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Ano 9 - 13 a 19 de Maio 2006
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Sampa

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Data de Publicação: 1 de julho de 2006
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Parou e meditou sobre o fato. Recordo da tenebrosa semana de cão pela qual passou a população paulistana. Não será possível abrir portas somente com o toque sutil? Pensou

No primeiro dia do inverno, acordou cedo, calçou o par de tênis e, vestido com roupas de lã, animouse a sair caminhando pelas ruas de São Paulo. O sol ainda se recusava a levantar, talvez imaginando que as pessoas iriam ficar um pouco mais na cama para aproveitar, debaixo das cobertas, o friozinho que logo irá se tornar quase insuportável.

Saindo à rua, decidiu seguir até o Bexiga. Olhou para os lados buscando segurança na travessia da primeira avenida. As pessoas passavam céleres em direção ao trabalho. Naquele dia, ele não estava preocupado com nada; queria só olhar a paisagem.

As portas de aço das lojas foram se abrindo sob seu olhar atento. Percebeu que há muitos anos não via aqueles movimentos que se tornam automáticos e não interessam a quem vive nas grandes cidades. O som das portas rangendo. Uma delas, se dobrando à força de um jovem, mostrava o contraste com uma outra porta que subia rápido ao leve toque de um senhor grisalho e encurvado pela idade. Ambos abriam portas. Um usando a força bruta, e o outro o toque sutil. Faziam a mesma coisa com métodos diferentes.

Parou e meditou sobre o fato. Recordo da tenebrosa semana de cão pela qual passou a população paulistana. Não será possível abrir portas somente com o toque sutil? Pensou.

A alguns passos adiante encontrou uma oficina de conserto de relógios antigos. Cumprimentou o relojoeiro e pediu permissão para acompanhar a técnica que reanima as máquinas. Como se fosse um cirurgião, o homem abriu as entranhas das engrenagens que marcam o tempo. A cada gesto, uma peça era retirada e submetida à cuidadosa avaliação. Se boa, colocavaa de um lado; se imprestável, para uma pequena lixeira de metal. A conversa do relojoeiro era como o tiquetaque dos relógios pendurados pelas paredes: pausada. Há 35 anos exercia o ofício, e dele tirava o sustento da família. Não há trabalho honesto que não sustente uma família; ensinou o mestre da marcação do tempo. Estes relógios já testemunharam momentos de aflição, de espera, de alegria e de tristezas. Vão, como o próprio tempo, marcando a vida de pais e filhos, até que um deles, insensato, se desfaz da relíquia, achando que é coisa velha, sem valor, cujo som incomoda e perpetua lembranças. Jogam fora o badalar das horas e a alegria do cuco avisando, com o seu canto, o horário da chegada das crianças.

Depois do relojoeiro, encontrou uma pequena venda de doces instalada num sobrado. A pequena porta de ripas de madeiras pintadas com cores fortes e alegres incentivava a aproximação. Algumas crianças escolhiam suas guloseimas. Do outro lado da rua, sem máquina fotográfica, usava somente a retina para resgatar na memória os momentos de infância. Atravessou a rua e fez seu pedido: duas mariolas, uma mariamole, duas casquinhas com creme rosa, como se fosse sorvete de morango, e, por fim, uma paçoca. A mulher, do outro lado da portinhola, colocou os doces dentro de um saco de papel cinza, como antigamente. Sorriulhe um sorriso maternal e perguntou: Quantos netinhos? Cinco, respondeu. Mas o senhor está levando seis doces; não está enganado? Não, respondeu, a paçoca é minha. É pra matar a saudade.

Comendo a paçoca avistou, numa varanda, um dos profetas de Aleijadinho. Do alto, o profeta dominava a paisagem. Bateu na porta da loja do térreo e perguntou o que funcionava naquele lugar. Era uma oficina de criação de cenários de teatro. Três jovens trabalhavam nas peças; cordiais, o convidaram a entrar. Sobre as mesas, réplicas de peças famosas além de objetos e quadros pendurados nas paredes. Tinha de tudo: colunas gregas, conjuntos de chá com xícaras coloridas, imitando uma fina porcelana, perucas, chapéus e rostos que alimentam sonhos. São Paulo, imprevisível cidade que consegue misturar a dura realidade com a singeleza da vida.

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