Observatório Geral
Data de Publicação: 29 de julho de 2006
“São dezenas de jornais, centenas de canais que consumimos como se fossem vitais.”
“Não há neurônios suficientes para executar tantas conexões.”
“preferimos a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser."MILHARES DE INFORMAÇÕESAbro os jornais e encontro Suzane von Richthofen e os irmãos Cravinhos, enfim, condenados. Do outro lado da página, a manchete informa os ataques de Israel ao Líbano, por conta do Hezbollah. Enquanto isso, as televisões mostram centenas de brasileiros, de descendência libanesa, sendo retirados do território em guerra. Nas rádios, o leilão da Varig é a bola da vez. As revistas trazem a lista com os nomes de parlamentares citados na CPI dos Sanguessugas. Na Internet, a agenda dos candidatos é intensa, mas as campanhas ainda não conquistaram os eleitores. São centenas de informações que, minuto a minuto invadem as nossas vidas. Querendo ou não elas estão lá, chamando a nossa atenção, querendo a nossa opinião.
CONSUMIMOS O QUE NÃO PRECISAMOSNa maioria das vezes são notícias que pouco acrescentam às nossas vidas mas que consumimos como se fossem vitais. Entre dezenas de jornais e revistas, centenas de canais de televisão e ondas de rádio e outras centenas de provedores e portais na Internet, lá se vão os dias, as semanas, os meses. Espantados, comentamos a velocidade do tempo em que vivemos. A correria que tomou conta das nossas vidas. A falta de tempo que nos roubou o tempo do prazer, da boa convivência e da prosa amena. Consumimos o que não precisamos. Repetimos o que nos indicam. Estamos empanturrados, devorados por um milhão de solicitações que mal conseguimos digerir. Não há neurônio suficiente para executar tantas conexões.
REPETIMOS GESTOS DITADOS PELA MÍDIAEspremidos por dezenas de atividades e uma agenda abarrotada, lá vamos nós cidadãos, cuja carga horária de trabalho ultrapassou todas as conquistas contempladas nas Leis Trabalhistas do século passado. Nossa pauta inclui tarefas burocráticas, empresariais ou criativas durante o dia, e continua nos coquetéis, jantares, lançamentos, festas e eventos de negócios, cujos convites, abarrotam nossas caixas de correio e congestionam os nossos compromissos da semana. Além disso, os eventos empresariais, nos empanturram com drinks, salgadinhos e canapés, que ingerimos, socialmente, enquanto falamos de possíveis negócios. Numa seqüência frenética de atos, repetimos gestos, atitudes e comportamentos ditados pela mídia.
SUBMISSÃO ALIENANTE“Nosso tempo... prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser”. É assim que Feuerbach enxerga a sociedade da informação. Da mesma maneira, Guy Debord não vê com bons olhos a nossa sociedade midiática. Em sua obra ‘A Sociedade do Espetáculo’, Debord afirma que “... Nunca a tirania das imagens e a submissão alienante ao império da mídia foram tão fortes como agora. Nunca os profissionais do espetáculo tiveram tanto poder. Da arte à economia, da vida cotidiana à política, a sociedade contemporânea se organiza em torno da falsificação geral da vida comum”.
VERSÕES DA REALIDADEVivemos sob o impacto da mídia e suas versões da realidade. Todd Gitlin, em seu livro ‘Mídias sem Limite’, diz que “... o noticiário é um conduto de idéias e símbolos, um produto industrial que promove pacotes de idéias e ideologias e serve, em conseqüência, como lastro social, embora às vezes seja também arauto de mudanças sociais. O noticiário é uma distorção cognitiva”. Gitlin informa ainda que “... As mídias hoje são ocasiões e condutos de um modo de vida identificado com a racionalidade, a conquista tecnológica e a busca de riqueza, mas também de algo muito diferente, algo que chamamos diversão, conforto, conveniência ou prazer”.
TRANSFORMANDO A VIDA EM ESPETÁCULOLuxo, excessos, altos salários, deslumbramentos e desigualdade são frutos de uma economia abundante e de um mercado acumulativo. Mas são também resultado da era da informação e da sociedade midiática, que transformou a vida em espetáculo. Uma sociedade que prefere a aparência, que precisa aparecer, que deseja, como antecipou Andy Warhol, um minuto de fama. Como mariposas, que fazem o vôo da morte em torno da luz, o cidadão da era do espetáculo se expõe demais, e se esquece de uma lei básica da fotografia; superexposição queima o filme. Fabricando versões da realidade e criando distorções cognitivas, a mídia gera um mundo invertido, falso e frágil que permite as distorções que assistimos nos depoimentos e acareações das CPIs e a banalização da vida, expressa nas balas perdidas e nas crianças prostituídas e envolvidas com o tráfego. Ninguém se importa, o espetáculo não pode parar.
- Próximo texto:
- Coisa de Política José Adalberto Ribeiro
- Texto Anterior:
- Análise Política Última Hora
- Índice da edição - Ed. 501