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Ano 9 - 13 a 19 de Maio 2006
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J'Accuse

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Data de Publicação: 13 de maio de 2006
Documento

Enquanto em Brasília os homens públicos mentem e se desmentem, a França ainda hoje reverencia Émile Zola por ter publicado J'Accuse (Eu Acuso), uma cartamanifesto que caiu feito uma bomba sobre a Europa e faz despertar a consciência da humanidade pela verdade.

Foi o maior ato revolucionário do século!", disse o líder socialista francês Jules Guesde, alguns dias após a publicação do artigo de Émile Zola, o escritor mais conhecido da época, na edição de 13 de janeiro de 1898 do jornal L'Aurore. Na véspera, o capitão de origem judaica, Alfred Dreyfus, havia sido condenado à morte pelos crimes cometidos por outro capitão, Ferdinand Esterhazy, que entregara segredos militares da França à Alemanha.

Indignado, Zola escreveu uma carta aberta ao presidente da República da época (Félix Faure). Aos 58 anos de idade, o escritor arriscava o seu prestígio em nome do triunfo da verdade. Para mobilizar a opinião pública, era preciso chocar e denunciar os preconceitos que levaram ao erro: o patriotismo equivocado, o militarismo cego, o clericalismo, o antisemitismo e a indiferença de alguns intelectuais.

Um momento de consciência humana. A análise de Anatole France é a definição mais exata da repercussão obtida por Eu Acuso. Tudo aconteceu rapidamente, lembra Denise Le Blond, a filha de Zola: "Os transeuntes retardatários poderiam ter visto brilhar um luar insólito nas vidraças de suas casas. Este luar era a consciência da França que estava de vigília. Zola escreveu seu magnífico protesto, no qual não sabemos se devemos admirar mais o ardente lirismo ou a lógica inexorável..."

Nas cerca de 800 linhas de Eu Acuso, o escritor Zola enumera metodicamente os fatos, um após o outro, e estabelece as relações entre eles. Apresenta o caso Dreyfus; em seguida analisa o caso Esterhazy, nomeando todos os personagens. Explica como nasceu o erro judiciário, de que maneira a condenação foi pronunciada, em que tipo de engrenagem o capitão judeu se viu envolvido. Zola inicia cada parágrafo com Eu acuso... E termina com as seguintes palavras: "Publicando estas acusações, não ignoro que me submeto aos artigos 30 e 31 da lei de imprensa, de 29 de julho de 1881, que pune os delitos de difamação. E é voluntariamente que me exponho. Quanto às pessoas que acuso, não as conheço, jamais as vi, não sou contra elas nem tenho raiva ou ódio. Para mim, elas são apenas entidades, os espíritos da maldade social. E o ato que consumo aqui é apenas um meio revolucionário para acelerar a explosão da verdade e da justiça."

A audácia e a coragem do escritor tiveram eco. Nos dias que se seguiram à publicação no L'Aurore, os principais intelectuais europeus se manifestaram contra a sentença de Dreyfus: Léon Blum, Anatole France, Émile Duclaux (diretor do Instituto Pasteur), Daniel Halevy e Marcel Proust.

Eu Acuso não encerrou o caso, mas a revisão do processo tornouse inevitável. Quanto a Zola, foi processado, difamado e obrigado a se exilar em Londres. Émile Zola jamais se arrependeu de seu protesto contra a injustiça. Além de grande escritor, autor de obrasprimas como Germinal e A Taberna, ele entrou para a história por ter, um dia, despertado a consciência humana.

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