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ALAIN DELON - Um rebelde com causa

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Data de Publicação: 26 de agosto de 2006
Por: Frederico Musso e Elisabeth Ghavelet, Paris Match

Paris - O francês que foi amante das mais lindas mulheres do mundo, agora com 66 anos, manifesta sua posição contra os americanos, que, segundo ele, se opõem a uma Europa unida, têm medo da China e tudo que possa ameaçar sua hegemonia. Em 1958, quando fez Christine com Romy Schneider, os dois eram jovens, bonitos e vibrantes. Acabaram mergulhando nas delícias de uma paixão tumultuada e cheia de lágrimas. Agora, pai dos pequeninos Alain-Fabien e Anoucka, Delon não é mais aquela fúria. Ainda assim um paparazzo o flagrou recentemente num bosque suíço em cenas de sexo quase explícito com a sua mulher, a linda Rosalie (30 anos mais jovem). Nesta entrevista, ele se declara de direita e abre o coração - a favor de poucas coisas, contra quase tudo. Principalmente contra a Inglaterra (“quer isolar-se contra a humanidade”), os Estados Unidos (“continuam colonizando o mundo”), a moda (“é pura exploração”) e muitas outras coisas mais. O velhinho merece ser ouvido. Confira.

Os políticos têm um projeto verdadeiro para o nosso país?

Sinto que se trata mais de administrar a loja França. Um sonho acabou. Se nosso país não tem mais o papel que deveria representar, os responsáveis são os políticos. A única coisa que lhes interessa é agarrar o poder e o conservar. Quando os socialistas chegaram, falou-se: “Vão ficar dois meses”. Ficaram 14 anos. E o presidente Mitterrand morreu. Chirac chegou. E estamos repartidos por uma segunda e longa coabitação entre direita e esquerda. Para mim, que sou de direita, é lamentável. Tudo está submetido ao puro eleitoralismo. Façamos nossas contas. Há uma boa proporção de franceses de direita que votam na Frente Nacional para protestar... É matematicamente impossível que a França tenha, um dia, um novo governo de direita. Os socialistas estão aí por longo tempo.

Recentemente, o semanário Newsweek elegeu o primeiro Ministro Tony Blair como o homem europeu do ano. O que isto lhe parece?

Para falar a verdade, eu não gosto muito da Inglaterra, um país que sempre quer se distinguir da Europa e dos seus vizinhos. Os ingleses dirigem pela esquerda, enquanto todos os outros dirigem pela direita. Quando todo o mundo muda de hora, eles conservam uma hora de diferença. Demarcar-se assim não é necessariamente um sinal de inteligência... Estão cansados de dizer que Paris não é mais a cidade-luz, e sim Londres; que Paris não é mais a cidade da noite, e sim Londres. São modismos passageiros. Tony Blair, o homem do ano? Isto me impressiona tanto quanto dizer que a mulher européia do ano é Claudia Schiffer. Eu me habituei a ser o homem disso ou daquilo... O que Tony Blair fez de excepcional? De fato, o que me importa é a herança que ele deixará.

Você é europeu?

Sem dúvida, porque sou profundamente antiamericano, devido ao equilíbrio de forças. Os americanos fazem tudo para se opor à Europa unida, da mesma forma que têm medo da China, do continente asiático, de Hong Kong, de tudo que possa ameaçar sua hegemonia. É neste sentido que sou pela Europa. Unidos assim, seremos tão fortes, se não mais fortes ainda que os americanos. E evitaremos ser colonizados pela Coca-Cola, pelo McDonald's, pelo Burger King e pelo James Bond 007.

Você é um amante da arte esclarecida. Hoje em dia, onde se encontram, na sua opinião, os talentos?

Não existem fronteiras para os talentos. Não existe a capital da arte no mundo. Existem apenas mercados. Como colecionador, eu lastimo o desaparecimento do desenho. Os pintores não desenham mais, pois se exprimem diretamente sobre a tela pelo gesto, pela espontaneidade. Mas não esqueçamos que na França há grandes talentos, como Soulages, Estève, Olivier Debré... Sem deixar de lado o francocanadense Riopelle.

Você amou as mulheres mais bonitas do mundo. Por qual grande costureira você gostaria de vê-las vestidas?

A moda é tudo o que sai de moda. Amo as coisas simples, belas, femininas, clássicas. Nunca vi na rua uma mulher vestida como nas passarelas. E portanto, nada entendo desses novos costureiras vindos de Londres. Este não é o meu truque. Compreendi há muito tempo que, na moda, uma maioria de imbecis é explorada por uma minoria de oportunistas. Cada um faz a sua parte.

A revolução da informática, a multimídia, a Internet e novas tecnologias lhe interessam?

Pessoalmente, nem estou aí. Olho sobre os ombros dos meus filhos, Para eles, a Internet, os computadores são primordiais, porque são o mundo de amanhã. Sou conservador, voltado para o passado. Como me resta pouco tempo a viver, prefiro ficar no meu mundo do século 20.

Você assiste à televisão?

Não, e nem os meus filhos.

Você acha que a violência na televisão explica em parte a dos subúrbios?

Certamente. Quando os garotos voltam da escola, o que vêem na televisão? Vêem que tudo é fácil com um revólver. Vêem os traficantes dirigindo Mercedes. Vêem o dinheiro fácil. Há outros grandes responsáveis por esta violência. O primeiro é a família, porque as crianças são o que os pais fazem. Ora, muitos desses pais são violentos. Há também a escola. Me disseram que Anouchka e Alain-Fabien desrespeitam seus professores. Para mim, isto é grave. Não há mais respeito pelos professores. A Igreja também é responsável. Como você quer que se respeitem pessoas em roupas de três peças e com cabelos compridos? Um padre que é vestido por Cerruti? Desmitificando o ritual sagrado, a liturgia, a Igreja se enfraquece. Ao mesmo tempo, existem as cruéis responsabilidades na África e no Sudeste Asiático, devido à proibição do aborto. Uma taxa demográfica muito forte, que fabrica os desvalidos, os delinqüentes, as vítimas da AIDS.

E quais são os seus remédios?

Se eu disser, vão me chamar de fascista, reacionário, careta. Para mim, o remédio é ensinar aos meninos os sentimentos de dever, de honra, do respeito a si mesmo e ao outro, à palavra dada, ao sentimento de pátria. Você não notou que estas palavras desapareceram do nosso vocabulário? E, mais ainda, a palavra caráter. Antes, dizia-se que tal pessoa tinha bom ou mau caráter. Hoje, o conceito não existe mais. Considero a vida como um jogo. E não existe jogo sem regras. Há os policiais e os delinqüentes. Escolhe-se um campo. Se um policial morre, é seu trabalho. Um delinqüente cai, é seu trabalho. O que se faz, paga-se. Vai-se para a prisão, sem choro. Foi o que aprendi na Indochina. O comandante nos dizia: “Tudo é permitido, menos ir para a cadeia”. Fiz coisas que me valeram 11 meses de cadeia. Não chorei. Era a regra do jogo. Quando Carlos (O Chacal) matou dois policiais, ninguém chorou nem desfilou. O jogo continua. Ele não chora. Sabe que tem de pagar. Se a pena de morte ainda existisse, faria parte do jogo dele. Há bombeiros piromaníacos, padres pedófilos e ministros corruptos.

Que carreiras você sonha para os seus filhos?

Não sonho nada. Eles são suficientemente grandinhos para terem seus próprios sonhos. Minha única meta é dar a eles as melhores; oportunidades, possíveis, antes que o campo se estrague. Não há nada mais lindo que a inocência, é a coisa mais bela do mundo, a que mais importa. Minha filha Anouchka tem anos. No ano passado, ela ainda acreditava em Papai Noel, apesar das gozações dos colegas de escola. Este ano, isto acaba...

A Justiça mandou examinar o corpo de Yves Montand para fazer um teste de DNA. O que você pensa disto?

É ignóbil. Me deu vontade de deitar na sepultura dele para impedir aquele horror. Vai-se criar um precedente, uma jurisprudência. Quem garante que não vai acontecer-me o mesmo, daqui a uns 20 anos? Gostaria de ter certeza de que, depois de enterrado, não viessem me perturbar. É meu direito.

Para evitar uma coisa destas, existe a cremação.

Nenhuma lei me obriga a isto. Será minha escolha, como a de Jean Gabin, cujas cinzas foram espalhadas no mar. Eu estava a bordo... Veja o absurdo: para que ninguém toque meu corpo, serei obrigado a pedir que me queimem!

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