O ódio como herança
Data de Publicação: 29 de julho de 2006
Por: Jonathan FreedlandOs meteologistas chamam isso de uma tempestade perfeita. Um conjunto de eventos, cada um deles de menos importância e isoladamente administrável, que se juntam sobre o ponto mais vulnerável de uma determinada região, com o máximo de intensidade e no pior momento - causando os piores danos possíveis. O Oriente Médio vem sendo castigado nestes últimos sete anos por uma tempestade perfeita, embora da variedade geopolítica em vez da variedade metereológica - com o perenemente fraco Líbano no papel de ponto mais vulnerável.
Agora, podemos ver que os elementos componentes estavam todos lá. Fazia 15 dias que a faixa de Gaza estava sendo golpeada, na seqüência da captura pelo Hamas de um soldado israelense, e o restante do mundo - incluindo, crucialmente, todos os Estados árabes - não fazendo nada.
Aí entrou o Hezbollah, detectando sua oportunidade de se afirmar como o paladino dos palestinos e a força da resistência árabe - dessa forma aumentando sua legitimidade aos olhos do povo libanês, sobretudo aqueles que há muito se ressentem do Estado dentro de um Estado que é o Hezbollah no seu torrão. Dessa forma, preparou seu próprio ataque de surpresa, seqüestrando mais dois soldados israelenses. Nesse ínterim, apoiando o Hezbollah estavam seus dois patronos, o Irã e a Síria, ambos conscientes de sempre há sempre oportunidade de conquistar popularidade doméstica e regional quando se enfrenta Israel e, por conseqüência, os Estados Unidos. Ambos estavam ansiosos também para mostrar que podem infringir dores tanto quanto absorvê-las, e que o Hezbollah é sua arma.
Do lado israelense, vários elementos cruciais também se juntaram. Primeiro, a ira israelense contra o Hezbollah, que vem crescendo e não começou com o seqüestro da semana antepassada. Como afirma o colunista Yoel Marcus, do jornal Haaretz: “Dia após dia, Israel tem sido alvo de ataques, emboscada e seqüestros (via fronteira libanesa).”
O Hezbollah não é um exercito de esfarrapados atirando pedras. Com a ajuda iraniana, construiu um formidável arsenal, incluindo mísseis guiados e de longo alcance. E, diz Marcus. “a mais ou menos um metro de distancia eles vem nos vigiando com o dedo no gatilho”.
Em segundo lugar, está a natureza da provocação. Tanto o Hamas como o Hezbollah capturaram soldados. Para quem está de fora isso deve ter parecido um jogo limpo, segundo as normas da guerra de guerrilha. Mas os soldados tem um status quase sagrado da imaginação israelense. O Exército de Israel é composto de convocados. Assim, a retórica de que se trata de “filhos e filhas de todos” é literalmente verdadeira. Seus integrantes não são vistos como profissionais contratados para matar ou serem mortos, mas como cidadãos.
Um eminente escritor israelense sugere que Israel, numa estranha inversão da norma, lamenta a morte de um militar mais do que a de um civil - que o país tem uma linguagem cerimonial para o primeiro que falta para o outro. Assim, passou a fazer parte da psique nacional que, quando um soldado é capturado, não pode ser abandonado. O Estado precisa fazer todos os esforços possíveis para trazê-lo de volta, mesmo que isso signifique trazer de volta um cadáver.
Tudo isso leva a uma intensa pressão pública. O professor Eyal Zisser, da Universidade de Tel-Aviv, diz que os israelenses não poderiam tolerar o “fracasso militar” contra os palestinos e o Hezbollah: “Chega um ponto em que você não suporta mais.”
Alguns governos talvez tenham conseguido resistir a tal pressão . Mas não este governo. Pois Israel é agora comandado, pela primeira vez, tanto por um primeiro-ministro como por um ministro da Defesa cujos caminhos para a política não passaram pelo Exército. Ehud Olmert e seu parceiro em coalizão são novatos em militarismo. Ambos têm algo a provar.
Ariel Sharon pôde negociar uma troca de prisioneiros com Hezbollah em 2004, em vez de bombardeá-lo a partir do céu, porque não tinha medo de ser chamado de fraco. Em contraposição, Olmert e Peretz precisam se afirmar. Daí a declaração de Olmert: “Vamos demolir e nada vai nos segurar.” Ou a promessa do ministro da Defesa de que “(o líder do Hezbollah, xeque Hassan) Nasrallah se lembrará do nome Amir Peretz pelo resto da vida”. Neste estado de espírito, nenhum dos dois tinha probabilidade de refrear o ambicioso chefe do Estado-Maior, general Dan Halutz. Em vez disso, dizem analistas, há “três Napoleões” comandando o espetáculo.
POSSIBILIDADE DE ACORDOQualquer um desses elementos sozinhos não teria causado tantos danos. Mas, a confluência de todos eles, ao mesmo tempo, realmente tem sido sangrenta, pois Israel está atacando o Líbano de forma totalmente desproporcional em relação a provocação original, e o Hezbollah responde com foguetes lançados cada vez mais para o interior de Israel. O que poderia fazer com que essa temperatura passe?
O primeiro elemento, e o mais essencial, é a troca de prisioneiros. Oficialmente, a libertação de seus cativos por Israel foi o motivo inicial da ação do Hezbollah. Assim o progresso nessa área, acoplado ao retorno dos homens a Israel, permitirá a ambos os lados dar um passo atrás e salvar as aparências. De forma encorajadora, um ministro de Israel, Avi Ditcher, rompeu as fileiras e disse que Israel pode muito bem ter de fazer esse acordo.
Mas Israel não vai agir nesse sentido até que tenha avançado em seu objetivo maior, que é enfraquecer o Hezbollah. A atual crise lhe deu a oportunidade de assumir uma tarefa que acreditava que há muito tempo deveria ter sido empreendida e Israel pretende aproveitá-la. Uma vez convencido de que conseguiu conter o Hezbollah, Israel pode concordar com uma presença militar internacional no Líbano - melhor do que ter o Hezbollah fungando no cangote. Os dois lados trocarão prisioneiros e tararão de guardar as armas. Ao menos esses são os termos do mais recente plano das Nações Unidas, e existe algum alívio no fato Olmert, ao contrário das expectativas, se reuniu com os representantes da ONU em Israel na terça-feira.
Tal plano pode funcionar, acabando com a destruição dos últimos dias. Mas mesmo que seja solucionado logo, este episódio terá um impacto duradouro. Pode fatalmente comprometer o projeto que define Ehud Olmert - o unilateralismo. Começando de onde Sharon parou, Olmert deseja traçar ele mesmo as fronteiras finais de Israel, livre das inconveniências e riscos de negociações com países vizinhos. Até agora, houve dois precedentes - a retirada unilateral de Israel do sul do Líbano em 2000 e a da faixa de Gaza em 2005.
RISCOMas será que essas retiradas trouxeram calma, para não falar em paz? Não trouxeram. Ao contrário, são esses os locais da atual violência.
Isso pode levar a direita de Israel a declarar que tais retiradas não fazem sentido, apenas fortalecem os inimigos do país, que simplesmente se apossam do território entregue e continuam lutando. Do outro lado, a esquerda israelense pode recuperar o interesse pela busca de uma paz negociada. Ela agora tem uma prova visível e dolorosa de que, a menos que se chegue a um acordo para além das fronteiras, o país não está seguro - não importa quanto seus soldados tenham recuado. Tanto da direita como da esquerda, a lógica do unilateralismo foi minada pela atual crise, o que pode deixar Olmert e seu partido, o Kadima, num terreno intermediário cada vez mais estreito.
Mas a maior herança será o ódio. Cada bomba despejada por Israel terá partido centenas de corações libaneses. Alguns terão perdido seres amado; outros terão visto pontes, ruas e casa que haviam sido meticulosamente restauradas, após décadas de guerra, transformadas em entulho. Aqueles que testemunharam isso não esquecerão e carregarão uma amargura contra Israel pelo resto de suas vidas, transferindo-a para seus filhos. As famílias enlutadas de civis israelenses se sentirão da mesma forma em relação a seu inimigo.
De todos os cálculos racionais, estratégicos, este é o fator que é tão freqüentemente deixado de lado - o ódio semeado no coração humano. Ambos os lados garantiram que este horrível conflito se espalhe não apenas pelas fronteiras, mas por gerações.
*Jonathan Freedland é colunista do jornal “The Guardian”- Próximo texto:
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