Juarez Machado
Data de Publicação: 22 de julho de 2006
A arte irrequieta
Entre charmosos ateliês e concorridos vernissages em galerias de todo o mundo, o artista catarinense goza hoje de uma vida confortável. Envolvido há mais de cinco décadas com o ofício da pintura, ele passou por 25 estúdios. Entre estes, dez estiveram representados em sua exposição, Ateliê de Artista.Nada mau para quem começou desenhando embalagens de remédios, aos 15 anos, na Joinville natal. Depois disso, lembra ele, amassou "o pão que nem o diabo comeu". Em 61, foi cursar em Curitiba a Escola de Belas-Artes do Paraná. Em 66, embarcou para o Rio de Janeiro. Conheceu a vida boêmia carioca e enveredou por muitas atividades: cenografia, escultura, jornais, humor, televisão.
Em meados dos anos 70, Juarez se tornou um rosto conhecido em todo o país, ao criar e interpretar quadros de humor na telinha. Diz ele que emprestava seu corpo para dar animação aos desenhos. A fama vem dessa época, e persiste. Tanto que o marchand Valdir Simões costuma dizer que Juarez é o único pintor a quem se pedem autógrafos na rua: "Parece até artista de novela". E parece mesmo: seja pelo raro figurino, pelo cavanhaque peculiar ou pela infinita paciência com que trata seu respeitável público. Imprensa inclusive.
Em 78, no entanto, Juarez se cansou. Arrumou as malas e foi para Londres, onde mergulhou em museus e estudos. Depois, Nova lorque, Paris, Rio outra vez. Em 86, instalou-se em Paris - pelo jeito, em definitivo. Neste bate-papo, ele conta um pouco sobre o seu dia-a-dia na França, revela que só não pensa em pintura.
Em 86, você disse que passaria só um ano em Paris. Já dá para pensar em voltar?Quando falei que ia passar só um ano, era mentira. Ficar por aqui era necessário para a minha carreira. Mas não sinto que tenha saído do Brasil. Digo sempre: Paris é um bela e charmosa senhora com meias de seda e salto alto. O Rio é um brotinho bronzeado, de perninhas grossas e calça jeans. Preciso dessas duas mulheres, vivo com elas. Não abandonarei nada.
Foi difícil a chegada a Paris? Nenhum problema. Eu já tinha contatos, amigos, trabalhos agenciados. Vinha me preparando como um atleta se prepara para enfrentar um adversário.
E o europeu era menos hostil ao imigrante, não?Mas eu não sou imigrante, sou artista. A França recebe muito bem o cientista e o artista. O mundo inteiro vai a Paris para ver grandes quadros de grandes pintores. Nem todos são franceses. São pessoas como Picasso ou Van Gogh, com cuja obra a França ganha hoje muito dinheiro. Talvez por isso os franceses tenham investido em mim. Devem ter pensado: quem sabe esse brasileirinho dá certo daqui a uns cem anos...
Você aconselharia alguém a tomar o mesmo rumo? Sim. O artista tem o compromisso de divulgar sua arte e, com isso, seu país. É uma maneira de ampliar o mercado. Não dá para esperar subsídios. Você tem de ir à luta, procurar espaço para mostrar seu trabalho e entrar no mercado competitivo europeu,
E a mímica? Ficou de lado?Eu não sou um mímico. Mas naquela época, anos 70, a mímica foi um modo de mostrar as inúmeras possibilidades de criação na telinha. Um caminho muito fértil. Acho mesmo que aquele trabalho faz parte da história da televisão brasileira e tem de ser preservado. Não vou discutir se era bom ou ruim, mas é história.
Saudades daquele tempo?A tevê foi um grande amor na minha vida, muito bem vivido, mas não tem retorno. Até porque, naquela época, era tudo artesanal e isso me dava um profundo prazer. Hoje, com computador, pode-se fazer muito melhor.
Você é daqueles que não gostam da informática?Uso computador, mas não para fazer arte. O computador não tem uma cozinha que é importante para mim, pela minha formação: o artesanato, o misturar as tintas com pincel, terebintina, óleo de linho... Claro que há artistas que conseguem explorá-lo muito bem. Com um computador na mão, Leonardo da Vinci faria coisas infernais. Aliás, bastava uma caneta Bic...
O ateliê, então, é uma espécie de cozinha?A cozinha talvez seja o único lugar em que eu não penso em pintura. Ela é uma continuação da coisa lúdica de misturar temperos, cores e tintas para criar algo saboroso, que faça bem aos outros.
Marido coruja, logo se vê. Pai coruja também?Não duvide. Meu filho mais velho, o Ruy, é produtor de tevê e cinema. Minha filha Thessia produz desenho animado em Nova Iorque. O menor, João Manuel faz universidade de direção de cinema. Donde se vê que o cinema também é cultuado na minha casa.
Você diria que a arte é hereditária?Não sei. Meu pai desenhava muito bem e minha mãe pintava leques. É fundamental a educação dentro da arte. Criança tem que jogar bola, soltar pipa, brincar e ir a museus.
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