“Ah, então é assim?!”
Data de Publicação: 22 de julho de 2006
CHANELPor Lenira Alcure
Única entre os grandes costureiros a ter seu nome associado a um estilo, Gabrielle Coco Chanel atravessou seus 87 anos de vida num turbilhão onde não faltaram glórias e amores. Mademoiselle, como sempre foi chamada, montou um império, impôs uma nova ordem estética, libertou as mulheres, mas sobre sua vida pessoal dizia: “Vivi grandes amores, mas nunca fui feliz”. Dos muitos homens com que ela se envolveu intensamente, nenhum conseguiu ser maior do que sua única paixão: o trabalho. Graças a ele, construiu seu nome. Hoje, Chanel simplesmente quer dizer eterno.
Na fria manhã de inverno parisiense, a 10 de janeiro de 1971, quando Gabrielle Bonheur, aliás, Coco Chanel, 88 anos incompletos, se despediu da vida, apenas uma camareira do elegante Hotel Ritz, onde há 30 anos ela ocupava uma suíte, estava presente e ouviu-a dizer: "Ah, então é assim que se morre!"

A solidão foi o preço alto demais que ela pagou pelo sucesso: "É preferível suportar um marido, mesmo gordo e chato, a viver sozinha" - confessava ela em uma de suas últimas entrevistas. No entanto, seu currículo amoroso inclui vários milionários, um príncipe russo, o homem mais rico da Inglaterra, artistas e poetas famosos, provavelmente algumas mulheres (Colette teria sido uma de suas amigas íntimas) e, já no final da vida, até mesmo seu mordomo, que ela, aos 82 anos, pediu em casamento - e ele disse não.
O livro Chanel m’a dit desata, mais de 20 anos depois da morte de Mademoiselle, segredos confessados a uma interlocutora privilegiada, Lilou Marquand, a autora, foi durante longo tempo a mais próxima colaboradora de Chanel. Naquela época, quando lhe perguntavam o que fazia, invariavelmente respondia: "Sou eu quem lhe passo a ferro os alfinetes." Tal discrição fez de Lilou importante guardiã de confidências que agora vêm à luz.
"Há um tempo para trabalhar e um tempo para amar, o que não deixa absolutamente tempo para mais nada" - dizia Chanel, que muito cedo começou a fazer as duas coisas. Nascida a 19 de agosto de 1883, Gabrielle Bonheur Chanel perdeu a mãe aos seis anos. O pai, de quem ela sempre lembrou o espírito galante, ganhou o mundo, deixando-a aos cuidados dos parentes. Depois de escandalizar as tias, de quem procurava despertar a atenção com mentiras, pequenos furtos e muitas desobediências, Gabrielle foi internada num orfanato. Ali, ela conheceu o uniforme de saia pregueada, blusa branca e gravatinha que, mais tarde, ela transformaria na pièce-de-résistence de seu guarda-roupa: o tailleur, ao qual ela emprestou um ar de jovem feminilidade.
O pai, o juiz, o pároco de sua aldeia natal foram as poucas figuras masculinas de uma infância sem amor. Nesse universo tacanho, não é de admirar que ela tenha imitado o pai, ganhando o mundo, aos 16 anos, em companhia de Étienne Baisan, um rico criador de cavalos. Ele a instalou, teúda e manteúda, em Compiègne, nos arredores de Paris. Ali, enquanto se exercitava na arte da equitação, divertia-se tomando emprestado do vestuário masculino suas roupas de montaria. Magra, com pouco busto, numa época em que ainda se valorizavam as formas arredondadas, a jovem, a quem Baisan carinhosamente

chamava mon petit coco (bonitinha), reinventava o feminino, com o toque da androginia, afirmando assim seu acesso à modernidade. Em 1910, Chanel, que não nascera para cortesã, já estava instalada em Paris, onde, com a ajuda de Balsan, montava seu primeiro negócio: uma pequena loja de chapéus. Nessa época, começou seu caso rumoroso com o filho de um rico banqueiro inglês, o boy Cappel. Durante algum tempo, foi um ménage à trois, com Baisan, que já tinha se desinteressado por ela, novamente apaixonado, com medo de perdê-la. Segundo Chanel, o jovem Arthur Cappel foi o grande amor de sua vida. Graças a ele, conheceu a nata da sociedade da época. Com sua ajuda, ampliou os negócios, primeiro em Paris, na Rua Cambon - que mais tarde seria seu endereço permanente -, depois em Deauville e em Biarritz,, onde a clientela era formada pela aristocracia espanhola.
A guerra que explodiu em 1914 afastou o amante, mas os negócios floresceram. Chanel descobre o jérsei e com ele veste a nova mulher: enxuta. Em 19 17, um problema no aquecedor de banho chamusca seus cabelos. É noite de ópera e o teatro não pode esperar. Ela mesma tosa sua longa cabeleira. O gesto libertador é também uma provocação. Como também sua pele bronzeada ao sol do Mediterrâneo. Surge um novo modelo estético. O que se busca é a mulher jovial, dinâmica, dona de si mesma. São tempos de guerra e o modelo é econômico. A vanguarda triunfa. Da Inglaterra, Boy Cappel vem algumas vezes visitá-la. Casado, com filhos, mas infeliz. Fala em divórcio. No Natal de 1919, morre num acidente a caminho de Nice. Chanel, mais uma vez, se sentirá órfã e abandonada,
Mas também a guerra tinha acabado. No ambiente febril dos anos 20, Chanel reina absoluta, já então no 31 da Rua Cambon. Em Cannes, onde passa a primavera de 1921, entre dez amostras de perfumes, escolhe a quinta essência. Cinco era o seu número de sorte. Assim nasceu o perfume que Marilyn Monroe imortalizaria, trocando a camisola por duas gotas de Chanel nº5. Milionária, Chanel viu tout Paris a seus pés: Picasso, Cocteau, Colette, os russos Stravinsky, Diaghilev e Misia, linda, inteligente e culta, sua maior amiga, o tipo de mulher que Chanel admirava. Desse período também é o seu caso com o Grão-Duque Dimitri, sobrinho do Czar, que chegara a Paris, logo depois da execução dos Romanoff. "Conheceu Rasputin?" - perguntou ela, no baile em que lhe foi apresentada. "Sim, eu o assassinei" - respondeu o grão-duque. Louro, alto, olhos azuis e, ainda por cima, desempregado, o assassino de Rasputin foi trabalhar na Maison como relações-públicas.
Mas, em 1925, outro personagem entraria em cena, o Duque de Westminster, o homem mais rico da Inglaterra. A ligação, que quase uniu a França a sua arquirival, durou 13 anos, ocupados em grande parte com os afazeres típicos da nobreza britânica. Jogos de tênis, golfe, pescarias e caçadas. "Com mais de 100 jardineiros a seu serviço, todos os dias ele me cobria de flores do campo" - contava ela, recordando essa época maravilhosa. Mas, durante todo esse tempo, ela se recusou a aceitar o pedido de casamento que lhe fazia um homem que, "de tão rico, nem sabia o que era dinheiro". Se ela tivesse aceito, seu nome teria entrado para a corte da Inglaterra. Mas ela preferiu reinar sobre a moda em Paris: "Já há três duquesas de Westminster, mas uma só Coco Chanel" - ironizava ela.

Em meados dos anos 30, o mundo, porém, já estava muito diferente. Desde a quebra da Bolsa de Nova lorque, em 1929, havia pouco dinheiro para luxo e extravagâncias. O perigo da guerra crescia. Seu amigo Diaghilev morrera, em Veneza. Cansado de esperar, o Duque de Westminster se interessava por outras mulheres. Então, pela primeira vez, Chanel se apaixonou por um homem sem títulos nem dinheiro. Era Paul lribe, seu colaborador, um desenhista basco de grande talento. Durante os oito meses em que ficaram juntos em La Pausa, propriedade dele em território basco, recebiam visitas de Salvador Dali, que a adorava; do poeta Pierre Reverdy, a quem ela dedicava admiração e antigo amor; Cocteau, para quem fizera tantos figurinos; Sartre, com quem mantinha longas discussões. Durante uma partida de tênis, lribe se sentiu mal, morrendo logo depois fulminado por um ataque cardíaco. Mais uma vez, ela perdia o homem a quem acreditava amar de todo o coração.
Assim, quando a guerra chegou, Coco Chanel já estava mesmo convencida de que aquela "já não era uma época para vestidos". Em 1939, fechou o ateliê e durante 15 anos ficou fora de cena. Ninguém acreditava em sua volta, quando, no outono de 1953, ela anunciou sua coleção para o verão seguinte. Para surpresa de quem esperava uma revolução e despeito dos que apostavam no fiasco, Chanel usou cores e tecidos novos, mas não mudou o estilo. A maioria da imprensa e sobretudo as clientes aprovaram. Chanel ficou sendo sinônimo justamente do que não sai de moda, o eterno.
"Passei minha vida toda trabalhando para escapar ao tédio" - confessou ela nessa ocasião, explicando a energia com que buscava preencher o vazio das perdas irreparáveis. Aos 70 anos ainda cumpria uma rigorosa agenda de trabalho, até porque como ela mesma dizia, "só se é jovem duas vezes na vida.”
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