Boca Suja
Data de Publicação: 29 de julho de 2006
Por: Paulo César Branco
E-mail: pcbranco@brasiliaemdia.com.brTrazia na boca um gosto amargo que já conhecia. Era o gosto das derrotas que lhe acompanharam durante anos. Desta vez, o gosto se sobrepunha ao sabor adocicado que sentia há mais de três anos. Ao acordar, percebeu, na saliva, a amarga e mal cheirosa gosma. Levantou-se e foi ao banheiro. Pegou a escova e pasta de dentes e começou a limpeza bucal. A mistura do “kolinos” com a baba fez a boca se encher de espuma parecida com as águas dos rios atacadas pela poluição industrial. O fedor era o mesmo. A espuma aumentou e saiu pelos buracos do nariz e dos ouvidos. Caiu desmaiado.
A esposa o encontrou no chão de mármore do palácio. O contato da espuma causava manchas escuras no piso alvo. Ela o colocou no colo e sentiu a corrosão lhe atingir a pele. Gritou por socorro. A segurança acorreu imediatamente. Chamaram o médico pessoal que diagnosticou: “síndrome da derrota iminente”, semelhante a que acometeu o Ronalducho às vésperas da outra Copa. Por experiência, o médico sabia que devia fazer respiração boca a boca para salvar o chefe. Teve nojo e ficou com medo de ser contaminado, pois sempre foi um vencedor, tendo sido aprovado na universidade federal de medicina em primeiro lugar. No concurso público para médico, ficou em segundo, pois o concorrente direto era neto do melhor médico do mundo. O médico era tão famoso que o chefe, a título de elogiá-lo, disse num discurso, que deveria ser bom demais morrer sob os cuidados do mestre. O mestre o perdoou, considerando que os que nada sabem são protegidos dos céus.
A solução foi usar um aspirador de pó para sugar-lhe a baba infecta. Colocou o tubo na boca do chefe e iniciou-se a operação salvamento. A gosma foi sendo removida, e os tubos do aparelho começaram a apresentar corrosão em vários pontos que eram cobertos com esparadrapo. Ao final de alguns minutos, o chefe começou a respirar. O alívio dos presentes foi parcial, pois havia entre eles alguns adversários infiltrados em várias funções palacianas. Os adversários pisavam nos tubos do aspirador, desligavam a tomada e tumultuavam a ação dos para-médicos. Foi a maior confusão.
O chefe, salvo, mas depauperado, foi higienizado e sofreu uma lavagem intestinal para que não ficasse nenhum resquício da maldita gosma. O pessoal da perícia chegou para investigar as causas do mal-estar que quase provocou a morte do chefe. Recolheram amostras da gosma e a colocaram em um vasilhame plástico. O recipiente derreteu-se e queimou a mão do perito. Foi preciso encontrar um outro vasilhame, desta vez em aço e revestido de neoprene. Deu certo, e a amostra foi levada para a criminalística. Nenhum dos peritos havia visto algo parecido em toda a história da República.
Uma junta médica foi formada para examinar o caso. Eram professores renomados que colocaram o paciente num helicóptero e o removeram para uma unidade médica especialmente preparada. Foram convidados um químico e um físico para ajudarem nas análises da gosma erosiva e fedorenta. No paciente, os clínicos não encontraram sinal de envenenamento. O gastroenterologista não identificou sinais de úlceras ou doenças mais graves. O cardiologista apurou que os batimentos cardíacos estavam estáveis, e o neurologista só viu pequena alteração na área do cérebro responsável pelos pensamentos bons ou ruins. Nada que pudesse preocupar ou originar o vulcão que saiu da boca do chefe. Ficaram tranqüilos, aguardando as reações do paciente para que, quando ele acordasse do efeito dos sedativos, esclarecesse o que sentira. Ele acordou em seguida, vociferando: Vocês sabem que eu tenho reputação ilibada e não admitirei nenhuma acusação sobre mim, vinda desses bocas-sujas que vivem querendo me derrubar. A gosma voltou a sair pelo canto da boca e os médicos disseram que isso logo passará.
O alívio dos presentes foi parcial, pois havia entre eles alguns adversários infiltrados em várias funções palacianas. Os adversários pisavam nos tubos do aspirador, desligavam a tomada e tumultuavam a ação dos para-médicos. Foi a maior confusão.
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