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Ano 10 - 29/07 a 04 de Agosto 2006

A população que se vire

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Data de Publicação: 29 de julho de 2006
Por: Carlos Chagas
E-mail: cchagas@brasiliaemdia.com.br


ANÁLISE POLÍTICA

A POPULAÇÃO QUE SE VIRE


Com todo o respeito, mas nenhum dos quatro principais candidatos à presidência da República dispõe de propostas imediatas para combater o crime organizado e as sucessivas ondas de violência que assolam São Paulo e o país. Do presidente Lula a Geraldo Alckmin, de Heloísa Helena a Cristóvam Buarque, todos tergiversam, prometem metas de realização longínqua e indefinida, mas deixam o eleitor à mercê da bandidagem que domina nossas principais cidades.

Numa palavra, os candidatos não tem resposta para a questão iminente e trágica de assassinatos, assaltos, seqüestros, roubos e estupros que se multiplicam dia a dia.

Lula e Alckmin falam em conceber a segurança pública como prioridade política. Heloísa Helena lembra o crescimento econômico, a geração de empregos e investimentos maciços em educação, da mesma forma como Cristóvam Buarque, que acrescenta a criação de um mini-ministério, a Agência Nacional de Segurança Pública, subordinada ao palácio do Planalto. Todos enfatizam a construção de novos presídios e a criação de um sistema nacional de inteligência, sem esquecer a valorização das polícias e até prometendo para os policiais um aumento salarial que jamais concederão.

Mas fazer o quê amanhã, hoje e até ontem para reduzir o surto de animalidade nas ruas, nenhum candidato se anima a propor, sabe-se lá se com medo de perder o voto das camadas menos favorecidas, dos habitantes das favelas e das periferias que convivem e até se subordinam ao crime organizado.

Nenhum candidato propõe o que a maioria esmagadora da sociedade exige, ou seja, um basta já na insegurança que domina o país e impõe tolerância zero diante do crime. Traduzindo o que o cidadão comum deseja: invasão armada imediata de qualquer presídio rebelado, isolamento completo dos chefões do crime que se encontram presos, pronta eliminação dos bandidos flagrados em atos criminosos, ocupação das ruas por tropa armada, extinção de benefícios legais de qualquer espécie para autores de crimes hediondos e mudança nas leis penais que permitem a libertação desses animais antes do cumprimento integral de suas penas.

Feliz ou infelizmente, é isso que poderia interromper a tragédia que nos assola, sem prejuízo das demais etéreas e angelicais soluções de longo prazo. Mas como isso pode significar perda de votos, calam-se todos. A população que se vire.

A ESTRATÉGIA DO AVESTRUZ

Vale continuar nas omissões dos quatro principais candidatos à presidência da República, em suas campanhas. Dizem a experiência e a lógica que bom político é aquele que enfrenta sem hesitação situações novas e crises súbitas, sem jamais adotar a estratégia do avestruz, de enfiar a cabeça na areia em meio à tempestade. De Lula a Alckmin, de Heloísa Helena a Cristóvam Buarque, é evidente que em termos de política externa o vitorioso precisará situar o Brasil diante da calamidade que assola o planeta a partir da guerra no Oriente Médio. E não se diga, nesses tempos de globalização, tratar-se de uma questão longínqua que nada nos diz respeito. Essas coisas pegam feito sarampo, em especial num país como o nosso, que possui uma das maiores populações de origem árabe do mundo, junto com uma sociedade israelita que supera o número de habitantes de Israel.

Mesmo sem a emissão de juízos de valor ou opção por um dos lados em guerra aberta, dispomos de alguma alternativa capaz de contribuir para o fim do massacre no Oriente Médio? Claro que a influência brasileira na região é igual a zero, mas não percebem nossos candidatos ser uma questão de tempo o confronto entre as duas comunidades que, entre nós, ainda conseguem conviver e até cooperar?

Nem uma palavra se ouviu por parte dos candidatos, com ênfase para o Lula, que como presidente da República já deveria estar envolvido na questão. Pelo menos para demonstrar ao mundo ser possível a convivência entre os contrários.

Programam-se e começam a acontecer entrevistas, debates, pronunciamentos, discursos e palanques aos montes, entre os candidatos, mas alguém já ouviu de um deles alguma referência àquilo que, mesmo acontecendo do outro lado do mundo, mais cedo ou mais tarde poderá nos atingir? Viva os avestruzes...

FALTA UMA RODA NA ENGRENAGEM

Falta identificar uma roda na engrenagem de toda essa novela de horror oportunamente denominada de escândalo dos sanguessugas. Deputados corruptos apresentavam emendas ao orçamento para a aquisição e entrega de ambulâncias a grande número de municípios. As ambulâncias tinham seus preços superfaturados pela empresa encarregada de produzi-las e entregá-las, repassando percentuais variados, como propina, aos mais de cem parlamentares autores das emendas. Muitos prefeitos também entravam na maracutaia.

Não falta nada? Falta. Toda essa complicada operação envolveu a participação de funcionários do Executivo, quer dizer, do governo federal. Mais diretamente, do ministério da Saúde, sem esquecer a Casa Civil da presidência da República. Nada aconteceria sem eles para conduzir a liberação dos recursos das emendas orçamentárias e, de lá, para a empresa fajuta encarregada de distribuir as ambulâncias e as propinas aos parlamentares e aos prefeitos.

Até agora, só uma funcionária de terceiro escalão do ministério da Fazenda foi identificada e até momentaneamente presa, mas se ela estivesse agindo sozinha mereceria, no mínimo, um diploma de gênio.

A CPI dos Sanguessugas investiga a questão a fundo, esbarrando na presença de diversos ministros da Saúde e de pelo menos um chefe da Casa Civil, porque o escândalo vem, no mínimo, desde 2001. Não se acusará os ministros de participação na fraude, porque todo mundo é inocente até que se lhe prove a culpa. Inclusive, está havendo alguma precipitação no noticiário. Mas, aqui para nós, sem a roda do Poder Executivo federal na engrenagem, o motor da corrupção não poderia ter funcionado tanto tempo assim...

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