A BATALHA DE ITARARÉ...
Data de Publicação: 22 de julho de 2006
POR: LUIS PIMENTEL
Com a barba de Osama Bin Laben, o maluco-beleza Aparício Torelly, ou Aporelly, autodenominado Barão de Itararé, inventou uma batalha que não houve.
Revolução de 1930. As forças políticas reunidas em torno da Aliança Liberal se sublevaram, sob a liderança de um baixinho gaúcho invocado chamado Getúlio Vargas. Uma grande batalha estava prometida e deveria ocorrer em Itararé. Mas não houve batalha nenhuma, pois o presidente Washington Luís fora deposto por seus próprios auxiliares, bem à moda brasileira. Foi o bastante para outro baixinho invocado, diretor de um combativo e debochado jornaleco de humor, proclamar-se duque da batalha que não aconteceu, "pelos relevantes serviços prestados no front". Modesto, o aloprado jornalista rebaixou depois o título para Barão de Itararé.
O jornal era A Manha e seu diretor o humorista, frasista, poeta, político e sa-cana inveterado Aparício Torelly, que também assinava Apporelly. Antes de deixar os pampas para tentar a vida no Rio de Janeiro, onde descobriu sua verdadeira vocação, cursou alguns períodos na Faculdade de Medicina de Porto Alegre. Desta época já despontam alguns exemplos do seu humor rápido e mordaz. Durante uma prova oral, o seríssimo professor de Anatomia fez a pergunta:
- Quantos rins nós temos? - Quatro, respondeu o aluno.
- Quatro? O senhor está maluco?- Dois meus e dois seus. Isto se o senhor for um indivíduo normal.
Durante outra argüição, ouviu o mestre, irritado, com suas respostas cretinas, berrar para o bedel: - Traz aí um pouco de alfafa!
A reação brilhante do Barão: - E, para mim, um cafezinho.
Depois de publicar alguns poemas cínicos e satíricos nos jornais e revistas de Porto Alegre, reunindo-os em seguida no livro Pontas de Cigarro, Aparício arrumou as malas e se mandou para o Rio de Janeiro, onde desembarcou aos 21 anos de idade e com o endereço do jornal O Globo no bolso. Procurou o diretor do jornal, Irineu Marinho, e avisou que era o profissional que O Globo estava precisando.
- O que o senhor sabe fazer? - Tudo. Desde varrer a redação até dirigir o jornal.
Diante do espanto causado, provocou:- Mesmo porque não há muita diferença entre uma atividade e outra.
Mostrou algumas crônicas humorísticas e foi contratado imediatamente. A primeira dessas crônicas foi publicada já no dia seguinte, assinada na primeira página. Estava bom, mas era pouco. O Barão queria e merecia muito mais.
Em 1926 lançou seu próprio jornal semanal, A Manha, pequena sacanagem em cima do matutino A Manha, um dos jornais mais influentes da época. Abaixo do logotipo, a frase explicativa: "Quem não chora não mama". A redação ficava na Rua Treze de Maio, onde, tempos depois, o Barão de Itararé afixou uma placa destinada aos policiais que freqüentemente visitavam a redação e seu responsável: Entre sem bater!
A importância do Barão de Itararé para os atuais humoristas brasileiros que desenham, escrevem ou desenham e escrevem é inegável. Sobretudo pela capacidade que ele esbanjava de não deixar a peteca cair, de não se render - seja às dificuldades financeiras, seja à prepotência política.
A Manha, autocaracterizada como hebdromedário (trocadilho com hebdomadário, isto é, publicação semanal), fazia basicamente um humor político, concentrando suas baterias sobre os figurões da República. O então presidente Washington Luís foi transformado em redator-chefe e aparecia em todos os números, assinando longos bestialógicos (era o Vaz Antão Luís, “nosso companheiro que acumula as funções de presidente da República”). E mais: impressionado com a cuidada elegância das botinas lustrosas do tristonho ministro Félix Pacheco, Aporelly apelidou-o de Infélix Pé Chic.
Algumas pitadas: - Há alguma coisa no ar, além dos aviões de carreira.
- O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o leitor não terá vergonha de votar no seu candidato.
- Cada povo tem o governo que merece, mas não é menos verdade que muitos povos merecem o governo que têm.
- Quando pobre come frango, um dos dois está doente.
- O mal do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta.
- O Brasil é uma república "generalizada".
Em 1929, A Manha enfrenta dificuldades financeiras e o Barão de Itararé faz um acordo com o todo-poderoso Assis Chateaubriand, que acabara de lançar o jornal Diário da Noite. Pelo acordo, A Manha passaria a circular encartada no Diário, que imediatamente dobrou a tiragem. Poucos meses depois, o jornal que começara a vender 15 mil exemplares já vendia 125 mil. Enciumado, Aparício roeu a corda e desfez a parceria com Chatô. O texto aos leitores comunicando o desligamento dos Diários Associados dizia o seguinte: “Desde quinta-feira, o Diário da Noite, que vinha sendo publicado diariamente como suplemento de A Manha, passou a ter vida autônoma, continuando, entretanto, com a mesma orientação humorística que tanto o popularizou".
Um dia, mesmo com o aviso na porta, policiais entraram na redação, bateram muito e ainda o carregaram para o presídio da Ilha Grande, onde cumpriu um ano e meio de cadeia. Lá, conheceu quase todos os membros do Partido Comunista e também o escritor Graciliano Ramos, vindo a tornar-se depois personagem do antológico Memórias do Cárcere.
Durante o interrogatório, travou o seguinte diálogo com o oficial de plantão na Vila Militar:
- Nome? - Aparício Torelly.
- Sabe ler e escrever? - Sim.
- Profissão? - Jornalista.
- Participa do movimento? - Sim.
- Pode dar mais detalhes?
- Participo do movimento como o senhor também participa. Afinal, como prova a Física, tudo no mundo é movimento.
Torelly se afastou do humorismo profissional, mas não deixou de praticá-lo no dia-a-dia, até o fim da vida. Autor da máxima “o que se leva dessa vida é a vida que a gente leva”, conseguia fazer piada com qualquer assunto. Já nas últimas, respondeu à pergunta do médico se estava se alimentando com os cuidados que sua saúde exigia. “Minha alimentação é frugal, doutor, consta só de dois pratos. Um fundo e outro raso”. Morreu no dia 27 de novembro de 1971, e foi realmente uma pena. Mesmo porque, como ele mesmo escreveu um dia, “sabendo levá-la, a vida é bem melhor do que a morte”.
- Próximo texto:
- José Guilherme José Guilherme
- Texto Anterior:
- Guerra Guerra
- Índice da edição - Ed. 500