões entre seus funcionários, diz que nunca viu nada parecido. O cardeal maronita (cristão) Nasrallah Sfeir, e políticos de todos os grupos, formaram uma frente unida. Até o primeiro-ministro libanês, Fouad Siniora, muçulmano sunita, dizia que as ações do Hezbollah faziam parte da Al-Mukawamah (a resistência).

Quando ficou claro que o assalto israelense não seria breve ou discriminado, Ibrahim, um sunita culto, disse-me que “eu me recuso a ter um vizinho selvagem como esse. Israel pode estar abalado com as ações do Hezbollah, mas veja o que estão fazendo conosco. Não há comparação. É inaceitável”.

Charles, banqueiro maronita, típico representante da elite empresarial cristã e urbana do Líbano, praguejava contra o Hezbollah no início dos ataques. 'Espero que, pelo menos, peguem Nasrallah", dizia, referindo-se ao líder do grupo. Porém, depois do massacre de civis que fugiam, em Marwaheen, ele começou a mudar de opinião. "Israel está agindo de forma desigual. Querem nos destruir. Eles nos odeiam. Não suportam o fato de que somos uma sociedade cosmopolita com diferentes comunidades, tão sofisticadas quanto eles e que convivem entre si”, disse. Com o ataque, o Hezbollah quebrou uma trégua que já durava sete anos, mas quando ficou clara a amplitude da resposta israelense, as acusações se concentraram em Israel, mesmo no caso daquelas pessoas da elite normalmente hostis ao Hezbollah.

Num país com 17 seitas religiosas, onde as lembranças da guerra civil continuam vivas e a vida econômica, social e política ainda é dominada pelas fissuras entre xiitas (32% da população), cristãos maronitas (23%), sunitas (20%), católicos melquitas (11%), drusos (6%) e uma grande parte de refugiados palestinos, essa união constitui um avanço positivo e raro. Mas, nas dificuldades econômicas que deverão surgir depois dos bombardeios - o setor de turismo do Líbano, por exemplo, afundou - essa nova unidade poderá se mostrar efêmera.

Existem limites estritos ao apoio que o Hezbollah conseguirá fora da sua base xiita do sul. Mesmo antes desta última catástrofe, já havia uma frustração com o fato de o grupo não ter conseguido contribuir para uma reforma política significativa. Seu apoio à saída das tropas sírias do Líbano, no ano passado, foi frio e falso. E são poucos os libaneses, de qualquer crença, que não admitem que o Hezbollah recebe dinheiro, armas, treinamento e, com freqüência, ordens da Síria e do Irã. Os antigos temores quanto aos motivos e os financiadores do Hezbollah com certeza retomarão quando se chegar a um novo cessar-fogo.

O Hezbollah concordará em se desarmar em troca de prisioneiros e dos vilarejos de Sheeba ocupados no sul? Este era o rumor que corria em Beirute poucos dias depois do início dos bombardeios, com base nas respostas de Israel a atos similares praticados pelo grupo no passado. Apesar de toda a eficiência das forças armadas israelenses, o Hezbollah é o único grupo que venceu uma guerra contra Israel, empurrando os israelenses para fora do sul do Líbano, em 2000. Aquela guerra, que durou mais de 20 anos, é considerada por muitos o "nosso Vietnã", em Israel. Porém, a ênfase que os israelenses estão dando aos bombardeios à distância não conseguirá destruir o Hezbollah.

Muitos daqueles que, como nosso amigo banqueiro maronita, estão surpreendentemente a favor do Hezbollah, também rezam para que sua capacidade militar saia enfraquecida desta guerra. O que ajudará a deixar a política libanesa mais equilibrada (o exército libanês e as outras milícias estão ofuscados pela guerrilha). Neste conflito, o grupo conquistou a admiração em locais nunca imaginados - especialmente por ter afundado um navio de guerra israelense). E uma retira agora não representará uma humilhação doméstica.

Já pressionados em outros aspectos, a Síria e o Irã não estão dispostos a ceder sua carta na manga, que é o Hezbollah. O sul do Líbano oferece uma frente muito tentadora para semear intrigas envolvendo todas as partes no conflito. Portanto, surge a pergunta: o Hezbollah é leal a uma política libanesa nacional ou a uma perspectiva mais sectária? Será o Líbano parte de um jogo brutal mais abrangente? Beirute espera nervosamente por uma resposta.

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